Rio Oceano



Rio Oceano

Se sobrevoo o rio
martim das asas azuis
da linha da vida o risco
do norte até o sul
costura rasgos sombrios

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro córregos mansos
pelos teus recantos
até beber um oceano
vertido sobre teus olhos

Se sobrevoo o rio
uma ave intrusa
de asas que não encolhem
nem sequer sob a chuva
que se queda por nós

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro as tuas rotas
por todos cantos
até beber um oceano
vertido sobre teus olhos.

Wasil Sacharuk

Naked Art


Naked Art

Esqueci de tolos preceitos
e pintei diluídas temáticas
foste tu recoberta de tintas
sem a fatalidade realista

Pincelei manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagens nuas sem retóricas

Desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e as pretas
descrevi a cena mais drástica
em teus lábios vermelhos sedentos

Transmutei em cores meus restos
com minhas vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

E te fiz assim tão impúdica
nas orgias do meu manifesto
do teu ventre aberto e impresso
donde surge a mulher magnífica

wasil sacharuk

Hipotenusa

Hipotenusa

O traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

E no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

Nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

Nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto.

wasil sacharuk

A Lua e mais nada

foto: W Sacharuk

A Lua e mais nada

vejo novembro
sob foco de lua
íris de ouro e prata
e tom nostalgia
luz que ecoa
na noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo coberto com véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
morre distante dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
quando dorme a lua

wasil sacharuk

Sobre a cama


Tela: Jean Benner

Sobre a cama

No dia em que eu acordar
coberto de águas azuis
com teu olhar diamante
presente
na fronte

jogarás sobre a cama
a minha fotografia

Se eu acordar algum dia
e não enredar tuas tramas
meus olhos fechados
não verão
nenhuma mágoa

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

no dia em que eu acordar
e não sentir o vento
a lua, o sol, o chão
choverá um lamento
numa canção
que te chama

e jogarás sobre a cama
a minha poesia

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

wasil sacharuk

Mais que um momento



Mais que um momento

percorro as noites
pelas ruas
meus caminhos incertos

percorro erros
percorro acertos
me perco sob as luas

e do lado de fora

do lado de fora
sei que o sol só brilha
a quem sabe beber chuvas

apenas a quem tenta

linda tu és mais
que um momento
me fizeste grande
me fizeste homem

linda tu és mais
que um momento

és meu tempo inteiro

linda tu és mais
que um momento
és meu tempo inteiro

ooh-ooh-ooh

procuro as falhas
no desenho celeste
reorganizo as estrelas

desato as amarras
que me vestem
em busca do que sou

e do lado de fora

do lado de fora
sei que a força da terra
só floresce em versos

apenas a quem tenta

linda tu és mais
que um momento
me fizeste grande
me fizeste homem

linda tu és mais
que um momento
és o  meu tempo inteiro

e do lado de fora

do lado de fora
um sentido desordeiro
se derrama em versos

apenas a quem tenta.

Wasil Sacharuk

A sapiência dos sapos

Ilustração: Piliero Adesivos

A sapiência dos sapos

perguntes ao sapo
acerca do que sabe
e ele dirá:

nada, nada, nada

a sapiência dos sapos
ensina a nadar
entender o alarido
nas águas turvas
do lago dos girinos

lá, onde o vento
não faz curva
mas ensina
a romper oceanos

Lamento
amigo destino
se não tracei planos
à minha sina.

Wasil Sacharuk

Autofake



Autofake

sou autofake de mim
e por fim
eu sou eu por si só

então uso pó
botox e photoshop
eu quero ser pop
e ficar bem bonito
o último grito
da moda

meu autofake é foda
e eu amo my selfie.

Wasil Sacharuk

Nos anais

Nos anais

Reger o continente depravado
É missão de sinistros animais,
Assassinos, ladrões e generais,
No parlamento esplêndido do Estado!

Organizam discípulos desleais...
A vil conspiração do Consulado
Por homens de respeito invalidado
Em quartéis, ministérios, catedrais

São bestas que figuram nos anais
Presidentes, senadores, deputados
E os juízes, assessores e cardeais

E o povo indolente e seviciado
Dá de costas, de frente e de lado
E vez por outra ainda pede mais.

David Moura &; Wasil Sacharuk


Autoclisma da Retrete

Autoclisma da Retrete

A escrita que de mim lês
trata de coisas inexistentes

se é que me entendes...

revelo nuanças holográficas
empreendo reações anormais
escapulidas multidimensionais
entre saídas acrobáticas

Sou broto de vida na internete
jamais floresce e nem rende

meus emblemas são lanças fálicas
acertam alvos desiguais
em poemas gritam versos abissais
escarros acesos sem temática

ao tocar o autoclisma da retrete
dos meus versos só resta o aceno

é tão bruto ter verve carente

minhas estrofes são cenas trágicas
milhões de ideias e os mesmos finais
de enredos utópicos virtuais
que declamam peças mágicas

wasil sacharuk

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Sabes...

Sabes...

gosto de ti
deliciosa
e toda
das formas que és

trazes a rosa
para o vento beijar

te gosto assim
quando te pões a soprar
despencar pétalas
em verso e em prosa
sobre as águas do mar

donde chegas sereia
a rabiscar movimentos
com raios de lua cheia

e tu danças
serpenteias
venenosa
depois cantas
fazes das letras
doces cirandas
para rodar
em volta da casa

tua canção desanda
as minhas tristezas
se me mandas deitar
ao teu colo

enquanto me encantas
com indecorosas
delicadezas

wasil sacharuk


O Bicho Carpinteiro

O Bicho Carpinteiro

O Bicho Carpinteiro
é o bagunceiro da escola
coleguinha "sem noção"
nunca aprende a lição

Chutou tão forte a bola
sequer havia goleiro
arrancou a flor do canteiro
o monstrinho está por fora

é um bichinho bobão
que não sabe ouvir "não"
nunca escuta a professora
briga durante o recreio

quando o bicho diz nome feio
os seus amigos vão embora
adora bancar o machão
é criador de confusão

e todos esperam a hora
do bicho ser menos arteiro
se não mudar isso agora
jamais terá companheiros

wasil sacharuk

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Almas de vento

Almas de Vento

E de que metade nos assemelha o sabor?
a coloração tácita do cérebro
um elo entre o visível e o invisível

- Quem somos nós?
Prendemos versos entre anéis do infinito
onde o fogo arde a dança néscia
um alimento ao irreal impossível

Não estamos sós!
Poetas das entranhas benignas
malditos seres com almas de vento...

- Quem somos nós, rastejantes?
ou voadoras flechas do intelecto?

Somos os prestiditadores dos signos
bardos confinados às letras e cantos
não estamos sós, mesmo distantes
nas sonhadoras curvas do dialeto

Inquietamo-nos sem saber...
aquietamo-nos por preguiça!
somos o raio que simboliza
e a dor que agoniza
inocência e malícia
de escrever.

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


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