Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

A morte não é um clichê



A morte não é um clichê

Antes de mais nada, importa dizer que os familiares estavam inconsoláveis, de coração inundado de tanta tristeza. Alguns já estavam de olho na fortuna incalculável, afinal, as relações familiares são uma caixinha de surpresas. 

A capela onde ocorreu o velório estava literalmente tomada de amigos que distribuíram abraços calorosos aos entes queridos da falecida, provocando um ruído ensurdecedor.

Morreu de fato após um ataque fulminante que detonou o seu pobre coração. A morte é infalível e todos dizem que ela fez por merecer. Era pessoa de poucos amigos. Bem, para morrer basta estar vivo, já dizia o mestre. Agora jazia lá, com o olhar fixo no teto. 

Ela lança farpas para todos os lados, enquanto faz uma série de colocações infelizes com requintes de crueldade. Age sem pensar, a todo vapor. Gerar polêmica é sua especialidade, bate de frente com as pessoas, pois é uma fonte inesgotável de criar confusões e tecer duras críticas ao comportamento alheio. Contudo, na vida real, ela trabalha muito para suprir suas necessidades básicas e respirar aliviada.

Acumulou grande fortuna por meio da sua atuação impecável de importância vital, correndo por fora e tocando para frente seus projetos de avançada tecnologia. Seus negócios prosperaram do Oiapoque ao Chuí. Pelo trabalho incansável obteve estrondoso sucesso. Trilhando o caminho, se tornou uma líder carismática que sempre consegue indicar uma luz no fim do túnel. Todos agora lamentam pela carreira meteórica que a transformou numa vítima fatal do estresse cotidiano. Realmente, uma perda irreparável. Ela é um verdadeiro tesouro.

Mas, a pergunta que não quer calar é: por que é tão maledicente se, via de regra, tem todos os meios materiais para conquistar sua felicidade? O dinheiro pode preencher uma lacuna na sua existência. Apesar da conta bancária recheada, tem um coração frio que, a cada dia, sofre prejuízos incalculáveis. A vida pregou uma peça e lhe aplicou uma sonora vaia.

Mesmo estando todos visivelmente emocionados, intimamente sabem que a justiça tarda mas não falha. 


Wasil Sacharuk
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