Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Ao sopro norte dos ventos


Ao sopro norte dos ventos

Tu és índia menina
nas terras da dor e da rima
da tribo dos versos rasgados
trazes tristeza enlaçada
nos cabelos entrançados

quero estar
nos traços da lua 
por querer te saber
por querer

viveste sonhos tantos
duraram dias inteiros
atravessaram janeiros 
ilusões e desencantos
desenganos e devaneios

Índia, todos os dias
escrevas no chão
um verso de poesia
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo

deslizo os dedos
entre teus cabelos
beijo as madeixas
deitadas no meu peito
acarinho tuas queixas
afago as lembranças
liberto os lamentos
e desfaço tuas tranças
ao sopro norte dos ventos.

wasil sacharuk


Águas claras–acróstico

Águas Claras

Ah se as marés são das luas
Gelarás bem coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas que empurram as mágoas
a romper ribeirões pelos canos
Assim que somente deságuas
Seus correntes instintos insanos

wasil sacharuk

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O Último Charrua

O Último Charrua

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto Charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Tristeza arraigada

Tristeza arraigada

Hoje sou homem, apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano, nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

venha, abra as asas
não deixe-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

E quando eu voltar
cantarei tortas canções
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrões
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk

Chuva no quintal

Chuva no quintal

O entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

wasil sacharuk

Trôpego


Trôpego

verso errático, trôpego
cego, afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça, fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

wasil sacharuk
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