lua doente de amor

lua doente de amor

pérolas liquefeitas
resvalam copiosas
ao punhal que perfura
o centro da dor

vertem cristais
de gosto amargo
palidez e torpor
dos globos rajados
pupilas em flor

ajuntam estragos
nos vales gelados
da última lua
doente de amor

wasil sacharuk


das vozes abissais

das vozes abissais

sem sentido
cisma
a esquizofrenia

escapa à normose
tal psicopatologia
acordes de versos
jornada sinfônica

na caverna platônica
das dissonâncias
a loucura e o medo
recitam segredos
ecoam nas pedras
vozes abissais

wasil sacharuk


tatoo

tatoo

Adornaste a mim
            então feio
a ti me fiz tanto
           mais belo
devotei minha fé
tatuada num verso singelo
e teu dedo
irrompeu em minha boca
enroscou na língua louca
           deliciada ao sabor
                          do teu pé

wasil sacharuk


energia

energia

indomável córrego
 entrerrios
verte arroios sombrios
         dentre as pedras
brilha vincos de sol
       sobre as matas
nutre postes de luz
           sob as luas

wasil sacharuk


Sopro



Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os  versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro  que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

ela odeia o sistema

ela odeia o sistema

Morena
é a filha pequena
de um homem branco
com Filomena

ela canta ciranda
logo reza novena
ela salta ela dança
depois chora e grita
ela odeia o sistema

Morena encanta
quando ajunta fonemas
e põe laço de fita
num papel de poema

wasil sacharuk


nova canção de amor

nova canção de amor

esse amor diz coisas
que eu já não entendo
esse amor faz coisas
que não sei explicar

esse amor que adentra
por janelas abertas
esse amor sopra vento
rasga raio e tormenta

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

esse amor sente coisas
que cortam por dentro
esse amor que tem coisas
que me fazem voar

esse amor se inventa
por palavras incertas
esse amor canta o tempo
feito em música e letra

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

wasil sacharuk

 

escorpião dos subsolos

escorpião dos subsolos

não sabes dos rumos ingratos
que desembocam nas águas
aprende comigo a dormir
 no embalo das ondas

sou escorpião dos subsolos
do cárcere entre os cascalhos
minhas garras fortes em fio
são cortes certos e frios
que me irrompem dos olhos

wasil sacharuk




istopor - palavrinventada

istopor

istopor
bicho polimerado
monstro anormal
monômero de estireno

fenômeno termoplástico
rígido e quebradiço
de estranha textura
protetora armadura
dos eletrodomésticos
e dos equipamentos
informáticos

istopor
não é aromático
não tem cor
nem sabor
mas pode ser prático

se isolar o calor
da minha ânsia de amor
sobre teu gelo estático

wasil sacharuk

Coleta do chão minhas vísceras

Coleta do chão minhas vísceras

Amor meu
organiza
coleta do chão
minhas vísceras

não me deixes meio
me faças inteiro

ajunta-te comigo
no meu purgatório
trocaremos fluidos
do freio
e o óleo

wasil sacharuk

Requiescat in pace



Requiescat in pace

a poesia morta
foi velada num barco
navegou errante
viagem da sorte
por águas simplórias

ficou rígida e fria
não existe mais
história remota
se talvez existisse
ecoaria silêncios
pelas noites abissais

morreu no último verso
como havia de ser
nenhum aiaiai
nenhuma saudade
ou infames promessas

partiu livre a poesia
para ser lida às avessas
bem como tanto queria

lírica alma
saltitante pelas calçadas 
encontrou a floresta
e lá descansou

com um sorrisinho 
no cantinho da boca

wasil sacharuk


cruz e caldeirinha

cruz e caldeirinha

deus
diabo
o que dá
o que tira
traço dos tempos

os mitos laboram eventos
pressupóem estranhezas
a história e os rompantes
que de tudo são antes
mera invenção

na escala da razão
o melhor senso
nem vai discutir
religião

wasil sacharuk

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

Ainda que o reprovassem
Jamais hesitava exacerbar a descrença. Crítico ferrenho das instituições, das corporações e ideologias, definia a existência ao declínio das teologias, das ciências e filosofias.

Ainda que o reprovassem
Era adepto ao amor. Philos, Ágape, Eros. Entendia ódio tal amor em ruínas.

Ainda que o reprovassem
Da sua sementeira voavam minúsculos grãos. Nutriam os estômagos logo após o crivo da terra. Sabia que plantar era necessário e viver não era uma escolha.

Ainda que o reprovassem
Dia desses ofertou aos pássaros e borboletas uma rosa escancarada. Dela desprenderam sorrisos de néctar.

Tudo porque ele sabia
Que amor não tem dono
Que a fé não frequenta igrejas
Que o conhecimento é um mutante vivo e sagaz.

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura
Quando desatava os nós com seus dedos carinhosos
Quando cobria os gelados, os mortos e os calculistas com imenso cobertor.

E não contava nada disso a ninguém. Nada. Nada.
Era ele expectador dos próprios méritos. Singular autor de seu anonimato. Singular tal as outras criaturas. E singular sabia ser.

E por isso o reprovavam.

Tudo por que sabiam
Com toda a força do mundo
Que ele odiava a hipocrisia.

wasil sacharuk

Maria das Dores

Maria das Dores

desata-te das dores
Maria
expulsa a amargura
para longe do barraco

se amor não tem poesia
só pode ser simulacro
a vida não deve ser dura
o brilho não deve ser fraco

inventa outro dia
Maria
de um amor singular

amor que ocupa espaços
amor que dança
amor companhia
que conduz os teus passos

depois canta
o tanto que pode ser vasto
o mesmo amor que te mata
é o que estende o braço
onde vais descansar

wasil sacharuk
 

Evoé, amore mio

Evoé, amore mio

evoé
amore mio
que te embriagues
na ânfora de vinho
na minha morada
vivo sozinho
nem lembro mais nada

se Baco
baila no espaço
rock moderno
não baila sozinho
insanos festejos
pelos desterros
do nosso inferno

wasil sacharuk

estrelinha

estrelinha

estrelinha brilhava
plena de encantos
entretanto
não era pequena
mas era só uma

então ela pairava
tão leve flanava
estrelinha amena
tal uma pluma

wasil sacharuk


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Abdução

Abdução

estava ela
meia perdida
do inseparável par
desaparecida
na máquina de lavar

wasil sacharuk

Aprende

Aprende

expande
            moléculas do ar
aprende 
                    com aquilo que sente
                           e com o que falta
escuta o arrebol
    que rasga o véu
            e declina na mata

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

escapa                   
da razão eloquente
e após desacata
as benesses do bem
as maldades do mal

                   no final
não resta um vintém
as crendices são mortas
esconde as tolices
depois fecha a porta

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

aprende a amar
se amar vale a pena
declama um poema
na língua do sol

wasil sacharuk

memórias de clorofila

memórias de clorofila

não sou mais árvore
tornei-me outono
em plena ação
agora sou estação
morte suave
do viço

debandaram pássaros
o tempo
tem minutos postiços
apaga memórias
de clorofila

despejei minha história
na costa do oceano
não guardei nada
e o vento
junta as folhas secas
num canto
da enseada

wasil sacharuk

de tanto voar criou asas

de tanto voar criou asas

ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk

De água elemento



De água elemento

confesso à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
meu mar desconhece

sou fluido nas águas
deságuo pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
meu mar desconhece

passeio pelo céu
deitado numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
meu mar desconhece

navego à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer teus anseios
meu mar desconhece

wasil sacharuk
leonardo ramos
fotografia de Leonardo Ramos

Escombros

Escombros

O que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

Na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

Tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

Nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

Se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk


livre poesia ao luar

livre poesia ao luar

morena
percorre os dias
na encosta verde dos rios
que o assovio da ventania
e o impulso bravo das águas
levarão tristezas sem trégua
a outros quintos sombrios

ondas batem nas pedras
espocam incertas
vertem lençóis pelas noites
livre poesia ao luar
logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

morena
o sol sempre brilha
durante as madrugadas
descalço anda na areia
e logo quebra as regras
descansa o raio na pedra
na cidade da sabedoria

deixa portas abertas
as janelas floridas
coloca amor e dá vida
cor às coisas cinzentas
logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

wasil sacharuk


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Insolente

Insolente

Desejo tua boca inteira
e beijo, faceira, os lábios molhados
o teu olhar esfaimado
arrastado
invade o meu sono

Desejo teu calor indecente
e deliro, insana chama ardente
o teu toque insistente
fervente
irrompe na vida

Organiza a festa
apaixonada orquestra
embriaga e escuta

Desejo a tua louca maneira
E percebo, arteira, os olhos fechados
o teu suor misturado
melado
que cola meu corpo

Desejo esse teu ar insolente
e te atiro na cama quente
para te dar um presente
comovente
de alma atrevida

E agora o que resta
o que a língua sequestra
bandida e astuta.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Jpeg

Dhenova

A fertilidade das ideias

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A fertilidade das ideias

Plantarei sementes em teu crânio
que vingarão flores belas
visto que adubo já tem

wasil Sacharuk

dos tempos de crise

dos tempos de crise

já cutucou a língua
num canto da lua
aveludada de amor
hoje lambe o amargo
das correntes de aço

intrincados elos

a cruz forma vértices
ângulos retos
aos braços

e os tímpanos
tilintam silêncio
espocam incertos

pende o corpo
carne esqueleto
mas não é morto
apenas repleto

wasil sacharuk

sobre os tempos de crise

Jardineiro pássaro

Jardineiro pássaro

na terra generosa
cultiva flores extraviadas
frescor e viço                    
ao feitiço                     
dos beijos do sol        

jardineiro pássaro
deglute significados
de poesia

aos campos silentes
seu trinado lírico
chuvisca raras sementes
que lhe voam do bico

wasil sacharuk

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Colírio

Colirio

se desejas ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎junto ao luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎na secura do teu olhar

wasil sacharuk

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Louco da poesia


Louco da poesia

No silêncio dessa noite
a lagoa dança tão calma
e faz repousar o açoite
que corta as estradas
que entorta as almas
até despertar a cidade
adormecida ao meu lado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser inundado
pela maré das verdades

Nesse instante da vida
tomo nuanças desumanas
a desvendar os motes
dessas luzes embriagadas
no teto sobre a cama
até encerrar as vontades
no meu mundo quadrado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser tocado
pela minha insanidade

Nessa fase da lua
as dores são soberanas
e desafiam a morte
com lágrimas e gargalhadas
essas paixões tão insanas
a romper a estabilidade
do meu mundo inventado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser enganado
pela minha obviedade

wasil sacharuk

Doula

Imagem: The Nurtured Way

Doula

Doula
que hoje és minha mãe
sagrada companheira
que douta
te fazes parteira
na comunhão
da santa maternidade

Doula
que hoje és verdade
e estendes tua mão
para o evento de outra
fatal liberdade
hoje a vida volta
a pedir teu afeto

Doula
de ternos sujeitos
e não objetos
dona de coração
e amor caridade
tão forte que és
doula da minha coragem
da massagem
da mensagem
e da minha fé

wasil sacharuk

Ponte para o retiro



Ponte para o retiro

Quero cruzar pela ponte
que interliga horizontes
leva ao céu tal escada
enrosca na crosta do mundo
lá no fim disso tudo

lá encontro o início do nada

quero andar sobre estradas
asfaltos vielas e trilhos
verei sedentários e andarilhos
pelos cantos das ruas
sob a lanterna da lua
a mente resignada

quero a alma elevadiça
a visão privilegiada
para enxergar a injustiça
as mentiras e a cobiça
e a dignidade ultrajada

decerto já vi tudo antes

quero montar elefantes
e apagar as pegadas
gravadas pelos caminhos
para evitar emboscadas
dos espíritos dissonantes

e trilhar o universo sozinho

wasil sacharuk

Imagem: Sonho Causado Pelo Voo De Uma Abelha Ao Redor De Uma Romã Um Segundo Antes De Acordar, Salvador Dalí, 1944

Pura


Pura

Cada palavra, perplexo
Cada cume um uno
Palpita tesão dislexo
Cada desejo uma fome
Cada estrofe desforme
Cada respiro
Engolindo
Seu suspiro

cada vão desconexo
cada escolha um rumo
que valha um amor sem nexo
em cada nó que consome
cada palavra de fome
naquilo que inspiro
subtraindo
tuas defesas

sua forma
seu trejeito
aquele desejo
nunca deforma
toma forma
toma a mim
toma
e toma
em coma

meu mundo perfeito
entre um beijo
e o que me toma
e retoma
como um fim

e tuas
tão tuas
são minhas
e fome
vai
me engole

nua
tão crua
nas manhas
que se come
que se bebe
que se fode
a loucura
mais pura.

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Lusofonia de um poema


poeta Emanuel Lomelino

Lusofonia de um poema

As minhas palavras de Fado 
gostam de cantar continentes
e dançar carnavais de funaná.
As minhas palavras de bacalhau
têm fome de cachupa e funje
e sede de água de côco.
As minhas palavras de Tejo
navegam pelo Amazonas
e banham-se no Zambeze.
Quem as quiser encontrar
tem de ter na mão um planisfério
e descobrir onde fica Lusofonia

Digo alguns versos de samba
às ruas de Trás-os-Montes
com os Pauliteiros de Miranda.
Digo alguns versos de feijoada
com um tanto de óleo de palma
e uma garrafa de vinho do Dão.
Digo versos de pedra da Mina
que ecoam na Montanha do Pico
e são ouvidos no alto do Binga.
E quem os quiser escutar
tem que sucumbir aos mistérios
e as belezas da Língua Portuguesa.

Emanuel Lomelino & Wasil Sacharuk

Eu não queria ser poeta


Eu não queria ser poeta

Sabe, eu não queria ser poeta
mas carrego a sina
que me azucrina
de tratar as letras
tal fosse um esteta

Assim faço tudo errado
são ruins meus poemas
vazios meus dilemas
não há um que se salve
pois afinal
sou um escriba boçal
e não o Castro Alves

Meu chefe reclama
que não penso em grana
mas somente poesia
e talvez chegue o dia
de ficar desempregado

Mas sou um tipo danado
fugitivo da vida dura
bem longe da amargura
no meu reduto encantado

E de tudo o que gosto
não é do poema que posto
mas do fato que me amas
e que me esperas na cama
enquanto me dizes poeta

mas não queria ser poeta
contudo tenho a sina
que ainda me azucrina
de tratar as letras
tal esteta

o pensamento redunda rimas
jamais digo as coisas certas

wasil sacharuk

Ao meu menino


Ao meu menino

No sábado te beijei enquanto dormias
para sonhares sob proteção
trocarmos raciocínios e poesias
que eu possa sempre pegar tua mão

Então eu quis 
beijar meu amigo
e que tenha toda 
a força da canção
e terei certeza que consigo
e que nunca mais 
volto a crer que não

Eu quero que tu ames as coisas simples
que todos sintam o transe do teu vinho
que entendam as essências dos teus males
para que aprendas a não andar sozinho

E pela manhã, o sol 
te aqueça a fronte
e jamais te falte 
o poder de decisão
que tenhas sempre 
nortes e horizontes
e o dom de ver
além da visão

E tu então serás para sempre meu menino
para muito além do fim dos meus dias
nutrido com o melhor do meu amor infinito
embalado nos desafinos das nossas melodias

Então eu quis
te ver dormindo
e descansar
mais um segundo
então eu vou 
te ouvir sorrindo
o sorriso mais lindo
do meu mundo

wasil sacharuk

Atitudes irracionais

Atitudes irracionais

É incrível como nosso subconsciente
nos condiciona mais e mais
a atitudes irracionais

Creio que sejam normais
essas nuanças da gente
que se mantém no frio
mas sempre está quente
é o que a gente faz

É incrível sentir o calafrio
um choque elétrico ardente
e não ficar indiferente
a tua nudez deslumbrante
do tipo fêmea no cio

É incrível como nosso subconsciente
nos faz ficar assim
a mil
do arcoíris pueril
ao degradê do sombrio

Mas de ver tua imagem silente
nessas fotos de costas
de dorsos, de frentes
fico com cara de idiota
e um sorriso contente

eis que nunca está morta
a verve de quem sente

wasil sacharuk



D'algemas quebradas


D'algemas quebradas 

Vou para o futuro sem olhar para trás
sem ouvir o eco das minhas palavras
esquecer dos caminhos que não cruzo mais
do som entristecido das antigas falas
aquelas que não se calam

Vou a outra poesia e ser novo homem
afinar a música em outras escalas
novos condimentos contra essa fome
tatear a escuridão dessas vias tortas
e certezas mortas

d'algemas quebradas erguer os punhos
d'algemas quebradas vou romper o mundo

Quero dormir morrendo em branco lençol
inverter os rumos que me levam ao sul
encontrar a faceta mais fria do sol
da minha sanidade o lado alucinado
quero o canto libertado

d'algemas quebradas erguer os punhos
d'algemas quebradas vou romper o mundo

wasil sacharuk

Pernas


Pernas

Amor, recebo teu presente
e como sempre
eu vou às estrelas

Te vejo reluzente
nas curvas belas
arcoíris resplandescente
em pastéis e cianetos
de discretas nuanças
vermelhas 
e amarelas

As tatuadas sentenças
na tua pele libélula
inspiram sonetos
milongas, vaneiras 
e tarantelas
doces matizes na tela
a florescer nos tercetos

Amor, eu fico contente
bem ali na minha frente
as tuas poses singelas
a coroar meu momento

Um arrepio violento
entorta as tabelas
tal golpe de vento
e me faz sorridente
na plenitude inocente
prazeres à luz de velas

E revivo as novelas
que semeiam promessas
nessas tardes quentes
com chuva na nossa janela
a alimentar esperanças
convites a outras danças

Amor, eu esqueço as mazelas
e sigo leve tal criança
se encontro o oriente
no doce rio da nascente
que se forma entre
tuas pernas

wasil sacharuk

Vasto

Vasto

Habita em mim

a raiva
chama acesa
ardente
exata
marcada
afinada

ao tom incerto
no toque inconstante
espalhada na trilha

num rompante

Quando a raiva
insinua
e adentra a noite
arranha
a pele nua
como açoite

meu grito aberto
tão deselegante
risada que humilha...

Habita em mim

a calma
abstrata
emoldurada
largada
frouxa
figurada

ao sabor do vento
no beijo amante
encantado na parceria

fulgurante

Quando a calma
se torna
uma busca na vida
a alma
retorna
para fechar ferida

um doce momento
não está distante
ocultado na poesia.

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Militância

Militância

-O trabalho é fácil: você vai militar no facebook. Consiste em compartilhar posts mentirosos e denegrir os opositores. Moleza. Até criança faz.
-Mas, dona Gleisi, se alguém perguntar algo que eu não sei? O que eu faço?CYMERA_20170516_161510
-Sabe dizer: não vai ter golpe? Sabe? Então diz aí.
-Sei, "não vai ter golpe"
-Isso, perfeito. Então repete isso sem parar. Não vai precisar dizer mais nada.
-Mas se o coxinha insistir? Tem uns que insistem.
-Se o coxa insistir tu cospe nele
-Cuspir pela internet?
-É, acho que não dá. Então diz "não vai ter golpe"... fica repetindo. No fim do dia te trago um pão com mortadela
-E os trinta paus, a senhora vai trazer também?
-Não dá, o diretório está com dificuldades. Roubaram o cofre.
-Então acho que não vou querer o trabalho, dona Gleisi.
-Seu fascista, reaça! Você tem nojo de pobre, elite branca!

wasil sacharuk

Oxigênio


Oxigênio

Já te aprendi tanto
que a mim não enganas mais

desvendei rumos e recantos
fui o motivo dos teus desencantos
agora sei o que esconde os teus ais

e não venhas quebrar minha paz
com tuas mentiras insanas
faniquitos e artimanhas
dissimulações no teu pranto

já não me causas espanto
afinal, sempre ganhas
com tuas manobras tacanhas
e esse olhar sacrossanto

agora não há mais jeito
nem projetos ou campanhas
que abafe o som do meu canto

pois saibas que tenho o direito
de me libertar do quebranto
e tragar o novo ar das montanhas

wasil sacharuk

Fantasma Guru

Fantasma Guru

criaste um fantasma
ao qual chamaste guru
num formato de miasma
diversos matizes de blue
um degradê de contrários
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

mas no mundo dos fracos
viste planar simulacros
onde vingou a profecia
de decretar baixaria
no vaivem dos hormônios
de dar indulto aos demônios
aos jogos e bruxarias

criaste fantasma da insônia
das tiranas
balzaquianas
perfumadas de alfazemas
e odores
de todas as cores
além do piercing na vagina

entre os estratagemas
e o show de horrores
prevaleceu a sina
do holográfico
fantasma guru
e seus dons mágicos
que resultaram trágicos
e decepcionantes
tal tomar anilina
e pensar em refrigerante

criaste o fantasma
em traje de gala
ao qual chamaste guru
que cala
e não fala
não pensa
não presta
uma besta
pretensa
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

wasil sacharuk


O leão corre insano pela noite

O leão corre insano pela noite

o leão corre insano pela noite
  quando passa lento o tempo
  trocando minutos por sonhos
  nas pegadas da insônia
  as minhas pernas cansadas

o felino esmaga gramíneas
  ao entorno das savanas
  quando eu tento respirar
  quando eu tento respirar

refaço as linhas
  caminho estelar
  lá se unem os espaços
  ao meu corpo astral

se chegar o ocaso
  fecharei os olhos
  para não ver o leão

quando as forças da terra
  anunciarem o dia
  eu já poderei ir

o leão corre insano pela noite
  o leão corre insano pela noite

quando as forças da terra
  anunciarem o dia
  eu já poderei ir

quando o voo da noite
  deitar as asas ao sol
  eu já poderei ir

wasil sacharuk

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Mar de desenganos

Mar de desenganos

Naveguei o mar dos desenganos
naufraguei com meus planos
refiz o destino ao piano
outro improviso
de outra canção

brotou paixão mexicana
eloquência cigana
natural sedução

naveguei oceanos de encantos
mergulhei nos recantos
diluído em recatos mundanos
com água na embarcação

naveguei o mar dos desenganos
vivi séculos em anos
busquei o que amo
tanto indeciso
na minha razão

atraquei em mares de lama
nas marés mais insanas
na mais profunda escuridão

naveguei uma dúzia de arcanos
atravessei oceanos
a desaguar emoção

wasil sacharuk

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