Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Lá das bandas da saudade

Lá das bandas da saudade

São trinta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para um índio assar solito

sem fumo sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
alterno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro, cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte

espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas

mas hoje a saudade não ganha
encho outro liso de canha
ouvi nas milongas do Plata
que saudade cantada não mata

jogo no braseiro, tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote

espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte.

Wasil Sacharuk

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