Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Apolo

Apolo

se a luz
é traço
é rastro
ou rasgo
a lanterna é facho
ao fim da rua

se a lua
é espaço
é pedaço
é um astro
que ilumina esfera
reflete num laço
espelha na terra

luz amarela
luz arrebol
luz pleonasmo
luz que empresta
regente da orquestra
luz do sol

wasil sacharuk


Degredo

Degredo

Teu mundo é abismo
e o diabo te sabe
na noite fria
te rouba
sem poesia
te sangra
com unhas de aço
e voz de cristal

não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
além do retrato
das tuas faces

teu mundo é o amor
que aquece e queima
sopra e esfria
zomba
angustia
e zanga
não deixa rastros
do mal

não há lugar
escrito no espaço
do céu
na terra ou no mar
não há lugar
além da moldura
da tua janela

não há lugar
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na terra ou no mar

não há lugar

wasil sacharuk

Laurel

Laurel

leu livros 
letras lúcidas 
legítimo lume 
louca lira 

libertou lindas luas 
lavrando léxico 

livre 
lançou linhas 
labirintos ligados 
limpou lama 
lágrimas 
lamúrias 

levantou leve 
liso leito 
lúgubre luz 
luziu lapsos 
logo 
logrou louros 

longe 
longínquo 
levitou 
literatura livre 
lírica lápide 

wasil sacharuk


Vaneira

Vaneira

Dois pra cá
dois pra lá
versos gaudérios
raízes profundas
da Habanera

vem garrida
guria velha faceira
adornada de pulgas
de garra e vontade
tal nas brigas
sem clemência

vem tanto torta
acertando o esqueleto
pura malemolência
desafia o senso
desafia a ciência

eis que a rota dos tempos
fez a ti
a longeva
senhora das dores

bate à minha porta
derruba minhas flores
senta comigo ao vento
vamos juntar nossas patas
em eterna vaneira

wasil sacharuk

Indulto

Indulto quiçá a humanidade a lograr no desterro ainda discuta ainda escute ainda se nutra ainda se embuche dos erros dos atos omissos naquele canto que bêbado mija nos larápios do antro nas broacas da missa no indulto que ratos de esgoto gentilmente cospem bem no olho do seu culto wasil sacharuk

diamantes falsos

diamantes falsos

pecaminoso
o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor

tanto incrédulos
quanto insanos
acordes teimosos
quebram pedras

uma a uma

irremediável torpor
orvalho e suor
cadentes gotas
ao piano

pecaminosos 
diamantes falsos
inventam amor
o sabem de cor

o som dos mistérios
a dor dos enganos
indecorosos
segredam pétalas

wasil sacharuk

sanga


sanga

verte
alma de sanga
deságua
ao fluido escasso
de poesia

e sangra
a verve
das matas

subverte
a pedra fria
ao espelho de sol

wasil sacharuk

Estrada de ferro

Estrada de ferro

Decerto
não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

Trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

Decerto
não és um hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas
bem cravados
a sustentar o ferro
de nossas vidas

wasil sacharuk

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viagem da gota serena

Viagem da gota serena

Ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira

guiei um cometa
nas dunas de areia
costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

wasil sacharuk



O pingente

O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.
Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk


vambora


vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
fovever

amora
let's go
I promise you

wasil sacharuk



Perdido em Porto Alegre



Perdido em Porto Alegre

tempos bons
horas brilhantes
até outro amanhecer
história delirante
e seu grande final

assim brinquei dia inteiro
até fumei meio cigarro
após o arroz de carreteiro
junto ao gato frajola
no quintal

insanidades noturnas
de plena poesia
e minúcias de artesão

as mulheres belas
com seus copos
e as canecas
com caldo de feijão

perdido em Porto Alegre
poesia e abstração
o dia inteiro
a viagem com amigos
num supertáxi maneiro
para correr dos perigos

wasil sacharuk
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