Acaso quisesse morderia



Acaso quisesse morderia

Acaso quisesse
engoliria o parceiro
até o teto do céu
gosto agridoce
leite com mel

talvez fosse
heroína no corcel
a montá-lo inteiro
galope ligeiro
crinas nas faces

os medos recriam enlaces
histórias sem roteiro
do mundo cruel

e ainda
se quisesse
faria pedaços do parceiro
para cumprir o papel

de morte 
com cheiro de noite
de sorte
com gosto de fel

wasil sacharuk
acasoquisessemorderia

Alma das paredes

Alma das paredes

aqui é cinzento
nessas casas lindas
do século XVIII
suas paredes têm alma

aqui são tristes
passam calmas
as noites frias
e dos úmidos dias
apenas ouço
os murmúrios

aqui é escuro
profundo
tal poço
as cores sombrias
perpassam 
os olhos intrusos
que me habitam

eu ainda te vejo
eu ainda te vejo
te vejo
para sempre

apenas ouço
os murmúrios

aqui é cinzento
nessas casas lindas
do século XVIII
suas paredes têm alma

eu ainda te vejo
eu ainda te vejo
te vejo
para sempre.

wasil sacharuk
Mell Shirley - Alma nas Paredes (Mell Shirley - Wasil Sacharuk)

Luz que espreita a lua

Luz que espreita a lua

Teus olhos
mantenhas fechados
alguns minutos
seis ou sete

estarei ao teu lado
nada faças
apenas sintas

se depois
quiseres voltar
cá estarei
tal luz
que espreita a lua
lado oposto
ao escuro.

wasil sacharuk

Transportado

Transportado

estive em meu corpo
rejeitado e morto 
horas a fio
visitei galerias
um espaço sombrio
alagado e vazio
sem poesia

ninguém ao meu lado
solitário e cansado
estive com frio

escutei lamúrias
da esquizofrenia
insensatas histórias
no mundo quadrado
sem poesia

delirei acordado
o meu corpo suado
estive febril

estive enterrado
na lama das memórias
passagens inglórias
e andei por aí
transportado
por vias aleatórias

e passaram três dias
indistintos calados
sem poesia.

wasil sacharuk

Febre

Febre

fagulhas diluídas
despencam líquidas
são agressivas
tal coberta
urdida em lava

conexões abertas
repetem cismas
dos desconhecidos
desrugam a pele
a boca repleta
responde em gemidos

tecidos queimam
com nacos de gelo
e estalidos

o corpo banhado
no choro vertido
alquebrado
pela dor.

wasil sacharuk

Sepultada na cova das sinas


Sepultada na cova das sinas

Aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
em algum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim, meio louco
não conheço o tal deus
e nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

num toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita um anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e um insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos

wasil sacharuk


Nenúfar

Nenúfar

Se te fazes
-morena-
tão ninfácea
és nenúfar
que se destaca
doutros nenúfares
do grande jardim

Se te quero possuir
e espero que sim
escalo tuas montanhas
alucino nas curvas
total sincronismo
entre a estrada
e o fio do abismo

Empresta tuas águas
às minhas chuvas
e às enxurradas
ao olhar de Jaci
a agarrar o firmamento

Espero o momento
de beijar-te morena
de pele tão branca
que fica rosada
ao pordossol ciumento

wasil sacharuk

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Pela merda da televisão

Pela merda da televisão

Ainda bem que o céu ainda não despencou sobre as cabeças. Que poupe a nós, que vimos as nossas vidas parcas cobertas de fogo e lava sobre o intento da beleza.
A arte coitada sucumbiu em favor da mídia que bombardeia com gana e engana com sedução e astúcia ofídia. Esqueceram-se as delicadezas. E o tolo, idólatra de merda, repete a programação ao acaso. E das nossas certezas,sobrou apenas esse acaso.
Dizem que a vida vai de mal a pior. Dizem tanto, mas tanto, que já sei de cor, mas sei, também, que isso nada muda.
É melhor ficarmos atentos e aguardar que chegue um momento qualquer. Algo que faça diferença aos nossos moles miolos. Melhor esperar por alguma dor, talvez, ruptura. Alguns, decerto, desatarão em plena oração, outros tantos reclamarão que a vida é dura. Mas, disso eu já sei.
Ainda melhor que é farta a programação. Senão, restaria comentar as intempéries com o outro zumbi na fila do banco.
Podemos não entender o telejornal. Podemos rediscutir futebol. Olhar para a tela da vida pintada por uma novela e sonhar em ter alguma paixão. Somos uma nação de merda, comandada pela merda da televisão.

wasil sacharuk


Exposição



Exposição

as doutas
que estendem varais
também são artistas morenas

feições amenas
cansadas da lida
tatuadas dos ais

da vida

wasil sacharuk
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Cia de Teatro Parafernália

Nuanças Verdes



Nuanças Verdes

Debaixo daquela árvore
a sombra lembrou um desígnio
tal um signo
ou fantasma
a luz do espírito
ou apenas miasma

debaixo de árvores
enterraram as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
e brotaram raízes
as fracas e as fortes

debaixo daquela árvore
havia um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
mas isso dá na mesma
pois um sonho esmagado
vira água como uma lesma

debaixo de árvores
riscaram os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas

wasil sacharuk

Ócio criativo

Ócio criativo

na malandragem
na deboagem
sem ironia
sem cinismo
só poesia
só deboísmo.

wasil sacharuk
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