Inexata escansão

Inexata escansão

O poema é catarse
do emergente disfarce
da irreal projeção

Ansiedade anoréxica
de uma fome poética
sem ideal convenção

A retórica insalubre
introjeta o tom lúgubre
reinventando a escansão

O poema é contentar-se
com o displicente inaugurar-se
frente a real inexatidão

Antinomia léxica
de uma sede ética
na sobrevinda árida dos dizeres

Paradoxo inconteste
donde a lugubridade transmuta-se
na força pulsante, da emergente criação.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk

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batom

batom

acordei cedo
não estavas
ao lado direito
senti um receio
aperto no peito
nenhum recado
nenhum beijo
fui ao banheiro
olhei no espelho
achei tua boca
decalcada em vermelho

e o vermelho
aflorou meu desejo

wasil sacharuk

o vermelho

Vontades comprimidas

Vontades comprimidas

Nas reentranças
das tranças
da vida...
espremi a vontade
comprida.
Esticada,
não cabe na mala...
mesmo encolhida,
entala

Nos entretantos
nos cantos
na lida...
a oculta necessidade
sentida.
Sonegada,
enterrada na vala...
mesmo reprimida,
não cala.

Juleni Andrade & Wasil Sacharuk

Pedaços meus



Pedaços meus

Sortilégio afinal
estavam no tempo os momentos
desunindo os meus fragmentos
perdi a frieza formal

o alicate o alicate
escansões com pedaços meus
digressões ocultas nos véus
afasta os dedos e bate
e bate

tão musical
escandir dividindo meus eus
devastando do chão aos meus céus
sortilégio é caminho natural

e nas letras do livre combate
o que surge é livre
informal
tão musical não musical
a catar e catarse o resgate

escandir distintos rebentos
o salto no piso ainda bate
e bate
pregando sem dó minha arte
em vez dos distanciamentos

aceita então meus lamentos
se esqueço da métrica formal
abraço um anjo infernal
tão perto dos meus sentimentos

wasil sacharuk


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O quarto bagunçado

O quarto bagunçado

no quarto bagunçado
a porta entreaberta
o trinco emperrado
a janela arrombada

corpo estirado
cama desfeita

brinquedos
espalhados
por todo lado

o tapete manchado vermelho
as lascas do espelho

eu pouco ligava
revelava
e não sentia
eu era apenas
a fotografia

wasil sacharuk

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Teu rosto no espelho - acróstico

Teu rosto no espelho

Tua taciturna imagem, pai
Emerge do espelho da minha alma
Uma mescla de vigor e de calma

Refração única de nossas faces
O reflexo confunde os sinais
Soma de traços tão ancestrais
Tradução sucessiva de enlaces
O vínculo entre filhos e pais

No teu doce abraço, meu amigo
O carinho tácito, nosso abrigo

Eis que hoje somos refletidos
Sou tua sombra e tua herança
Percebidas além dos sentidos
Entre a espera e a esperança
Logo, talvez sejamos um, pai
Holograma de elos perdidos
O espelho remete à lembrança

wasil sacharuk


A marcharré do sistema

A marcharré do sistema

Nas engrenagens
do nosso sistema
ela botou o pé
e qualquer vivente
ouviu seu grito

Foi um berro louco
mas não parecia aflito
como eco no oco
ou um simples apito
durou só um pouco
pretendeu o infinito

De picaretagens
armou o esquema
engatou marcharré
e com ar deprimente
tentou ser um mito

Ela levou o troco
perdida no delito
como olho no soco
cara cheia de pito
um poema bem choco
tentou fazer frito

De tolas personagens
nem lembravam Helena
só hipocrisia e fé
com ladainha carente
sem nenhum gabarito

Nem com muito reboco
fez o mundo bonito
seu olhar bocomoco
e seu mundo esquisito
o discurso mais tosco
sem enfoque erudito

wasil sacharuk

Trova de guapos

Trova de guapos

Sou taura da presilha até a ilhapa,
não tenho cara de sorro manso;
levo na estampa o bafo de canha,
o baile todo só bebo e não danço!
Sou guasca do mango até a guaiaca
danço com minha prenda e não canso
se vejo um bucho eu passo a faca
de china feia não quero ranço
Sou grosso e ignorante
como salada de urtiga
agarro touro a unha
e nunca bebo o bastante
Sou filho desse Rio Grande
e não me aparto da briga
um diabo  me ronca na cuia
laço égua xucra com barbante
O galpão é meu palácio
meus vassalos são os cuscos
trovo com o tio Anastácio
largando tições pelos cascos
Da coxilha tenho um pedaço
planto meu fumo e chamusco
e trago o rebuliço no laço
gaúcho guapo não faz fiasco
Com permisso, poeta amigo,
escuta este trovador
meu prazer é prosear contigo
pois na rima és professor
Dessa peleia fiz meu abrigo
com o hermano improvisador
sempre responde o que digo
com a grandeza de pajador
Vou me retirar desta trova
pois sou pobre poeta de parca rima
em cada parceria a amizade se renova
e tua cidade, de Cruz Alta se aproxima
De Pelotas te mando essa prosa
da nossa querência campesina
e se Cruz Alta também é formosa
encilho o pingo e vou acima.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Bordando entrelinhas

Bordando entrelinhas

Ornamento figuras
na barra dos tecidos
e prefiro as impuras
de irônicas agulhas
e não acerto a mão
nas fofuras de algodão

Exerço sórdida trama
em ponteio da seda
com um toque suave
do tipo que clama
por mais delicadeza

Encubro as agruras
com mimos de lã macia
como verso em poesia
em laçadas de beleza
na urdidura das linhas

E bordo as entrelinhas
com a frieza do metal
meu traçado diagonal
entrelaça as incertezas
as suas e as minhas

Uso ponto rococó
para matar o caseado
arremato com um nó
o motivo que traduz
tudo o que foi forjado
em ponto cruz

wasil sacharuk

O Futuro do Hoje

O Futuro do Hoje

Hoje acordei a fluidez
Cores escorriam brancas
Na tela azul daquele dia
Ouvi sorrisos de criança

Hoje rasguei a minha tez
Avancei minhas retrancas
Reli um livro de poesia
Plantei semente de esperança

Hoje chamusquei velhas folhas
Bolhas de sabão eu pintei!
Hoje prometi para o ontem
Não me esquecer do amanhã

Hoje repensei as escolhas
Nas asas da fênix viajei
Ergui a alma sobre o monte
Novo colorido a uma tela vã

A obra, cujo título é futuro
Hoje acaba de ser iniciada
Com pinceladas de verdade
Aladas ondas na própria tela

Vou iluminar o tom escuro
Novo horizonte e nova estrada
Serão os objetos da vontade
Um abraço na vida mais bela.

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

Um domingo diferente

Um Domingo Diferente

Perdoem-me os infelizes, mas estou feliz.
Perdoem-me os surdos, mas tenho ouvido canções de amor.

Quanto aos invejosos, inveja não tem perdão...

Perdi a direção, mas escapei por um triz,
Perdi o meu escudo, mas eu fugi dos rincões da dor,

Quanto aos chorosos, choro não é mais do que emoção...

Perdoe-me o Mago, mas sou seu gnomo aprendiz,
Esse poema que lhe trago, ganha corpo e professor,

Quanto aos desgostosos, só perdoa quem tem coração...

Abri meu coração, foi o melhor que fiz,
Lancei a voz no mundo, encontrei o amigo escritor,
Quanto aos escabrosos, são uns velhacos sem noção.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk


Música dos anjos

Música dos anjos

Notas doces
Harmonia no arranjo
Perfeição e delicadeza
Alegria com certeza

Belas vozes
Maestria do arcanjo
Sensação e beleza
Sinfonia da destreza

É a música que não cala
É a canção dos anjos que exala
É a viva dança dos planetas
Anunciada no som das trombetas

Suave melodia
Noite e noite dia e dia
Afeição na parceria
Emoção pura e tranquila

Adorável parceria
Quente e quente fria e fria
Com música e poesia
Criação da arte efusiva

É a música que se aprende
É a canção dos anjos
E o coração na mão

É a música que surpreende
É a emoção dos anjos
E a alma na audição.

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Gira mundo



Gira mundo

Girei meu mundinho no ar
Ligeiro tal qual um pião
Num amplo espaço a rodar
Nadando nessa imensidao
Dançando sobrava lugar
Espaço sem céu e sem chão

Girei...
E giro no mundo sem par
Buscando maior amplidão
Não quero da vida levar
Migalhas desse mundo cão
No giro que a gira me dá
Sufoco a dor. O meu lugar
Procuro, me viro, em vão...

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

Crisálida

Crisálida

Desejo da vida
Vivida às fanfarras
Vida calada
Vida vivida
Vida bonita
Vinda da farra
Mortalha

Desejo do amor
Sem pudor, cheiro
Ou flor
Com amor
Sem dor
Com cor
Crisálida

Desejo do abraço
No espaço roubado
Compasso marcado
Avesso no adereço
No verso faceiro
Controverso, possesso
Inteiro

Da mortalha quero
O morrer mais sincero
Da vida falada
Da vida sofrida
Da vida com vida
Segurada a barra
Que valha

Da crisálida aberta
Liberdade encoberta
Torpor
Calor
Da morte a cor
É pálida

E o abraço inteiro
Viver sorrateiro
Recebe o recado
No mesmo endereço
Do verso caborteiro
No inverso retrocesso
Certeiro

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Arremedos

Arremedos

Do pó esfumaçado
Que estas palavras evolam
Respiro as cinzas remotas
Que os meus dizeres calaram

Das chagas abertas nestas mãos
Escorrem as gotas que lavam meus dedos
Pungidas destas veias que levam meus medos
Finalmente trazidas a vida, por estas palavras

A palavra na cara escarrada
Desterrada de sete palmos de segredos
Na ceifa da língua articula arremedos
Que rasga a couraça, meu tudo e meu nada

A mão trêmula que desgarra as palavras
É a mesma mão de um agir obtuso
Do verso que traz meu reflexo confuso
A mão que desata o nó das amarras.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk

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Lambida

Lambida

E foi ali
na porta da cozinha
entre a geladeira e o fogão
de soslaio
à deriva
que eu vi o impacto
que causou o ato
a lambida da tua língua
numa colher de plástico
encardida

E daí
para surpresa minha
entre a doideira e a razão
em frente ao armário
dos pratos
que fizemos o pacto
eu provei teu contato
passei sobre tua lambida
um movimento elástico
de língua comprida.

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

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