Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Deslizam lentos


Tela: Kurt Van Wagner


Deslizam lentos

deslizam lentos
os dedos
a boca
o queixo
a cabeça
a face
o tato
o nariz

deslizam lentos
a nuca
os cabelos
os fios

a mão espalmada
que puxa
assim, de leve
para não assustar

lentos
a língua
o nariz
deslizam
as bochechas
o lado
o outro

os recônditos
os dentes
a gengiva
o céu

as mãos
os  braços
os espaços
deslizam lentos

as pálpebras
os lábios
a linha
o desenho…
a umidade
o entorno
as dunas
a volta
o vale

lentos deslizam
os  olhos
que encantados
suplicam sentir.

Wasil Sacharuk
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