chuva tocada a vento


Parecia sonho mas era poesia

vida selvagem


O quanto de amor

O quanto de amor

O tempo das horas não modifica, a lua continuará espelhando luz å irrelevância das minhas respostas. 

Assim, continua aos teus passos firmes a engolir a novidade dos ventos que te sopram. Meu calendário já não marca efemérides e na cratera do meu espaço, o fundo é uma cama de rochas pontiagudas.

Amanheço com a boca aberta para beber gotas de orvalho e o sabor amargo ainda me refresca. Logo terei gelo envolto em minhas vísceras. 

O quanto de amor ainda me tens?
O quanto de amor ainda te tens?

wasil sacharuk


amoreira


um lugar


um lugar

quando esse frio for embora
quando essa chuva passar
         entre as canecas de café
         haverá para nós um lugar

o mar deitará sobre as rochas
            e os pássaros voltarão a voar
no jardim das flores eternas

    tu correrás para o mar
            eu vou pegar uma estrela
para nós haverá um lugar

quando voltar o calor
quando passar essa dor
        poderemos de novo andar
       pelos parques e riachos

tu correrás para o mar
    eu vou pegar uma estrela

tu correrás para o mar
    eu vou pegar uma estrela

para nós haverá um lugar

quando passar essa dor
haverá para nós um lugar

wasil sacharuk

17 de julho

prana

Gosto

pictórica

zangada

zangada

zabe,
zozeuzuni
zuni zunindo
zuni zoando
zucrinando zovidos
zim
zom
zum

zabe,
zozarranhei
zeus zombros
zás
zim
zom
zum

zaiu zangue
zencheu zozolhos
zorei
zorei zorando
zangada

wasil sacharuk

Teu santo nome

Teu santo nome

terrível algoz
oculto na senda
irrompi as manhãs
que amaste
tão honestamente

tomei-te o tempo
tomei-te a agenda
embacei o teu viço

joguei-te ao feitiço
de ser minha vítima
e eu
também vítima de mim
fui juíz e pecado

santifico teu nome
na noite escura sem lua
na chuva fina sem fim
outrora pronunciado
na minha boca imunda

wasil sacharuk

Usa os dentes


Usa os dentes

usa os dentes
marca-me a carne
saliva e batom
meu prazer
teu dom

sê o cárcere
desses desejos urgentes
inglesa poesia eloquente
a recitar-me com classe

perde o tom
provoca aflição
aniquila-me num passe
tua magia impaciente

usa os dentes
até que a pele esgace
dor arrepio frisson
língua garganta e mão

sê o ápice
o gozo insurge vertente
apara delicadamente
quando explodir em tua face

wasil sacharuk

Açucena de Maria



Açucena de Maria

Açucena de Maria
nasceu flor solitária
sobre a terra queimada
de uma semente de amor
e mais nada

não surgiu beladona
pelos rios e riachos
floresceu do substrato
desabrochou da tristeza

Açucena de Maria
a altivez da beleza
viveu flor mulher
sobre a terra cansada
onde não nasce flor
onde não vinga nada

wasil sacharuk

a beleza da minha destruição

a beleza da minha destruição

noite traiçoeira
prestidigitadora
oásis da minha sede
quando o sol dá as costas

empresta raios ansiosos
plasma lua
em teu corpo

sei reger noites
para te contemplar
faço luzes
para represar teus contornos

enquanto amas
a beleza da minha destruição

wasil sacharuk




rasgo lírico de espinhos

rasgo lírico de espinhos

lavo-te
a jorrar poesia
toque de ourives
produto final
raro artefato
sem traços concretos
livre artesanato

esfrego-te
o brilho da mente
um fiat luz
e os insights
a chama do corpo
um desejo objeto
abstrato

explodo-te
meu néctar
poema primaveril
doçura incompreendida
venenosa e agravável
rasgo lírico
de espinhos

wasil sacharuk


trova 2

trova 2

meus dedos pousam-te os lábios
percorrem os seus contornos
riscam desenho tão belo
volúpias e desadornos

wasil sacharuk


trova 1

trova 1

digas o que está previsto
quero entender os perigos
digas acerca dos riscos
se quero brincar contigo

wasil sacharuk


morcego

morcego

não abras a porta
bem sabes
eu sei voar
adentro pela janela
quando olhas a lua

wasil sacharuk


poesia no escuro

poesia no escuro

envolto em asas
encontro-te na lua
até a chegada do dia
e os raios em brasa
podem matar a poesia
livre e perdida
nas vias da liberdade

derreto tal Ícaro
com asas estendidas
valente frente ao sol
nu frente à lua
nada tenho a perder

wasil sacharuk

The Lament for Icarus, Herbert Draper

haicai 1

eu chovo tristezas
quedam as águas na terra
salgando o meu chão


wasil sacharuk


Cárcere Curitiba 3

Cárcere Curitiba 3

Calamar Cachaceiro conseguiu com Comandante Carcerário convite chamando Calamarzinho  conhecer cela com colchão comum.
Calamarzinho, congênita cria Calamar com criatura colocada caixão, começou catando cocô, contudo conseguiu chegar cargo CEO com corporações comerciais consideráveis. Comprou companhia comunicações, comprou cervejaria...

Conforme Calamarzinho chegou, Calamar começou confabular:

- Calamarzinho, caro congênito, com cartão crédito Caixa, compre celular com cinco chips, com carga cheia, com câmera chelfs.

- Câmera chelfs?

- Certo, cumpanhero Calamarzinho. Com câmera chelfs Calamar colocará circular cara carente com cuidados,  como Calamar cobre corpo com cobertor, como Calamar coloca cabeça colchão comum, como Calamar caga com cagatório conjugado, como Calamar conduz campanha com celular conversando com coordenadores. Calamar conquistará comiseração criaturas comuns, colaborando com candidatura.

- Comprarei, caro camarada.

- Caralho, Calamarzinho. Camarada confere com coisas comunistas. Continua calado, catador cocô!

wasil sacharuk


Cárcere Curitiba 2

Cárcere Curitiba 2

"Chegue cá, cumpanhero carcerero. Conforme cumpanhero conhece, Calamar conduziu chefia continente Carnaval conquistando carinho criaturas carentes. Como carcerero confere com criatura cujo contracheque cria comiseração, considerei conversar com caro cumpanhero.
Calamar considera conceder cerca cinco centenas cruzados como colaboração com custos cabíveis com caro carcerero. Cumpanhero conseguirá comprar carne, comprar charutos, comprar champanha, comprar carro, comprar casinha centro Copacabana... carcerero conquistará coisas com conjuge, com crianças.

"Caraca, chefe Calamar. Como carcereiro carece colaborar com chefe?

"Calma, cumpanhero. Carece começar copiando chave cela. Carece continuar comprando cachaça cinquentenária, carece continuar comprando créditos celular... Calamar colaborará com carcerero com coração condoído. Conte cédulas, cumpanhero.

wasil sacharuk


Cárcere Curitiba 1

Cárcere Curitiba 1

Calamar Cachaceiro, conhecido criminoso com centenas crimes corrupção, cabalmente condenado cumprir cana compartilhando casa com chefe carioca chamado Cabral. Como chefe central continente chamado Carnaval, Calamar configurou conduta correspondente com certa cretinice, conivente com corrupção, com conchavos com construtoras. Canalizou cerca cinco centilhões cruzados comprando coisas continentais, comprando criaturas, corrompendo caráter cantor Chico, cantor Caetano, Chaui, comprando casas conjugadas, comprando cachaça cinquentenária, consumindo com canudinho. 

Calamar consiste criatura corrupta, canastrão cuja cara confere com cu cabeludo. 

Confira causos com Calamar Cachaceiro, cheios com canalhices cravejadas com cinismo correspondente com criações conduzidas com CaraCabeludo.



musa

musa

não me proíbas de te pintar nua
capturar-te emoldurada
       procurar teus fluidos
          arrancar teus suspiros

não me proíbas de te ter como musa
                         de te brindar poesia
ofertas à deusa
          dos mil sacrifícios

wasil sacharuk


o que o teu coração quer

o que o teu coração quer

procuro-te no ar
asas de passarinho
amor de menino
carinho e suor
meu dedo na ponta
do teu nariz

teu olhar ingênuo
sorri divertido
nos teus cabelos
perco meus dedos
deslizam fáceis
tal lágrimas de felicidade

faças então
o que teu coração quer
ele não é escravo
de um amor que abusa
e reclama
deixa ele tirar
a tua blusa
e dizer que te ama

e essa minha vontade
que grita na carne
de saber o segredo
de um suspiro qualquer

deliras na dança
da união dos teus mares
e dos dons incontáveis
que te fazem mulher

faças então
o que teu coração quer
prende com cravos
minha alma suja
na tua cama
e me deixa gozar
no teu olhar de coruja
na tua pele cigana

wasil sacharuk


Duro

Duro

faço gelo
no meu coração
blocos cortantes
fio de diamante
obtuso
e duro
corte cristal

sem impacto
sem desvelos
sem corante
sem conservante
nem emoção
apenas razão
e uma pitada de sal

wasil sacharuk



queda livre

queda livre

devagar
e tão pleno
teu beijo
invade minha boca
explora recônditos
passeia livre
poesia e língua
se dão libertinas
enroscam aos dentes
entrelaçam
gentilmente soltas

queda livre
leva-me ao céu
um estranho céu

wasil sacharuk



Relíquia de sangue

Relíquia de sangue

adornadas asas
sobrevoaram savanas
ela dançou para a lua
venturas ciganas
quando a fúria dos ventos
espalhou queda d'água

as forças e os argumentos
aboliram as pragas
mas nada
conseguiu fenecer
o jardim
das suas belezas

na inundação
dezenas de estrelas
despencaram caladas

quando o raio
incrustou sua pele
percorreu os mistérios
acordou escorpião
fez relíquia de sangue
de graça e de inferno
de um amor para sempre

wasil sacharuk


sobre o poeta

sobre o poeta

num campo de abstração
perdi as galochas
e na poesia
empurrei alicerce
escorei firmamento

sou poeta eremita
de heresia ironia e lamento
mistura de pó de estrelas
com pó de cimento

urbano sem urbanidade
a recusa da natureza
desafio aos arcanos
das obviedades

trago-te a doçura
dos meus infernos
e a face obscura
dos meus intentos

wasil sacharuk


Fagulhas e medialunas



Fagulhas e medialunas

Da nossa nave
deprendem
fagulhas luminosas
espocam livres aos pares
ferindo a crosta

carregamos a caixa
com pequenos óvnis
autossustentáveis
e não poluentes
embarcaremos neles
para ver a lua

comeremos medialunas
duas crateras à esquerda
do campo de pouso

wasil sacharuk

para a poeta Márcia Castilho


Catilinas conversa com Chauí

Catilinas colocou casaco contra congelamento corporal, conseguiu carona com caminhoneiro cuiabano. Conforme chegou capital chamada Curitiba, concebeu compartilhar camping comunista, com companheiros cuja condição compete com coçar colhões, coçar chavascas, contornando cela cuja confederação colocou criminoso canalha, chamado Calamar Cachaceiro, cumprir cana.
Catilinas conheceu criatura controversa, com cabelos crespos, com camiseta colorada, como Chapolin. 

Catilinas conversou:

-Como chamas, criatura?

-Chauí.

-Conta, companheira Chauí, como consegue colar cu cadeira confronte cela criminoso Calamar?

-Caro Catilinas, Calamar criatura cuja consciência compete com cientista continental, criou condições carentes comprarem casa, criou Cesta Comunitária, cuja competência consiste com carente comprar comida, criou carreiras, construiu colégios, conquistou continente com conversa consistente. Cidadãos classe central culpados! Calamar coincide com criatura com conduta cristalina. Contudo, Catilinas, classe central cínica! Colocou Calamar cadeia com cama cujo colchão carece conforto. Configuraram conspiração contra Calamar Cachaceiro. Contudo, caro companheiro, Calamar colocará candidatura como comandante confederativo.

-Caraca, companheira Chauí, confundindo Calamar Cachaceiro com Cristo? Como criminoso corrupto, Calamar carece cumprir cana.

-Calamar crucificado como Cristo! Colocaram Calamar cadeia como critério coibir candidatura, Catilinas. Classe central culpada, Catilinas. Classe central composta com canalhas. 

-Credo, Chauí. Como consegue criar consciência comparável com cinismo? Criatura, cabeça Chauí configurada como cu, calibrando cada cagalhão como convém! Cala, criatura!

wasil sacharuk




considerações como confederação chamada Carnaval combateu congestionamento causado com caminhoneiros

considerações como confederação chamada Carnaval combateu congestionamento causado com caminhoneiros

chefe Câmera Comércio convocou Central Caminhoneiros colocarem caminhões congestionando cruzamento. Cada caminhoneiro colocou cartaz com chamamento convocando chefia central considerar capital comprometido com compra combustível. Compete Chefia Central considerar como conscientizar cidadão como combustível carece cobrir caos causado com corrupção.

Carece capitalizar companhia cujo capital contribuiu com compra casas, chácaras, condomínios, carros, colares, colocar capital congestionando cofres confrontados com contas correntes com companhias continentais cuja competência confere com continua calado com condições correspondentes com cálculos conduzidos com cliente correntista.

Contudo, cidadãos cuja casa confere com confederação chamada Carnaval, continuam com cara chapada, com cultura carente, com cabeça cheia com cocô. Cidadão continua como camelo, carregando corcova carcomida. Cabe cidadão considerar continuar comparecendo colégio, como critério consolidar cultura centro cabeça.

wasil sacharuk


Considerações cabalísticas

Considerações cabalísticas

canal comunicativo cujo conceito compete comentar coisas concernentes com conjuntura, colocou convite convocando criaturas comparecerem conversação crítica com coxinhas cheiradores, com comunistas comedores criancinhas, considerando comentar como Comandante Central conduz condições como cidadãos convivem. Coube cada convidado comentar como compra comida, como contabiliza contas, como contrata crédito consignado, como compra combustível, como considera congestionamento causado com caminhoneiros, como concorda com cretinice, como compactua com candidatos canalhas. Contudo, cada cidadão continuou calado, com cara compatível com cu cagado. Cada cidadão colabora construindo considerável cagalhão continental!

lua doente de amor

lua doente de amor

pérolas liquefeitas
resvalam copiosas
ao punhal que perfura
o centro da dor

vertem cristais
de gosto amargo
palidez e torpor
dos globos rajados
pupilas em flor

ajuntam estragos
nos vales gelados
da última lua
doente de amor

wasil sacharuk


das vozes abissais

das vozes abissais

sem sentido
cisma
a esquizofrenia

escapa à normose
tal psicopatologia
acordes de versos
jornada sinfônica

na caverna platônica
das dissonâncias
a loucura e o medo
recitam segredos
ecoam nas pedras
vozes abissais

wasil sacharuk


tatoo

tatoo

Adornaste a mim
            então feio
a ti me fiz tanto
           mais belo
devotei minha fé
tatuada num verso singelo
e teu dedo
irrompeu em minha boca
enroscou na língua louca
           deliciada ao sabor
                          do teu pé

wasil sacharuk


energia

energia

indomável córrego
 entrerrios
verte arroios sombrios
         dentre as pedras
brilha vincos de sol
       sobre as matas
nutre postes de luz
           sob as luas

wasil sacharuk


Sopro



Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os  versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro  que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

ela odeia o sistema

ela odeia o sistema

Morena
é a filha pequena
de um homem branco
com Filomena

ela canta ciranda
logo reza novena
ela salta ela dança
depois chora e grita
ela odeia o sistema

Morena encanta
quando ajunta fonemas
e põe laço de fita
num papel de poema

wasil sacharuk


nova canção de amor

nova canção de amor

esse amor diz coisas
que eu já não entendo
esse amor faz coisas
que não sei explicar

esse amor que adentra
por janelas abertas
esse amor sopra vento
rasga raio e tormenta

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

esse amor sente coisas
que cortam por dentro
esse amor que tem coisas
que me fazem voar

esse amor se inventa
por palavras incertas
esse amor canta o tempo
feito em música e letra

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

wasil sacharuk

 

haicai de outono

engodo e magia
a cortina de fumaça
brumas de poesia

wasil sacharuk


haicai sem kigô

Plata dos amantes
de Argentina milonga
e tango em Corrientes
wasil sacharuk


escorpião dos subsolos

escorpião dos subsolos

não sabes dos rumos ingratos
que desembocam nas águas
aprende comigo a dormir
 no embalo das ondas

sou escorpião dos subsolos
do cárcere entre os cascalhos
minhas garras fortes em fio
são cortes certos e frios
que me irrompem dos olhos

wasil sacharuk




istopor - palavrinventada

istopor

istopor
bicho polimerado
monstro anormal
monômero de estireno

fenômeno termoplástico
rígido e quebradiço
de estranha textura
protetora armadura
dos eletrodomésticos
e dos equipamentos
informáticos

istopor
não é aromático
não tem cor
nem sabor
mas pode ser prático

se isolar o calor
da minha ânsia de amor
sobre teu gelo estático

wasil sacharuk

Coleta do chão minhas vísceras

Coleta do chão minhas vísceras

Amor meu
organiza
coleta do chão
minhas vísceras

não me deixes meio
me faças inteiro

ajunta-te comigo
no meu purgatório
trocaremos fluidos
do freio
e o óleo

wasil sacharuk

Requiescat in pace



Requiescat in pace

a poesia morta
foi velada num barco
navegou errante
viagem da sorte
por águas simplórias

ficou rígida e fria
não existe mais
história remota
se talvez existisse
ecoaria silêncios
pelas noites abissais

morreu no último verso
como havia de ser
nenhum aiaiai
nenhuma saudade
ou infames promessas

partiu livre a poesia
para ser lida às avessas
bem como tanto queria

lírica alma
saltitante pelas calçadas 
encontrou a floresta
e lá descansou

com um sorrisinho 
no cantinho da boca

wasil sacharuk


cruz e caldeirinha

cruz e caldeirinha

deus
diabo
o que dá
o que tira
traço dos tempos

os mitos laboram eventos
pressupóem estranhezas
a história e os rompantes
que de tudo são antes
mera invenção

na escala da razão
o melhor senso
nem vai discutir
religião

wasil sacharuk

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

Ainda que o reprovassem
Jamais hesitava exacerbar a descrença. Crítico ferrenho das instituições, das corporações e ideologias, definia a existência ao declínio das teologias, das ciências e filosofias.

Ainda que o reprovassem
Era adepto ao amor. Philos, Ágape, Eros. Entendia ódio tal amor em ruínas.

Ainda que o reprovassem
Da sua sementeira voavam minúsculos grãos. Nutriam os estômagos logo após o crivo da terra. Sabia que plantar era necessário e viver não era uma escolha.

Ainda que o reprovassem
Dia desses ofertou aos pássaros e borboletas uma rosa escancarada. Dela desprenderam sorrisos de néctar.

Tudo porque ele sabia
Que amor não tem dono
Que a fé não frequenta igrejas
Que o conhecimento é um mutante vivo e sagaz.

Não havia nada nesse mundo tal aquela criatura
Quando desatava os nós com seus dedos carinhosos
Quando cobria os gelados, os mortos e os calculistas com imenso cobertor.

E não contava nada disso a ninguém. Nada. Nada.
Era ele expectador dos próprios méritos. Singular autor de seu anonimato. Singular tal as outras criaturas. E singular sabia ser.

E por isso o reprovavam.

Tudo por que sabiam
Com toda a força do mundo
Que ele odiava a hipocrisia.

wasil sacharuk

Maria das Dores

Maria das Dores

desata-te das dores
Maria
expulsa a amargura
para longe do barraco

se amor não tem poesia
só pode ser simulacro
a vida não deve ser dura
o brilho não deve ser fraco

inventa outro dia
Maria
de um amor singular

amor que ocupa espaços
amor que dança
amor companhia
que conduz os teus passos

depois canta
o tanto que pode ser vasto
o mesmo amor que te mata
é o que estende o braço
onde vais descansar

wasil sacharuk
 

Evoé, amore mio

Evoé, amore mio

evoé
amore mio
que te embriagues
na ânfora de vinho
na minha morada
vivo sozinho
nem lembro mais nada

se Baco
baila no espaço
rock moderno
não baila sozinho
insanos festejos
pelos desterros
do nosso inferno

wasil sacharuk

estrelinha

estrelinha

estrelinha brilhava
plena de encantos
entretanto
não era pequena
mas era só uma

então ela pairava
tão leve flanava
estrelinha amena
tal uma pluma

wasil sacharuk


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Abdução

Abdução

estava ela
meia perdida
do inseparável par
desaparecida
na máquina de lavar

wasil sacharuk

Aprende

Aprende

expande
            moléculas do ar
aprende 
                    com aquilo que sente
                           e com o que falta
escuta o arrebol
    que rasga o véu
            e declina na mata

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

escapa                   
da razão eloquente
e após desacata
as benesses do bem
as maldades do mal

                   no final
não resta um vintém
as crendices são mortas
esconde as tolices
depois fecha a porta

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

aprende a amar
se amar vale a pena
declama um poema
na língua do sol

wasil sacharuk

memórias de clorofila

memórias de clorofila

não sou mais árvore
tornei-me outono
em plena ação
agora sou estação
morte suave
do viço

debandaram pássaros
o tempo
tem minutos postiços
apaga memórias
de clorofila

despejei minha história
na costa do oceano
não guardei nada
e o vento
junta as folhas secas
num canto
da enseada

wasil sacharuk

de tanto voar criou asas

de tanto voar criou asas

ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk

De água elemento



De água elemento

confesso à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
meu mar desconhece

sou fluido nas águas
deságuo pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
meu mar desconhece

passeio pelo céu
deitado numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
meu mar desconhece

navego à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer teus anseios
meu mar desconhece

wasil sacharuk
leonardo ramos
fotografia de Leonardo Ramos

Escombros

Escombros

O que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

Na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

Tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

Nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

Se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk


livre poesia ao luar

livre poesia ao luar

morena
percorre os dias
na encosta verde dos rios
que o assovio da ventania
e o impulso bravo das águas
levarão tristezas sem trégua
a outros quintos sombrios

ondas batem nas pedras
espocam incertas
vertem lençóis pelas noites
livre poesia ao luar
logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

morena
o sol sempre brilha
durante as madrugadas
descalço anda na areia
e logo quebra as regras
descansa o raio na pedra
na cidade da sabedoria

deixa portas abertas
as janelas floridas
coloca amor e dá vida
cor às coisas cinzentas
logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
colorir tuas asas lindas
com a minha poesia

wasil sacharuk


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Insolente

Insolente

Desejo tua boca inteira
e beijo, faceira, os lábios molhados
o teu olhar esfaimado
arrastado
invade o meu sono

Desejo teu calor indecente
e deliro, insana chama ardente
o teu toque insistente
fervente
irrompe na vida

Organiza a festa
apaixonada orquestra
embriaga e escuta

Desejo a tua louca maneira
E percebo, arteira, os olhos fechados
o teu suor misturado
melado
que cola meu corpo

Desejo esse teu ar insolente
e te atiro na cama quente
para te dar um presente
comovente
de alma atrevida

E agora o que resta
o que a língua sequestra
bandida e astuta.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Jpeg

Dhenova

A fertilidade das ideias

540828666
A fertilidade das ideias

Plantarei sementes em teu crânio
que vingarão flores belas
visto que adubo já tem

wasil Sacharuk

dos tempos de crise

dos tempos de crise

já cutucou a língua
num canto da lua
aveludada de amor
hoje lambe o amargo
das correntes de aço

intrincados elos

a cruz forma vértices
ângulos retos
aos braços

e os tímpanos
tilintam silêncio
espocam incertos

pende o corpo
carne esqueleto
mas não é morto
apenas repleto

wasil sacharuk

sobre os tempos de crise

Jardineiro pássaro

Jardineiro pássaro

na terra generosa
cultiva flores extraviadas
frescor e viço                    
ao feitiço                     
dos beijos do sol        

jardineiro pássaro
deglute significados
de poesia

aos campos silentes
seu trinado lírico
chuvisca raras sementes
que lhe voam do bico

wasil sacharuk

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