Casulo



Casulo

o monstro que mora 
dentro de mim
nunca o vi
mas o reconheço
ele é meu fim
sou seu começo

e que venha
que seja
se revele
e me assuste

que me mate
ou me mude

que eu me renda
ao monstro que mora 
dentro de mim.

Wasil Sacharuk

Ao sopro norte dos ventos


Ao sopro norte dos ventos

Tu és índia menina
nas terras da dor e da rima
da tribo dos versos rasgados
trazes tristeza enlaçada
nos cabelos entrançados

quero estar
nos traços da lua 
por querer te saber
por querer

viveste sonhos tantos
duraram dias inteiros
atravessaram janeiros 
ilusões e desencantos
desenganos e devaneios

Índia, todos os dias
escrevas no chão
um verso de poesia
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo

deslizo os dedos
entre teus cabelos
beijo as madeixas
deitadas no meu peito
acarinho tuas queixas
afago as lembranças
liberto os lamentos
e desfaço tuas tranças
ao sopro norte dos ventos.

wasil sacharuk


O Belo Violino de Swoboda

O Belo Violino de Swoboda

O violinista Swoboda quase complicou a vida das jovens aduaneiras. Trata-se de tal negócio que envolve mercadoria sem documentação. A governança não afrouxa o cerco, pois a busca não envolve apenas a garantia de receita fazendária. Oculta entre os meandros do fato há a sugestão de algum elemento de ordem ilícita ou, quiçá, imoral. Dia desses, logo após os ditames do culto, o Santo Ministro prescreveu contra os possíveis malefícios da música, quando essa atenta contra a solidez da boa-fé. “Eis que a música que não reverbera as sublimes harpas angelicais, por certo, será signo da decadência...”, mas, a carroça do destino sacoleja nas pedras enquanto se ajeitam as cebolas chorosas. A expiação do camarada Swoboda é um vislumbre do Cocheiro Superior que guia a vida desses malfadados hereges.

Eu nunca soube o quanto vale a danada sentença que provê a segurança e o repasto da plebe. Bem como, também não sei o valor que a corrompe. Se o soubesse, livraria o pescoço entortado pelas ancas do violino da lâmina que já o aguarda. Mas, primeiramente, suplicaria por tolerância às suas odes infames que remetem às orgias nas casas de apelos carnais. Eis que o ministro saiu a caça do músico tal quem caça ao demônio perverso.

 
Havia chegado da Inglaterra uma caixa de madeira que resguardava bela e rara peça de madeira esculpida por famigerado luthier. Disseram que, oculto entre as paredes curvilíneas de madeira nobre, havia minúsculo envelope contendo um polvilho alvo produzido por subversivo alquimista, provavelmente das afinidades do luthier. A dita substância foi recolhida pela sentinela do cais quando os carregadores entornaram a caixa e fizeram quedar o lindo objeto musical. O pó esparramado despertou o interesse da guarda aduaneira e das meninas serviçais do ofício. Mandaram chamar a capatazia que, por sua vez, ordenou o recolhimento do músico à cela escura junto ao porão da capela. O ministro foi imediatamente comunicado do enclausuramento do suspeito e não tardou ordenar a execução de Swoboda. O evento se dará no próximo dia trinta de agosto.

Quando interpelado pelo investigador do ministério, sujeito asqueroso patrocinador de inoportunos presentes aos infantes dos arredores, Swoboda afirmou que o pó branco encontrado junto ao violino não o pertencia. Disse ainda que o polvilho parecia ser a estranha substância comumente encontrada entre os pertences da assessoria e da guarda do Bispo Ronalgio, um italiano que goza da confiança do ministro e se diz guardião das fronteiras, ou ainda, o pó poderia pertencer a alguma daquelas jovens que habitualmente o acompanham, residentes ao entorno da aduana. O violinista, em discreto tom, ainda disse que a substância teria sido jogada sobre seu novo instrumento com a intenção de incriminá-lo. Como reprimenda à sua absurda resposta, o camarada tomou violenta bofetada do eclesiástico tarado.

Swoboda continuará trancafiado na cela da capela até a data marcada da sua decapitação. O seu interessante violino foi apresentado publicamente durante o sermão das dezoito horas de ontem como emblema da maldade. “As cordas desse instrumento vibraram a música profana de Satanás, e sua madeira escondeu o pó que acorda o pecado. Em virtude dessa afronta, o músico Swoboda não é digno das graças Divinas e terá de devolvê-las ao bom Deus no próximo dia trinta”, discursou o bispo enquanto erguia a peça acima da cabeça.

Com a finalidade de percorrer os contornos obrigatórios da justiça dos homens comuns, hoje ao alvorecer, as meninas da aduana foram também entrevistadas pelo investigador. Depois de poucas horas foram inocentadas e liberadas por carência de provas contra suas condutas e pelo louvável reconhecimento aos bons serviços voluntários que prestam ao caro Bispo Ronalgio.

Apreendido, o violino de Swoboda está aos irrepreensíveis cuidados do Cardeal Stefanenko, estudante dedicado e fiel à boa música e, também, colecionador das mais belas peças artísticas produzidas com a bênção de Deus e confiscadas em Seu nome.

wasil sacharuk






das'Dores

Tela: Marc Chagall


das'Dores

Não vou perder a vida
para as dores
círco dos horrores 
precipício
desfile de vícios 
multicores
nos ausentes olhos 
da modelo magricela

não vou assistir 
tudo da janela
ser outro pateta 
que peida flores
com tv a cores 
feito cela
e projetar na tela 
meu hospício

não vou me prostar 
no desserviço
a passos falsos
pelas tabelas
botar fogo nas velas 
contra enguiços
e girar a esfera 
dos estupores

não vou ficar aqui 
florindo flores
em versos infratores 
estilísticos
e inversos anticristos 
pecadores
na língua sem pudores 
das balelas

não vou nem ver
cair a espinhela
desplugada das válvulas
e sensores
das cinzentas cores 
dos suplícios

não vou morrer omisso
hoje eu quero 
morrer de amores

wasil sacharuk

Quase luz no imenso vazio

Rogério Germani

Quase luz no imenso vazio

Na janela, ela aguarda eclipses
ouve passos de enfunados sapos
arrisca um assovio 
um chiste
uma palavra que traga nova estrela
na ponta do dedo em riste

Na janela, ela não desiste
o olhar desenha outros espaços
no concreto, nos rios
na paisagem triste
planta motes de incauta beleza
na longitude dos traços

na outrora janela de sorrisos largos
ela insiste em coroar um verso
(quase luz no imenso vazio)
arrisca passos úmidos no puído caderno
e encontra a rima perfeita em seu silêncio
lágrima que desperta a poesia na alma

o sal liquefeito de amálgama
dispensa o amparo do lenço
e se funde no insight eterno
sobre um tempo de estio
quando o sol foi reflexo
e a poesia o afago.

Rogério Germani & Wasil Sacharuk

A alforria das minhocas

A alforria das minhocas

No mundo encantado das letras
habitam tantos e tantos poetas
alguns poucos tanto eloquentes
outros tantos um tanto estetas
mergulhados na água bem quente
da poesia que ferve a catarse

mas quem dera de mim eu falasse
no fim, às dores eu viro a face
já sei que minha praia é outra...

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

Risco meus versos no incremento
pensando em conquistar a adesão
com qualquer insano argumento

mas tudo isso é muita pretensão!

almejo aqueles leitores enamorados
que se entreguem de alma e coração
às razões e ao charme da escritura

com certa sorte na boca do intento
o poema arrebenta num dia iluminado
irrompido da ideia infante e pura
ganha o mundo tal cria bem parida

ele chega se encaixando no fluxo
viajando pelos universos utópicos
chega peralta e zombando da vida
com intenções desprovidas de luxo
ou sequer derrames claustrofóbicos

vai cochilar no berço das alucinações

cutuco as teclas no arrebate da ideia
e ainda quente eu a sirvo à francesa
numa bandeja colorida de proposições

mas quando a danada se rende ao ofício
convulsiona a bagunça das incertezas
as minhocas escutam lúdicas canções
e requebram livres no viés das belezas

wasil sacharuk


Demais


Demais

aquilo que julgam demais não me consome
pois sempre vem, me tenta e depois some
contudo, não fica atracado em meu cais

não devaneio em barracos ou catedrais
não temo as valentias ou bulas papais
encontrei minha bússula na felicidade

não, não desejo comprar nenhuma verdade
só atendo aos chamados da minha vontade
E só o que sinto considero demais...

tenho o foco naquilo que sinto
e só o que sinto para mim é demais

wasil sacharuk

Águas claras–acróstico

Águas Claras

Ah se as marés são das luas
Gelarás bem coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas que empurram as mágoas
a romper ribeirões pelos canos
Assim que somente deságuas
Seus correntes instintos insanos

wasil sacharuk

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O Último Charrua

O Último Charrua

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto Charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Tristeza arraigada

Tristeza arraigada

Hoje sou homem, apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano, nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

venha, abra as asas
não deixe-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

E quando eu voltar
cantarei tortas canções
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrões
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk

Chuva no quintal

Chuva no quintal

O entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

wasil sacharuk

Trôpego


Trôpego

verso errático, trôpego
cego, afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça, fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

wasil sacharuk
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