Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

A surpresa tem cara de falsa


A surpresa tem cara de falsa

Como pensas surpreender 
a quem tudo pode esperar?

o que não sei não me surpreende
minha fascinação 
são imagens desfeitas

espelhos diluídos
encantos quebrados
escondidos nos cantos 
do quarto

me surpreende
o que já sei
se o vejo diferente
o que não sei não surpreende

estilhaço estátuas
quebro paredes
busco resquícios de vida
na massa que une tijolos

me surpreende 
o que sei que está dentro
onde não sei onde está

o que nunca sei 
não me desmente
logo, não surpreende

pois a surpresa
tem cara de falsa
de mentirosa
argumento liquefeito

o que não sei não me é
o que não ouvi não me ecoa
o que surpreende 
rasga a garganta silente
e abre ranhuras
nos muros da mente

pelo resto não me fascino
sequer pela vida dura
que renasce no limo
que encobre as ruínas
e tal fênix
revolve a cinza da vida

não há surpresa
na coisa que verte
tão salva e linda
tatuada com a marca
da experiência
sal extraído das lágrimas
que depois se converte
em sorrisos e brilho

o que surpreende 
é o verme imundo 
borbulhante nas gotas 
do sangue mais podre
e habita o hiato da descrença

me interessam
a fraqueza confessa
e a feiura

logo, não me causes espelhos
a refletir lindas faces
tu os engoles
e nunca te engasgas
portanto, engolirás para sempre
para que não te percas de ti

o que me surpreende
apenas seduz
transmutando belezas
as quais eu já sei.

Wasil Sacharuk
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