Boneco de ventriloquia

Boneco de ventriloquia

Fernandinho era um menino de madeira. Boneco bonzinho, estudioso, que sonhava ser presidente do Reino dos Chongamongas.

O destino implacável pregou-lhe terrível peça: Sua conquista dependia de subjugar-se a um maldito ventríloquo manipulador.

Sua ruína: A cabeça de madeira quase não suportou a mão suja que a manipulava. Fernandinho odiava emprestar sua boca aos movimentos obscuros daquela voz fascinora.

E aquele ventríloquo, rato desprezível, ofertou o lindo sonho ao menino boneco. E todas as possibilidades se fizeram reais. 

Fernandinho agora já não era bonzinho. Havia um mundo para conquistar.

wasil sacharuk

astronave

astronave

atenção tripulantes da nave Ursal
na órbita da terra Carnaval
estejam prontros para o pouso
e não esqueçam da nossa missão

enfrentar militantes do Coiso
detonar aos fiéis ao ladrão
caçar tamanduás sem bandeira
e quem cobra alugel em ocupação

enviar todos eles numa astronave
com algemas e tornozoleira
granada no cu e alarme

nem coroné
nem a besta
nem o doutor
nem o cristão

nem invasor
nem parasita
nenhum machista
sequer elenão

nenhum tucano
ou bolivariano
ou fantoche bobo 
do patrão

enviar todos eles numa astronave
com algemas e tornozoleira
granada no cu e alarme

wasil sacharuk


microcosmo

microcosmo

--Sonia, tu nem sabes quem chegou na favela.

-Quem? Conta logo! O Emicida?

--Não, Sonia, aquele que vai ser presidente, o Andrade. Vamos lá receber ele. Ele é um coroa bem gatinho. Vamos logo. Vai estar todo mundo lá.

-Mas Livinha, ele não é aquele fantoche do lula?

--Acho que é. Eu vou votar nele. 

-Livinha! Como um presidiário poderá mandar no Brasil?

--Que presidiário? O Andrade é detento?

-O lula, mulher!

--Lula é presidiário? Nem sabia. Ué! Mas, não é um presidiário que manda aqui no morro?

wasil sacharuk


meada

meada

estendo o fio de poesia
no percurso até Vênus
para jamais me perder

logo oferto tangerinas
aos pés da tua santinha
já sei orar sem perceber

conta-me
conta-me
se estás pensando algo

ama-me
ama-me
eu quero sempre te sentir

fala-me
fala-me
quando quiseres algo

chama-me
chama-me
eu posso sempre te ouvir

meus versos em rodamoinho
turbilhonam desconexos
para jamais te esquecer

estendo a linha da meada
até teus pés de bailarina
e dançarei até aprender

conta-me
conta-me
se estás pensando algo

ama-me
ama-me
eu quero sempre te sentir

fala-me
fala-me
quando quiseres algo

chama-me
chama-me
eu posso sempre te ouvir

wasil sacharuk


veromar

veromar

chegarei sem vestígios
dar banho nos peixes
esconder os mariscos
sem intertextos
e discursos prolixos
´
vou ver o mar
vou ver o maaaar




haicai submerso

haicai submerso

nosso amor profundo
de água vento e areia
é chão no oceano

wasil sacharuk


haicármico

haicármico

enquanto não colhes
a natureza te ama
e te deixa dormir

wasil sacharuk


não me proíbas

não me proíbas

não me proíbas de pintar-te nua
capturar-te emoldurada
provocar teus fluidos
arrancar teus suspiros

não me proíbas de escrever-te musa
de brindar poesia
ofertas à deusa
dos mil sacrifícios

wasil sacharuk


haicai da plenitude

haicai da plenitude

tua alma guarda
surpresas e os encantos
tudo e além

wasil sacharuk


pele e sal

pele e sal

poros de areia
teu par de dunas habita
doces fantasias

wasil sacharuk


haicai na lua

haicai na lua

boca de vento
e ouvidos de maré
que dançam na lua

wasil sacharuk


haicai de boca

haicai de boca

um beijo é pouco
precisa muita saliva
a regar a rosa

wasil sacharuk


tua voz

tua voz

espera-me crua
no distante oriente
guardiã dos absurdos
que perpassam as noites

eloquente
a lua
ama-me aos sussurros
suave e tranquila
imita tua voz

wasil sacharuk


entre as papilas da etimologia

entre as papilas da etimologia

catarse promete sabores 
amargos e ácidos
difíceis de engolir e vomitar

apreendi o gosto 
quando a provei 
entre os papilas 
da etimologia

e não é nada doce

wasil sacharuk


lua ciumenta

lua ciumenta

a lua espreita
pensa-se dona
não sabe da sinfonia que toca
se pisco meus olhos

lua ciumenta
não se rende
e resiste

pobre lua
ela até tenta
mas na nossa cama
não nos vê

wasil sacharuk


SOS verve II



SOS verve:
só uma metade já serve
eu cubro com uma cereja
hoje tudo pode
menos melacueca de pagode
ou ranço de guampa sertaneja.

oh, poeta, não se enerve
é só chamar no ferve-ferve
e a parceria já verseja
a poesia dá o bote
alcança macia a sorte
da companhia benfazeja

eu já tenho certeza
que quando penso forte
o tico fala ao norte
o teco responde ao sul
que a essa hora da noite
o céu já não é mais azul

melhor é deixar a correnteza
levar assim sem recorte
versos de alguma beleza
vindos do sul ou norte
espalhar delicadezas
por onde quer que toquem

antes que as fontes sequem
liberamos as correntezas
comprei uma cachaça forte
deixei um copinho sofre a mesa
caso a gente se entorte
declamaremos de língua presa

E mesmo dado por encerrado
não consigo me deixar de fora
estando tudo certo e nada errado
deixo meu recado agora:
mesmo com o tico e o teco avariados
ainda somos massa nos recados!

Marisa Schmidt & Wasil Sacharuk


vai mulher anda comigo



 vai mulher anda comigo

vai mulher anda comigo
          pela costa da laguna
     onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na sua cabeça

espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
 antes que me esqueças
            vê nas frestas da janela
            que essa noite espera
            que sejamos amantes

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
na torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma

ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
              duro de pedra

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

vai mulher anda comigo
              pela costa do mar
imprimir nossas pegadas
   pelo curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar

jardineiro das memórias
eu cato as flores mortas
que viveram tão valentes
são crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

wasil sacharuk


SOS verve I

SOS verve I

SOS verve:
uma metade já serve
e eu cubro com uma cereja
hoje tudo pode
menos melacueca de pagode
ou ranço de guampa sertaneja

Vem escrever a estratosfera! que megera é essa de tênue razão? carcomeremos o ego da plebe com fios de saltos perfurando o chão

vêm escrever sem sequelas! Que a espera é só alienação. Acenderemos o fogo da febre com versos altos gritando emoção

e que haja a benção dos bruxos no sonho dos loucos ! completa amplidão ! 🤗😍

Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

fotografia de Andréa Iunes

borrão

borrão

não bebi a Clarice Lispector
não comi o Augusto dos Anjos
leminski ou mário ou manoel
sou só medíocre escritor
de nenhum cânone eu manjo
só sei jogar no papel

wasil sacharuk



Púrpura é a cor

Púrpura é a cor

Nós
somos um poema encaixado
que não desprende os versos
e suplica por coesão
mas deixo que vivas tua vida

sem saber o que passa
sem saber o que passa
sem saber o que passa
apenas por essa súplica...

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mas eu não folheio
essas páginas para que o livro
acabe
meu sustento encontro
nas linhas de rosas e espinhos
e nas noites tão frias
eu te esgoto: vampiro sou
sim, nas noites tão frias
para poder dormir sob o sol
que nasce em tuas costas

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Sol e cristais
vejo o teu céu
espinhado nas rosas
púrpura é a cor
que vertes de mim
do inferno que sou
oh, não me permitas mais
nunca mais ser
um inferno para ti

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk


pelos mares sem astrolábio

pelos mares sem astrolábio

a morte beijou-lhe os lábios
✝️💀 🧟‍♀️tão docemente

o sangue verteu-lhe regato
🧟‍♂️🧟‍♀️🧟‍♂️ tão docemente

legião tomou-lhe o corpo
✝️💀✝️ tão docemente

sobranceiro findou o seu sopro
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♀️ tão docemente

foi tão docemente

o anjo o levou para o sábio
✝️💀✝️ tão docemente

o destino zombou tanto ingrato
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️ tão docemente

o eterno atracou ao seu porto
💀⚓ tão docemente

a morte o lançou ao espaço
💀✝️✝️⚓tão docemente

arrastaram as correntes
a vida desfeita num laço
tão docemente

pude ouvi-la partir
tão docemente

wasil sacharuk


chovendo delícias

chovendo delícias

Não tortura-te
frágil fruto amora
que logo adentro a ti

Estive pele afora
percorrendo tuas coxas
e chovendo delícias
na tua boca

wasil sacharuk


ela e as ancas

ela e as ancas

ela anda pela floresta
ela e as ancas
ele a vê
ele a quer

ele a persegue
ela apressa
ele apressa
ela titubeia
ele para
ela congela
ele anda
ela corre
ela corre
ela corre

ele corre
lépido
perspicaz
e rápido

ela corre
desajeitada
ela e as ancas
ela e os seios

exausta se esconde
detrás de um tronco
ele a perde
ele a procura
ele a vê
ele a quer

ela levanta
ele corre
ela corre
ela corre
ele a alcança
ele a pega

ela grita
ele a joga
ele a subjuga
arranca a blusa
ela grita
ela chora
ela bate
ela chuta
ela o derruba
ela foge

ele corre
ele corre
ela foge
ela foge

ele a alcança
ela e as ancas

ele a fode
ela explode
ele pode
ele pode
ela o vê
ela o quer

wasil sacharuk


chuva tocada a vento


Parecia sonho mas era poesia

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