Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Sentimento Léxico





Sentimento léxico

O que fazer com essas palavras úmidas, agarradas aos lodos das paredes? elas escorregam esverdeando as paisagens ...
temo um temporal e todas elas amontoadas num ralo,
subitamente começarem a pedir socorro!

O que faço com letras que despencam pontacabeça ao chão de cimento
e se escondem junto às formigas, nas rachaduras amalgamadas no quintal, em sentenças, farejadas pelo cachorro?

O que faço eu com a glote, quando travada, as vírgulas e as aspas, começam todas a dançar ao som maquiavélico dos pontos? são as interrogações dos espantos...
enquanto os "is" assumem uma outra cabeça: exclamações!
O que fazer com as palavras, quando tão mastigadas, me fazem tossir?

O que fazer com martelo e bigorna soando poesias pelas ondas no ar
e repicam por todos os cantos? Recitam um verso dislexo, entre tantos
quando um ouvido apreende antes que o outro esqueça as emanações
O que faço com essas letras quando nascem fadadas a sentir?

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
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