Rumo a Pasárgada

Rumo a Pasárgada

Morre em mim todos os dias que amanhecem
Morre em mim a fala suave e o hálito doce
Morre em mim a manhã da primavera
Morre em mim a criação e a canção do luar

Não é mais tempo de plantar nem de colher
Não é mais tempo de ler velhos poemas empoeirados
Não é mais tempo de acreditar que poderá ser diferente
Não é mais tempo de vida que corre nos olhos e nas veias do entendimento

Acabou a festa do conhecimento
Acabou o dia, a tarde e a madrugada de sonhos
Acabou o canto da coruja no galho da manga-rosa
Acabou a letra desse alfabeto em cor

“Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou vestido de nudez
Vou livre de amarras
Vou simples, presente e morto de todas as subjetividades do talvez

Morre em mim toda a grandeza que cresce
Morre em mim a inocência da beleza precoce
Morre em mim a destreza felina de uma fera
Morre em mim a atração pelas forças do mar

Não é mais tempo de parar ou de correr
Nâo é mais tempo de rever conceitos enterrados
Não é mais tempo de confiar na sanidade da gente
Não é mais tempo de sentir a ferida que escorre dos olhos num lamento

Acabou a resistência do cimento
Acabou a nostalgia das madrugadas de tons tristonhos
Acabou o poema que sobrepuja a frieza da prosa
Acabou a caneta dessa escritura de dor

"Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou liberto das mercês
Vou solto de todas as garras
Vou assim mesmo, engajado em mim, sem certezas e nem porquês.

Diogo Dias Fernandes & Wasil Sacharuk


Tomando veneno

Tomando Veneno

Moro em uma casa de ranhuras
de paredes já escritas em teias
vivo conjugando conjecturas
de um verso mudo de línguas

Como no prato bordado de dó
a miséria de tanta riqueza
entre a polidez coberta de pó
e a lucidez que corta certeza

Falo uma língua dissonante
que com meu som apedrejo
enquanto calo o instante
daquele beijo que não beijo

Sei que me encontro nas ruas
e deito e durmo nas tormentas
único argumento da lógica nua
é bebido em gotas peçonhentas.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Assim
Matas
O
Romantismo

Até
Mesmo
A
Dor
Omitida

Para
Recuperá-la
Amanhã

Sonho
Encontrar
Minha
Paixão
Resta
Esperar

Talvez
Encontre
Numa
Hora
Oportuna

Um
Meio

Como
Hoje
Ousas
Realmente
Omitir

Chorarei
Amanhã
Lágrimas
Aladas
Dizendo
Olá

wasil sacharuk

Reminiscências

Reminiscências

eu já fui caça e pássaro
também fui devassa e bálsamo
até já fui benta e instável
fui peçonhenta e amável

já fui Jocasta e Morgana
fui muito casta e insana
imperatriz insensata
fui meretriz e beata

fui cristalina e obcena
fui Messalina fui Madalena
e a vadia da realeza
também fui Maria
mas não tenho certeza

wasil sacharuk

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yin yang

yin yang

O meu esquerdo
é direito
o meu acerto
é o defeito

sou o pagão
que tem fé
sou um pão
sem café

sou a clareza
da escuridão
e a fraqueza
do corpo são

sou a beleza
de minha feiura
sou sobremesa
da amargura

eu estou perto
e tão distante
estou esperto
porém vacilante

sou silogismo
da contradição
sou o dualismo
dessa vastidão

wasil sacharuk

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Tolo Homem

Tolo Homem

Sobre os ombros o estigma
da eterna insatisfação
evitou conhecer o espelho
viveu a suplicar de joelhos
por uma oferta de pão

Apenas mais um tolo homem
nem viu que viveu no inferno
jurou odiar o demônio
logo após contraiu matrimônio
a procriação e o respeito terno

Condenado à vida comum
como medíocre enfadonho
por covardia evitou o temor
por pecado sonegou o amor
abraçado ao preceito medonho

Nem no Hades e nem no céu
disputaram sua triste presença
tomou o seu rumo a pé
trilhou o caminho da fé
e morreu na indiferença

wasil sacharuk

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Amor melecado

Amor melecado

tolo descarado
galopas no céu

teu cheiro
em meu cheiro
tua boca
nos meus cabelos

tu todo
eu louca
em pelo
de frente de lado

meu presente
é quente
apertado
tão traiçoeiro
quanto delicado

lambida na gruta
o segredo o mal
sou tua puta
és o meu pau

e meu creme de fel
merengue de bolo
amor melecado

wasil sacharuk

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Combinação perfeita

Combinação perfeita

Pétalas vermelhas a perfumarem o leito
Lua prateada, na janela, pendurada
Um lençol de seda produzindo o efeito
Combinação perfeita à sua pele acetinada

O mundo parado para decorar seu jeito
Nua enfeitada, seduzida, enfeitiçada
Garras pontiagudas a arranhar meu peito
Combinação perfeita à sua fome alucinada

O quarto move-se; acompanha seu trejeito
Lua, casta e pura, deixa a janela, ruborizada
Pétalas, suor, cama ardente, lençol desfeito
Combinação perfeita à nossa fome saciada

De todos os sabores que eu provo, satisfeito
Sua boca linda, tão vermelha, tão molhada
O mergulho sedutor do seu olhar suspeito
Combinação perfeita à nossa sede embriagada.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

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Lena Ferreira

Não e sim

Não e sim

Foi a carne macia
toda a sina
Foi o perfume barato
todo o cuidado
Foi o hálito fresco
todo o veneno

Foi nesse universo
que aprendi a voar
em versos

Disse sim, disse não
fiquei louco
puro tesão

Foi como uma poesia
toda em rima
Foi o gesto abstrato
todo o embaraço
Foi no sentido sexto
todo o mistério

Foi no doce segredo
que tentei naufragar
sem medos

Disse não, disse sim
fiquei triste
lá é o fim.

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Desconstrução


Desconstrução

Andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

Andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

Andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos, areia e cimento

Andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

Andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas.

Wasil Sacharuk

A quem não me sabe e entende

A quem não me sabe ou entende

Eu não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
desses anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

Não reverencio os espectros
cujo mote é obscuro
apenas finados viventes
ou qualquer coisa diferente
de ar circunspecto

Não cultivo o dialeto
que pronuncia minha gente
com argumentos confusos
nenhum viés eloquente

Não levo fé nos presidentes
seus vassalos e abusos
e nesse povo repleto
de burrice condescendente

Não me acho mais esperto
além do que é aparente
eu tenho traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk

O Riso da Feiticeira

O Riso da Feiticeira

Ela queria texturas
impressas no mundo 
das suas ideias
de luar defletido
multicor na areia
em poema inspirado
de Márcia e Andréa

quis saber o motivo
da vida ser bela
e ser assim tão feia
de olhar corrosivo
mas alegre e arteira
quis saber o que era
e leu a coisa inteira

conheceu as maneiras
das bruxas e fadas
as mocinhas e as malvadas
agora ri de faceira
pois não sabia de nada.

Wasil Sacharuk

Navegante solitário–acróstico

Navegante Solitário

Navegar obscuros oceanos
Ancorado nas esperanças
Velas vãs voltadas ao norte
Esperando na proa dos anos
Girar o leme das lembranças
Ao mando da estrela da sorte
Naufragar repetidos enganos
Tempestades ou bonanças
Encontrar as águas da morte

Solitário se fez navegante
Os ventos como companhia
Longa vida em mares distantes
Iluminado pelo horizonte
Timoneiro da capitania
Ámigo das correntezas
Refugiado entre céu e terra
Investido dessas profundezas
Onde a vida se encerra

wasil sacharuk

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Corro e morro



Corro e morro

No corredor escuro a correr
Canso mas não esmoreço
Não sei mais o que fazer
Continuo a correr sem tropeço

O escuro é tão denso e palpável
Posso até pegá-lo com as mãos
Não sei se abertos ou fechados
Os meus olhos agora estão

Parei um pouco para respirar
Mas o ar está demasiado pesado
Há mais pessoas a me acompanhar
Neste lugar tão apertado...

Não quero nem ver para crer
Com medo eu não adormeço
A alma está para vender
No inferno alguém paga o preço

Eu corro caminhos acidentados
Com vapores que brotam do chão
Que queimam os desenganados
No fogo feroz da anunciação

Eu quero mas não posso parar
E percebo que estive parado
Se correr sem sair do lugar
Meu sangue será consagrado

Mas a curiosidade é vilã
E olho para traz por um instante
Vejo vaga luz no afã
Esperança de um rompante

Assimilo que ninguém mais a vê
E percebo que ainda tenho chance
Se correr do lado contrário
A salvação talvez me alcance

Mas ao olhar direito luz que despontava
Percebo que era somente ilusão
Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada
Me ajoelhei de desgosto nessa fração

Corro e morro repetidamente
Sufocada pelas muralhas quentes
Abafada por todos os descrentes
Que fazem parte dessa corrente

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Sou feito daquilo que você invejou


Sou feito daquilo que você invejou

sou só defeito
vida de pobre é dura
perco a envergadura
você perde o direito

imperfeito
intranquilo
fuzuê
abalou

sou o sujeito
que não tem frescura
a mim falta cultura
a você falta proveito

meu jeito
sem estilo
e você
arrasou

sofro preconceito
de qualquer criatura
provo da amargura
você prova despeito

sou feito
daquilo
que você
invejou

wasil sacharuk

Libertino


Libertino

Busquei letras na fonte da ideia
dos desejos fiz verso conciso
escandi as grades dessa cadeia
rimando essa vida de improviso

De quatro estrofes fiz uma teia
com um longo fio de verso liso
saiu derramando sangue da veia
libertino e solto como um riso

Comecei suspirando rima cheia
risquei uma métrica boca e meia
e joguei num contexto impreciso

agora eu rezo que alguém leia
que não me apresente cara feia
e se acaso goste deixe aviso

wasil sacharuk

Moldando a água



Moldando a água

lavei tristezas
moldando a água
segurei as belezas
para que não fugissem
pelos vãos

se foram as mágoas
as incertezas
numa correnteza
fez com que sumissem
quando abri as mãos

na vida espalmada
fatalmente molhada
de dentro da pia
de água moldada
escrevi poesia

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Shinichi Maruyama
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