Errante

Errante

Vi o amor sereno
gravar versos
nas tábuas d'alma

Vi o dia de calma
desconheci as alturas
e as quedas
entre as estrelas e o piso
impensados movimentos
invariavelmente
imprecisos

Vi a força do vento
refrescar o sorriso
de dentes de pedra
e de corte
diamante
que rompeu horizontes
das fronteiras
entre vida e morte
do céu e da terra

Vi o nada que espera
além do norte
e doutras esferas
onde habitam
extintos mamutes
urubus e elefantes

Vi teus olhos distantes
a esconder vagalumes
que apagam
e acendem
luzes incertas
brilhando bem fortes
nos meus versos

Vi os sonhos dispersos
no meu planeta conciso
tal marés violentas
á deriva da sorte
navegando errantes
bem distantes
do que chamei paraíso

wasil sacharuk



Poesia dos desadornos

Poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram sua pele
que voam ultraleve
mesmo na queda dura

ela ama as rosas
e também os espinhos
a dor e a textura
das entregas deliciosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
que declama sem ar
os cumes do seu corpo
a ilha entre suas pernas

versos brancos desabrocham
suplicam que os contemplem

ela ama os acordes
sinfônicos de violino
os dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
que um verso adentre
destrave os seus dentes
entreabra sua boca
explore recônditos
gengiva e língua

poesia dos desadornos
que expande e amingua
desenha contornos
ao entorno das dunas

rosas brancas desabrocham
suplicam que as contemplem

wasil sacharuk

mackbyNG2

A umidade da noite



A umidade da noite

Brinquei com o nariz da noite na pontinha do meu indicador. Ela, surpresa, mirou gentilmente bem dentro dos meus olhos e sorriu pelo canto da boca. Há dias que a noite acorda no jardim, contando estrelas inocentes. Então eu sorri para ela também.

Corremos, dançamos e, depois, mergulhamos desnudos numa gota de orvalho. Exploramos profundamente. Apneia de sete segundos.

E a noite, toda molhada, se abriu toda, estrelada e lânguida. Logo, percorri com meus dedos, bem dentro, dos cachos dos seus cabelos, que enroscados num canto da lua, despencavam incertos pelo breu.

Ela, a noite, generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinado, a penetrei pelos olhos.

wasil sacharuk





Risco

Risco

arrisco a pele
à crueldade do risco
desruga a carne no vinco
tuas unhas amoladas

selvagem felina

sei que nada
te domina
nem os avessos
sequer incertezas
se inclinas garras finas
sobre as faces

wasil sacharuk

mackbyNG3

Os demônios do esquecimento



Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente. Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais. Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk


Helena de um mundo abissal



Helena de um mundo abissal

descubro-te imersa no amor 
teu mergulho inteligente
eis que brotas tal semente
no quintal da minha casa

logo posso colher-te
num poema que te acalente
envolta nas minhas asas
tu Helena
de um mundo abissal
lá onde o amor é lenda
renova sua sentença
noutra história sem final

te insinuas na senda
a vestir tua pele
com o que te cabe
e te despes da cal
que te queima a carne
clareia teus karmas
circunda tua aura

é esse amor
linda Helena
que elevo na escrita
diz a mim pela arte
e tatuou o teu nome
na minha espádua

wasil sacharuk

O servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.dinheiro-3-300x220
Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções.
Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho. 
Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.
Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco.
Vendeu seguros. Desejou estar seguro.
Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu.
Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

wasil sacharuk

Persistência

Persistência

O mundo percorre as distâncias
e o tempo marca o resto(de vida)
Segue o homem as circunstâncias
sem saber que a sina está decidida

Segue os caminhos das lembranças
de preto no branco quiçá coloridas
avanços agudos e das reentrâncias
de memórias vivas e das esquecidas

Na soma das probabilidades
numa conta que nunca dá certo
é difícil equacionar a felicidade
se o amor quase nunca está perto

E se vive a juntar os pedaços
reerguer o próprio amor das ruínas
a tentar preencher os espaços
dos incidentes na rota da sina.

Marisa Schmidt & Wasil Sacharuk

dd791bb7b75b0b0c6e7428a1fed28647

Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa, o Milton, foi dançarino. Dos bons. Bem alcunhado pelo viés do talento. Moço bonito de bigode bem feito e um terno bege retro, quando pousava as mãos na parceira certa, aquela que o destino gentilmente lhe presenteara, não carecia mais do que três ou quatro parquetes para a eficácia da performance. Pedevalsa era galã canastrão e beberrão assíduo, mas dançava como nenhum outro. E, ainda moço,CYMERA_20160627_210806 venceu mais de dez concursos de dança. Tudo dependia da escolha acertada da partner.

Com Cristina venceu o último concurso, aposentou a noite, os sapatos brancos e casou. Trabalhou de ajudante do quitandeiro Helmut para poder garantir a prole. Não foi fácil. Teve de dançar, e muito.

Hoje Pedevalsa saiu da consulta geriátrica e decidiu visitar o casarão abandonado do antigo "O Sobrado", a casa noturna onde dançou com as mais belas donzelas da cidade. Restavam apenas escombros circundando a pista onde deslizou seus mágicos pés por vinte e um anos. Suspirou fundo, circundou a fina cintura da esperança com seu fino braço esquerdo, e com o direito, segurou a mão da sina para o último bolero.

wasil sacharuk

Esparramo reticências

Esparramo reticências

Vejo tudo de soslaio
oculto entre as verbenas
seus olhares estranhos
ora risonhos
ora tristonhos

por isso que eu traio
as parcas certezas

conviver é o ensaio
de cortesias e delicadezas
entre hipocrisia tamanha
ora artimanha
ora inocência

minhas ignorâncias
eu nem percebo

vejo tudo tão placebo
efêmeras cantilenas
paixões tão amenas
morrendo no vício
de múltipla falência

esparramo reticências
do que eu tenha
a ver com isso

cansei dos artifícios
photoshopadas belezas
sobre tecidos azedos
maquilando segredos
que não me dizem respeito

eu vivo do meu jeito
e ocupo minha vaga
a deslizar os dedos
sobre as chagas
dos meus próprios medos

wasil sacharuk

1bf80064c9da61477574a08c99a13d8c

Abaixo de Zero

Abaixo de Zero

Riscaria desenhos
acaso houvesse neve
apenas há cristais agudos
de dura perplexidade

um grande parque morto
de brinquedos absortos
tanto mudo
e surdo

o desvelo
é bater a bengala
num bloco de gelo
para ver o quanto aguenta
esse frio violento

pensaria que é somente
mais um inverno
de água e vento

e aquela pressão
que aumenta e diminui
ora dentro
ora fora
e parece que surge
de todos os lados

seria simulacro de coração
que soa cristalizado
se o calor vai embora

wasil sacharuk

´'... e na cabana de madeira, os estalidos do gelo ecoam na penumbra azulada. Lá fora, o mar branco corta na sua agudeza de ser apenas branco, escrachado e afiado, não cortante, e o céu exibe o tom quase amarelo, cinzento brilho de algo mais. Na frente da casa, as marcas do caminho de ontem sumiram. Tudo uniforme, liso. Gotas caem do telhado, pingos grossos, escorrem e saltam ao infinito, antecipando o novo, que acontece... surge  o raio amarelo, fininho,  que incide sobre à arvore mais próxima, os estalidos aumentam e a luz se faz... cá dentro, agora, a lenha seca crepita mais forte, refletindo o sol em cada faísca.’  (Dhenova)


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Esse site é apoiado por INSPIRATURAS