Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Tu vês?

Imagem: Auguste Rodin - Musée Rodin, Paris, France


Tu vês?

não apenas me olha
entra-me
bem no fundo
consegues?

percebe minha face
meus traços
delineia minhas rugas
tu vês?

toca minha barba
a mistura de cores
todas as que tive
do vermelho ao branco
entre castanhos diversos

mas gosto dos brancos
então vê
tal viste aos tempos
em cada fração
um desígnio

e meu charme
tão especial
remonta à histórias
que o tempo vai te contar
histórias comuns
que constroem um homem
do tipo real

wasil sacharuk
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