Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

- Hoje, ele não voltou - Oficina INSPIRATURAS/APCEF - Narrativa não-linear



Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

Wasil Sacharuk
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