Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Caminho divertido

Camille Claudel & Rodin - Musée Rodin, Paris, França


Caminho divertido

Tocar-te os cabelos
deslizar-te os dedos
arranhar-te a cabeça
provocar-me arrepios

percorrer-te os olhos
teu nariz
na ponta dos dedos
e ver-te sorrir
sorrir-me a ti

brincar-te os lábios
olhar-te olhar
cara de fome
que atiça

minha boca 
teu pescoço
de baixo para cima
para depois
mordiscar-te o queixo

pegar-te nos ombros
beijar-te a boca
delicadamente
no cantinho
que sabe sorrir divertido

viajar-te as belezas
toques suaves
que deslizam
tal escultor
andarilho nas dunas 
de Camille Claudel
e tocar-te os picos 
minhas palmas

vigiar-te a boca
que entreaberta
sorri
e logo pede
lamber-te as coxas

mordiscar-te a pele
com cuidado
afastar tuas pernas
desvendar-te o cheiro
circundar-te leve
a língua

olhar-te
tal quem pede
o direito de ter-te
dedilhar-te as pétalas
beijar-te o núcleo
delicado

percorrer-te caminhos
língua molhada
perdida no meio
bailar-te na boca
para descobrir
teu sorriso divertido

wasil sacharuk




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