Dionísio

Dionísio

Trago na fronte
a folha da videira
donde crescerão uvas

amassadas
e fermentadas
tornar-se-ão vinho

libertino
e consagrado.

Wasil Sacharuk

Conto do vigário

Conto do vigário

Ai compadre
toca o alarme
e faz o alarde

Perdi os meus pontos
e cai no conto
de um tal
caradepau
da Editora Madre

Ai compadre
agora é tarde
eu fui muito tonto
se dei um desconto
para o covarde
paulinho de andrade.

Wasil Sacharuk

Figuras e máculas


Figuras e máculas

Ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

Percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
teu seio de mamas gêmeas
enfeitiçou os meus olhos

Um mar de atóis e abrolhos
avistei das areias morenas
e teus gentis territórios
devastei com gana pirata

Vi tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
a letal borboleta falena

Poesia lasciva e obscena
que sussurraste insensata
teu corpo de luzes helenas
resplandescente no ofertório

Em minha tez tatuei capitólio
com tuas expressões sarracenas
plasmei traços compulsórios
das nossas figuras e máculas.

Wasil Sacharuk



Deixo meus disfarces

Deixo meus disfarces

Meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

Sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

Largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

Meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

Troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

Deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

wasil sacharuk


Vislumbre

Vislumbre

As mãos abriram a cela
busquei espaços
novos traços
novas esferas
a compreensão
de um novo código

Naveguei nas galeras
perdi o avião
voltei como pródigo
para apertar os laços
e não perder a razão
beijar o cimento do chão

As mãos rasgaram a mudeza
da timidez de versos rasos
vaguei infinitos parnasos
vales de letras belas
e jamais terei a certeza
de que saí da minha janela

wasil sacharuk

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É a verve

É a verve

Larguei minhas rimas
por um dia
para escrever prosa poética

A dita é mais imagética
não levo jeito para isso
um enguiço
e não me surpreende
não sou o Celso Mendes
mas isso não me abate
pois sou poeta
do tipo que liga
batatinha quando nasce
com tomate e alface
daí não dá briga
é só o enlace

Poeta que rima
tem a rima como guia
e a danada é que manda
na maldita poesia

Coisa de quem
considera o leitor
que sempre espera
algo além do chavão
de juntar amor com dor
coisa sem sabor

A tal prosa poética
favorece o fluxo
e também o refluxo
e incita
uma veia profética
meio descabida
patética e aflita

Talvez um dia
a poesia me deixe
como peixe fora d'água
e eu me abrace com a prosa

Mas de rosa não sei falar
nem de deus, carnaval
natal, papai noel e rei momo
o que digo não cabe no céu
e nem no mundo abissal

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

é a verve... é a verve

wasil sacharuk

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Pela Palavra

Pela Palavra

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos.

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela idéia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade. IMG_20171101_185630329

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político.

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo.

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal-compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..."

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais.

wasil sacharuk

A busca

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“Quanto tempo temos antes de voltarem, aquelas ondas?

Que vieram como gotas em silêncio, tão furioso.

Derrubando homens entre outros animais,

Devastando a sede desses matagais.

Devorando árvores, pensamentos, seguindo a linha,

Do que foi escrito pelo mesmo lábio, tão furioso.

E se seu amigo vento não te procurar,

É porque multidões ele foi arrastar.”

(Eternas ondas – Zé Ramalho)

A busca

É madrugada e se pode claramente ouvir os passos. São curtos e rápidos. Os cabelos da mulher estão totalmente ocultos pelo capuz negro que revela apenas pequena parte da face de pele muito branca. E ela avança pela escura ruela banhada por uma contínua e espessa chuva que promete não se esgotar. Molhadas, as vestes negras aderem totalmente às formas do corpo da mulher.

—É preciso encontrá-lo já e me antecipar ao vento que quer tomá-lo de mim.

As águas que caem do céu encontram o chão de pedras e, quando unidas ao sopro drástico do vento, compõem um misterioso som que se apodera do vazio noturno.  A tormenta obriga a pressa dos passos.

—Talvez não haja mais tempo para dissuadi-lo!

O lado direito revela o caminho que deve ser tomado e conduz inevitavelmente à velha ponte. Faz-se necessária a travessia para quem quer seguir o rumo que alcança o alto do monte.

O capuz molhado ainda absorve a chuva que se mistura às lágrimas que descem pela suavidade do rosto jovem.

Passos decididos vencem a travessia da ponte e investem cansados contra o alto. A força supera a pressa e no frágil corpo transparece toda a angústia e o desespero. Incontáveis passos firmes serão ainda precisos sobre o solo enlameado que conduz ao topo.

— Estará ele ainda lá?

A fadiga mina a vontade e debilita a matéria. Ao cessar das forças, a natureza se encarrega de orquestrar o ato final.

Com os joelhos afundados no barro a mulher tem as lágrimas secas pelo espanto. Por um breve instante cessou todo o medo, mas não há mais fôlego.

Surgindo pleno de glória da margem do precipício, um homem abre os braços prontos a se agarrar ao mundo e, tal como um corajoso pássaro, desafia a grande chuva e as alturas, em nome da liberdade.

wasil sacharuk

Palavra da morte e da vida

Palavra da morte e da vida

Busque a palavra que designa
Quando morre toda a vida
Quando seca a ferida

Busque a palavra que é digna
De quando a morte ressuscita
De quando a primeira vez se grita

Busque a palavra que resigna
Se quando a morte ou a vida
É tão contingente e iludida

Busque a palavra - o signo
Que represente a morte
Que represente a vida
Que sentencie a sorte
Se vitoriosa ou perdida
Que ruma a um novo norte
Nova missão cumprida

Busque a palavra da morte
Busque a palavra da vida

wasil sacharuk

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Vício

Vício

E o meu vício em ti despejo
Nesse teu feitiço maldito
Até que eu perca o sentido
Vingado, pregado, vencido

E na magia do teu rito
A chama arde de desejo
Eu encantado no ensejo
De um prazer louco, aflito

Faz do momento calado, retido
Armado, desalmado, temido
A maravilha do teu grito
Dessa nudez que só eu vejo

E na relíquia do teu beijo
De bicho, irado, instinto
Aberto, regado, despido
Fatalmente desmedido.

wasil sacharuk


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Pacto

Pacto

Que o amor seja terno
Sincero. Singelo. Eterno
Que a música seja breve
Intensa. Imensa. Indelével
Que a paixão seja realidade
Sugestão. Criação. Dualidade
Que o coração seja aberto
Eco. Ego. Completo. Repleto
Que o traço seja leve
Nascimento. Pensamento. Descreve...
Só mais um encanto
Preciso. Insano. Mundano

O traço e o beijo
A cor e o abraço
O sabor e o segredo
A dor e o sustento
O amor e o medo
A despedida e um desejo

Satisfeito

Que o esplendor seja inverno
Espero. Desvelo. Interno
Que o frio seja neve
Densa. Pretensa. Infalível
Que o refrão seja a verdade
Sensação. Junção. Vontade
Que o verão seja certo
Seco. Cego. Perto. Esperto
Que o inverso seja pele
Momento. Intento. Impele...
Só um novo canto
Com riso. Sem pranto. Acalanto

Na estrada e no vilarejo
No corredor e no espaço
No frescor e no azedo
Na flor e no rebento
No torpor e no brinquedo
Na investida e no cortejo

No leito

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Inverno no Sul



Inverno no sul

o inverno malevo corta
a noite cai
súbito em recuerdo
queima a lenha
da nossa saudade
balda de cuia
que aquece a mão

pendura os arreios
detrás da porta
recolhe a piazada mais cedo
repete os causos da mocidade
das madrugadas mais frias
do nosso rincão

chama os guaipecas para a volta
que deitem focinho nos pelegos
chama os piás e a prenda
para a amizade
compartilhada na roda
do chimarrão

wasil sacharuk
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fotografia de Andréa Iunes

Vigília

Vigília

No inverno
prevalece o silêncio
noites abandonadas
bocas caladas

acendo o incenso
o aroma queimado
toma o escuro imenso
enquanto penso
repenso
executo a vigília

preencho de vida a ilha
no momento
nas sombra da poesia
pela noite vazia

o movimento
o intento
olho fechado na utopia
e o outro atento
vigia

wasil sacharuk

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