Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Os demônios do esquecimento



Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente. Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais. Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk


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