Não estou para falar de amor, se ele ainda não dói, nem rói e nem pede flor. Não há flores na minha poesia, pois as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura e meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro. O único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza. Só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista, meio insano meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história, todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

Rumo a Pasárgada

Rumo a Pasárgada

Morre em mim todos os dias que amanhecem
Morre em mim a fala suave e o hálito doce
Morre em mim a manhã da primavera
Morre em mim a criação e a canção do luar

Não é mais tempo de plantar nem de colher
Não é mais tempo de ler velhos poemas empoeirados
Não é mais tempo de acreditar que poderá ser diferente
Não é mais tempo de vida que corre nos olhos e nas veias do entendimento

Acabou a festa do conhecimento
Acabou o dia, a tarde e a madrugada de sonhos
Acabou o canto da coruja no galho da manga-rosa
Acabou a letra desse alfabeto em cor

“Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou vestido de nudez
Vou livre de amarras
Vou simples, presente e morto de todas as subjetividades do talvez

Morre em mim toda a grandeza que cresce
Morre em mim a inocência da beleza precoce
Morre em mim a destreza felina de uma fera
Morre em mim a atração pelas forças do mar

Não é mais tempo de parar ou de correr
Nâo é mais tempo de rever conceitos enterrados
Não é mais tempo de confiar na sanidade da gente
Não é mais tempo de sentir a ferida que escorre dos olhos num lamento

Acabou a resistência do cimento
Acabou a nostalgia das madrugadas de tons tristonhos
Acabou o poema que sobrepuja a frieza da prosa
Acabou a caneta dessa escritura de dor

"Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou liberto das mercês
Vou solto de todas as garras
Vou assim mesmo, engajado em mim, sem certezas e nem porquês.

Diogo Dias Fernandes & Wasil Sacharuk


Tomando veneno

Tomando Veneno

Moro em uma casa de ranhuras
de paredes já escritas em teias
vivo conjugando conjecturas
de um verso mudo de línguas

Como no prato bordado de dó
a miséria de tanta riqueza
entre a polidez coberta de pó
e a lucidez que corta certeza

Falo uma língua dissonante
que com meu som apedrejo
enquanto calo o instante
daquele beijo que não beijo

Sei que me encontro nas ruas
e deito e durmo nas tormentas
único argumento da lógica nua
é bebido em gotas peçonhentas.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Assim
Matas
O
Romantismo

Até
Mesmo
A
Dor
Omitida

Para
Recuperá-la
Amanhã

Sonho
Encontrar
Minha
Paixão
Resta
Esperar

Talvez
Encontre
Numa
Hora
Oportuna

Um
Meio

Como
Hoje
Ousas
Realmente
Omitir

Chorarei
Amanhã
Lágrimas
Aladas
Dizendo
Olá

wasil sacharuk

Reminiscências



Reminiscências

eu já fui caça e pássaro
também fui devassa e bálsamo
até já fui benta e instável
fui peçonhenta e amável

já fui Jocasta e Morgana
fui muito casta e insana
imperatriz insensata
fui meretriz e beata

fui cristalina e obscena
fui Messalina fui Madalena
e a vadia da realeza
também fui Maria
mas não tenho certeza

wasil sacharuk
132959451555143817vida

yin yang

yin yang

O meu esquerdo
é direito
o meu acerto
é o defeito

sou pagão
que tem fé
sou pão
sem café

sou a clareza
da escuridão
e a fraqueza
do corpo são

a beleza
de minha feiura
a sobremesa
da amargura

estou tão perto
e tanto distante
estou esperto
e também vacilante

sou silogismo
da contradição
o dualismo
da vastidão

wasil sacharuk
images

Tolo Homem

Tolo Homem

Sobre os ombros o estigma
da eterna insatisfação
evitou conhecer o espelho
viveu a suplicar de joelhos
por uma oferta de pão

Apenas mais um tolo homem
nem viu que viveu no inferno
jurou odiar o demônio
logo após contraiu matrimônio
a procriação e o respeito terno

Condenado à vida comum
como medíocre enfadonho
por covardia evitou o temor
por pecado sonegou o amor
abraçado ao preceito medonho

Nem no Hades e nem no céu
disputaram sua triste presença
tomou o seu rumo a pé
trilhou o caminho da fé
e morreu na indiferença

wasil sacharuk

266x220-20110304135520-alianca

Amor melecado

Amor melecado

tolo descarado
galopas no céu

teu cheiro
em meu cheiro
tua boca
nos meus cabelos

tu todo
eu louca
em pelo
de frente de lado

meu presente
é quente
apertado
tão traiçoeiro
quanto delicado

lambida na gruta
o segredo o mal
sou tua puta
és o meu pau

e meu creme de fel
merengue de bolo
amor melecado

wasil sacharuk

limits

Combinação perfeita

Combinação perfeita

Pétalas vermelhas a perfumarem o leito
Lua prateada, na janela, pendurada
Um lençol de seda produzindo o efeito
Combinação perfeita à sua pele acetinada

O mundo parado para decorar seu jeito
Nua enfeitada, seduzida, enfeitiçada
Garras pontiagudas a arranhar meu peito
Combinação perfeita à sua fome alucinada

O quarto move-se; acompanha seu trejeito
Lua, casta e pura, deixa a janela, ruborizada
Pétalas, suor, cama ardente, lençol desfeito
Combinação perfeita à nossa fome saciada

De todos os sabores que eu provo, satisfeito
Sua boca linda, tão vermelha, tão molhada
O mergulho sedutor do seu olhar suspeito
Combinação perfeita à nossa sede embriagada.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

18921914_719123931624899_6014420828028605226_n

Lena Ferreira

Desconstrução


Desconstrução

Andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

Andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

Andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos, areia e cimento

Andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

Andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas.

Wasil Sacharuk

A quem não me sabe e entende

A quem não me sabe ou entende

Eu não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
desses anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

Não reverencio os espectros
cujo mote é obscuro
apenas finados viventes
ou qualquer coisa diferente
de ar circunspecto

Não cultivo o dialeto
que pronuncia minha gente
com argumentos confusos
nenhum viés eloquente

Não levo fé nos presidentes
seus vassalos e abusos
e nesse povo repleto
de burrice condescendente

Não me acho mais esperto
além do que é aparente
eu tenho traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk

O Riso da Feiticeira

O Riso da Feiticeira

Ela queria texturas
impressas no mundo 
das suas ideias
de luar defletido
multicor na areia
em poema inspirado
de Márcia e Andréa

quis saber o motivo
da vida ser bela
e ser assim tão feia
de olhar corrosivo
mas alegre e arteira
quis saber o que era
e leu a coisa inteira

conheceu as maneiras
das bruxas e fadas
as mocinhas e as malvadas
agora ri de faceira
pois não sabia de nada.

Wasil Sacharuk

Navegante solitário–acróstico

Navegante Solitário

Navegar obscuros oceanos
Ancorado nas esperanças
Velas vãs voltadas ao norte
Esperando na proa dos anos
Girar o leme das lembranças
Ao mando da estrela da sorte
Naufragar repetidos enganos
Tempestades ou bonanças
Encontrar as águas da morte

Solitário se fez navegante
Os ventos como companhia
Longa vida em mares distantes
Iluminado pelo horizonte
Timoneiro da capitania
Ámigo das correntezas
Refugiado entre céu e terra
Investido dessas profundezas
Onde a vida se encerra

wasil sacharuk

12177602_10204900817390985_1199940503_o

Corro e morro



Corro e morro

No corredor escuro a correr
Canso mas não esmoreço
Não sei mais o que fazer
Continuo a correr sem tropeço

O escuro é tão denso e palpável
Posso até pegá-lo com as mãos
Não sei se abertos ou fechados
Os meus olhos agora estão

Parei um pouco para respirar
Mas o ar está demasiado pesado
Há mais pessoas a me acompanhar
Neste lugar tão apertado...

Não quero nem ver para crer
Com medo eu não adormeço
A alma está para vender
No inferno alguém paga o preço

Eu corro caminhos acidentados
Com vapores que brotam do chão
Que queimam os desenganados
No fogo feroz da anunciação

Eu quero mas não posso parar
E percebo que estive parado
Se correr sem sair do lugar
Meu sangue será consagrado

Mas a curiosidade é vilã
E olho para traz por um instante
Vejo vaga luz no afã
Esperança de um rompante

Assimilo que ninguém mais a vê
E percebo que ainda tenho chance
Se correr do lado contrário
A salvação talvez me alcance

Mas ao olhar direito luz que despontava
Percebo que era somente ilusão
Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada
Me ajoelhei de desgosto nessa fração

Corro e morro repetidamente
Sufocada pelas muralhas quentes
Abafada por todos os descrentes
Que fazem parte dessa corrente

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Sou feito daquilo que você invejou


Sou feito daquilo que você invejou

sou só defeito
vida de pobre é dura
perco a envergadura
você perde o direito

imperfeito
intranquilo
fuzuê
abalou

sou o sujeito
que não tem frescura
a mim falta cultura
a você falta proveito

meu jeito
sem estilo
e você
arrasou

sofro preconceito
de qualquer criatura
provo da amargura
você prova despeito

sou feito
daquilo
que você
invejou

wasil sacharuk

Libertino


Libertino

Busquei letras na fonte da ideia
dos desejos fiz verso conciso
escandi as grades dessa cadeia
rimando essa vida de improviso

De quatro estrofes fiz uma teia
com um longo fio de verso liso
saiu derramando sangue da veia
libertino e solto como um riso

Comecei suspirando rima cheia
risquei uma métrica boca e meia
e joguei num contexto impreciso

agora eu rezo que alguém leia
que não me apresente cara feia
e se acaso goste deixe aviso

wasil sacharuk

Eu e minhas crises

Eu e minhas crises

E tu, mulher, que perguntas das minhas crises
Pois saibas que ainda me resta alguma
Já nem sei ficar sem nenhuma, como bem dizes
Daquelas que já nem se espera que suma

Eu e minhas crises sempre fazemos as pazes
E mais tormenta... disso elas são bem capazes
Mas, como não vivo sem crises, querida fada
Elas voltam com a fome de mulher malamada

Já passei a dos quinze, dos trinta e quarenta
Já brochei, me caguei e mijei aos cinquenta
Decidi por mais crise e perdi meu emprego
Examinaram minha próstata por meio do rego

wasil sacharuk


novembro-azul-moda-masculina-alexandre-taleb-3

Rico joga damas

Rico joga damas

Rico joga damas
ele é mestre das tramas
joga tal um magista

Rico come peça a peça
encurrala o oponente
ele tem boa cabeça
e por isso se garante

Rico não é nenhum tonto
nunca dorme no ponto
contrataca o adversário
damas não é para otário

no combate não cabe calote
vence quem for mais letal
é uma disputa intelectual
damas não é jogo de sorte

Rico é um cara esperto
entende as lições da vida
já sabe o caminho certo
para ganhar a partida

e o segredo da vitória
é o respeito e a cortesia
escrever uma boa história
na lógica e na poesia

wasil sacharuk

playing-checkers-550x427

Página rasgada

Página rasgada

Quando uma página em branco
foi drasticamente arrancada
do livro do meu destino
se fez meu cruel desatino

Senti minha vida podada
nem um tampouco ou entanto
desaparecida sob um manto
tal uma história roubada

Ouvi do som o desafino
do meu norte em desalinho
no desvio da rota ultrajada
descontrole e desencanto

Pois tenho andado tanto
conto os passos na estrada
e tento criar um sentido
que não me deixe perdido

Se a sina me leva ao nada
vazio de um triste recanto
talvez seja a vida buscando
aquela página rasgada

wasil sacharuk

DSCF6466

Eco de poesia

Eco de Poesia

Que se faça o mais belo poema
que as palavras se abracem em rimas
Que o amor supere obstáculos
que a verdade então se defina

Não se perca nos nós do sistema
Não se deixe quedar pelas sinas
Não se prenda a outros tentáculos
Não permita que fechem as retinas

Onde as cores então silenciam
e ao longe...se ouvem sons
deste poema ecoa melodia

Onde as dores não gritariam
E só vivam momentos bons
Num esquema de plena harmonia.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Tela de mar

Tela de Mar

Onde anda o mar que pintei para você?
E aquela onda sonora de puro prazer?
Ja perdi minha paleta de sombras...
E minhas notas não consigo conter

Na minha parede penduras outras telas
e meus sons ecoam em outras esferas
lanço em teus cristais as minhas bombas
como música sem dança e sem prazer

Escrevemos um triste enredo de folia
E em nossas linhas ja não vive harmonia
Como escrever um romance com final feliz
Se continuamos a viver por um triz

Com o dedo em riste para minhas manias
E nas cores tão pálidas do dia-a-dia
Não quero mais pintar as mazelas
Sem mares, sem música e letras belas.

Márcia Poesia de Sá  & Wasil Sacharuk

Conflito

Conflito

Ser essa ou aquela
Tinta fosca ou aquarela
Ser recato ou ser musa
Ser coerente ou confusa
Ser trave ou ser trilho
Ser opaca ou ser brilho
Ser reticência ou ponto
Ser passiva ou confronto

Ser a feia ou a bela
Parafuso ou arruela
Ser aguda ou obtusa
Ser convidada ou intrusa
Ser a bala ou gatilho
Ser do pai ou do filho
Ser distância ou encontro
Ser poema ou ser conto.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

21766632_769409359929689_6640751395978057118_n

Lena Ferreira

E se for pecado?

E se for pecado?

Dos pecados não me arrependo
sou desobediente
ovelha infiel
o avesso do crente

Me faço purificado
não sou o criador
nem manipulador
do motor imóvel
adulterado

Nenhum pecado confesso
não sou penitente
minha água benta é ardente
mantenho meus vícios
meus ofícios
meus artifícios
a reza de trás para frente
no rosário de uma serpente

E gosto de dinheiro, muito
de boa comida
da vida bebida
algum excesso
algum descontrole

E continuo irado
depravado
odiado
rancoroso
raivoso
luxurioso
preguiçoso
nada caprichoso
soberbo...
implacavelmente soberbo

Qual beato abençoado
me fará dizimado
por uma ameaça ridícula
de um medo infundado?

E se for pecado?
Não é problema meu
me sinto agraciado
por tudo que a vida me deu

wasil sacharuk

IMG_20171123_153742

”E se for pecado?” recitado por Dani Maiolo

Ausência


Ausência

Poesia minha foi embora
jurou não voltar jamais
levou sua escova de dentes
sumiu pela porta da frente

Não sobrou um resquício da paz
dos amores e dores de outrora
jogou suas malas lá fora
e foi atracar noutro cais

Restaram os versos recentes
desnorteados e inconsequentes
ecoando estrofes abissais
dissonantes em rimas simplórias

Não sei o que faço agora
transmutado em poeta incapaz
minha verve sangra doente
a esperar pela musa ausente

E se não voltar nunca mais
lembrarei das nossas histórias
a secar a saudade que chora
a falta que ela me faz.

Wasil Sacharuk

https://youtu.be/g2ROeKo8EMY

Mil palavras mudas



Mil palavras mudas

silêncios que emergem
da nascente das almas
onde palavras são tantas
sobre ideias insanas

silêncios salvam
silêncios servem
trabalham e se divertem
tanto sofrem quanto amam

são mudos quando plantam
bananeiras sem bananas
entre poemas sem mensagem
e tantas outras faltas

silêncios cavam
silêncios cobrem
se afogam depois emergem
tanto correm quanto andam

são mudos se debatem
significações exatas
às percepções mais humanas
contextos e artimanhas

silêncios falam
silêncios ouvem
pensam enquanto sentem
tanto morrem quanto calam.

Wasil Sacharuk

Infernos que jorram de ti


Infernos que jorram de ti

Que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde plantarás flores
daquele tipo que brota
das sementes sagradas
dos medos, rancores
verdades remotas
nessas tuas catarses

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se insere
no espelho da lua
enquanto brilhas
nos vãos das galaxias
mundos abissais
que se formam
nos cruzeiros das ruas
nos teus puteiros 
e nas tuas catedrais

Que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde lapidarás cores
nas nuanças mais brutas
das tuas pedras lascadas
teus rochedos, temores
entidades mortas
que não mostram a face

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se reflete
nas palavras mais cruas
enquanto teces
versos a revelia
sobre as cores do dia
que se formam
quando o sol se insinua
talvez dia inteiro
ou talvez nunca mais.

Wasil Sacharuk

Vidas Paralelas



Vidas paralelas

Há um mistério guardado
nas rubras fendas de peito aberto
em cada silêncio abrigado no verso
de sua alma dilatada

assim como existe uma fonte
que jorra encantos
por onde sua luz edifica sonhos
e deixa nos olhos farfalhar de
cores
prenúncio de viva aquarela

Há um silêncio calado
nos ecos que repicam incertos
cada mistério que esconde o avesso
de poesia enluarada

Não há um final no horizonte
sequer em seus cantos
onde uma reta divide os mundos
remete o poeta a vislumbrar
estrelas
entre as vidas paralelas.

Rogério Germani e Wasil Sacharuk

Não cheguei

Não cheguei

Andei
andei
andei
não cheguei
a lugar algum

tal o Caetano
há tantos anos
perdeu o lenço
os documentos
agora espera
que o tempo vente

quem vive poesia
decerto não poderia
fazer diferente
e não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes

estive em busca de mim
e no fim
estive ausente
andei
andei
andei
de frente para trás
de trás para frente

até acho que sei
como funciona
o processo da mente
que agrega valor
rabiscando amor
num poema eloquente

andei
andei
andei
e não cheguei
a lugar algum

ficou tanto prescrito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
que não fico aflito
considero normal
e ainda fico contente

wasil sacharuk

Perdido nos cantos da Jupiranga

Perdido nos Cantos da Jupiranga

Andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Ah poderia ser bamba
se um dia esse pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida

Quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
odeio prece
odeio hipocrisia
e ainda por cima
sou tipo que não desanima
e ainda se acha normal

E logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega

Já contei a história
consulta tua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

de lá ninguém volta
donde a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo e engov
palavra verso e estrofe

wasil sacharuk


Inexata escansão

Inexata escansão

O poema é catarse
do emergente disfarce
da irreal projeção

Ansiedade anoréxica
de uma fome poética
sem ideal convenção

A retórica insalubre
introjeta o tom lúgubre
reinventando a escansão

O poema é contentar-se
com o displicente inaugurar-se
frente a real inexatidão

Antinomia léxica
de uma sede ética
na sobrevinda árida dos dizeres

Paradoxo inconteste
donde a lugubridade transmuta-se
na força pulsante, da emergente criação.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk

532544_10200263731055763_676008377_n

batom

batom

acordei cedo
não estavas
ao lado direito
senti um receio
aperto no peito
nenhum recado
nenhum beijo
fui ao banheiro
olhei no espelho
achei tua boca
decalcada em vermelho

e o vermelho
aflorou meu desejo

wasil sacharuk

o vermelho

Vontades comprimidas

Vontades comprimidas

Nas reentranças
das tranças
da vida...
espremi a vontade
comprida.
Esticada,
não cabe na mala...
mesmo encolhida,
entala

Nos entretantos
nos cantos
na lida...
a oculta necessidade
sentida.
Sonegada,
enterrada na vala...
mesmo reprimida,
não cala.

Juleni Andrade & Wasil Sacharuk

Pedaços meus



Pedaços meus

Sortilégio afinal
estavam no tempo os momentos
desunindo os meus fragmentos
perdi a frieza formal

o alicate o alicate
escansões com pedaços meus
digressões ocultas nos véus
afasta os dedos e bate
e bate

tão musical
escandir dividindo meus eus
devastando do chão aos meus céus
sortilégio é caminho natural

e nas letras do livre combate
o que surge é livre
informal
tão musical não musical
a catar e catarse o resgate

escandir distintos rebentos
o salto no piso ainda bate
e bate
pregando sem dó minha arte
em vez dos distanciamentos

aceita então meus lamentos
se esqueço da métrica formal
abraço um anjo infernal
tão perto dos meus sentimentos

wasil sacharuk


DSCF7581

O quarto bagunçado

O quarto bagunçado

no quarto bagunçado
a porta entreaberta
o trinco emperrado
a janela arrombada

corpo estirado
cama desfeita

brinquedos
espalhados
por todo lado

o tapete manchado vermelho
as lascas do espelho

eu pouco ligava
revelava
e não sentia
eu era apenas
a fotografia

wasil sacharuk

ilustrações-4

Teu rosto no espelho - acróstico

Teu rosto no espelho

Tua taciturna imagem, pai
Emerge do espelho da minha alma
Uma mescla de vigor e de calma

Refração única de nossas faces
O reflexo confunde os sinais
Soma de traços tão ancestrais
Tradução sucessiva de enlaces
O vínculo entre filhos e pais

No teu doce abraço, meu amigo
O carinho tácito, nosso abrigo

Eis que hoje somos refletidos
Sou tua sombra e tua herança
Percebidas além dos sentidos
Entre a espera e a esperança
Logo, talvez sejamos um, pai
Holograma de elos perdidos
O espelho remete à lembrança

wasil sacharuk


A marcharré do sistema

A marcharré do sistema

Nas engrenagens
do nosso sistema
ela botou o pé
e qualquer vivente
ouviu seu grito

Foi um berro louco
mas não parecia aflito
como eco no oco
ou um simples apito
durou só um pouco
pretendeu o infinito

De picaretagens
armou o esquema
engatou marcharré
e com ar deprimente
tentou ser um mito

Ela levou o troco
perdida no delito
como olho no soco
cara cheia de pito
um poema bem choco
tentou fazer frito

De tolas personagens
nem lembravam Helena
só hipocrisia e fé
com ladainha carente
sem nenhum gabarito

Nem com muito reboco
fez o mundo bonito
seu olhar bocomoco
e seu mundo esquisito
o discurso mais tosco
sem enfoque erudito

wasil sacharuk

Trova de guapos

Trova de guapos

Sou taura da presilha até a ilhapa,
não tenho cara de sorro manso;
levo na estampa o bafo de canha,
o baile todo só bebo e não danço!
Sou guasca do mango até a guaiaca
danço com minha prenda e não canso
se vejo um bucho eu passo a faca
de china feia não quero ranço
Sou grosso e ignorante
como salada de urtiga
agarro touro a unha
e nunca bebo o bastante
Sou filho desse Rio Grande
e não me aparto da briga
um diabo  me ronca na cuia
laço égua xucra com barbante
O galpão é meu palácio
meus vassalos são os cuscos
trovo com o tio Anastácio
largando tições pelos cascos
Da coxilha tenho um pedaço
planto meu fumo e chamusco
e trago o rebuliço no laço
gaúcho guapo não faz fiasco
Com permisso, poeta amigo,
escuta este trovador
meu prazer é prosear contigo
pois na rima és professor
Dessa peleia fiz meu abrigo
com o hermano improvisador
sempre responde o que digo
com a grandeza de pajador
Vou me retirar desta trova
pois sou pobre poeta de parca rima
em cada parceria a amizade se renova
e tua cidade, de Cruz Alta se aproxima
De Pelotas te mando essa prosa
da nossa querência campesina
e se Cruz Alta também é formosa
encilho o pingo e vou acima.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Bordando entrelinhas

Bordando entrelinhas

Ornamento figuras
na barra dos tecidos
e prefiro as impuras
de irônicas agulhas
e não acerto a mão
nas fofuras de algodão

Exerço sórdida trama
em ponteio da seda
com um toque suave
do tipo que clama
por mais delicadeza

Encubro as agruras
com mimos de lã macia
como verso em poesia
em laçadas de beleza
na urdidura das linhas

E bordo as entrelinhas
com a frieza do metal
meu traçado diagonal
entrelaça as incertezas
as suas e as minhas

Uso ponto rococó
para matar o caseado
arremato com um nó
o motivo que traduz
tudo o que foi forjado
em ponto cruz

wasil sacharuk

O Futuro do Hoje

O Futuro do Hoje

Hoje acordei a fluidez
Cores escorriam brancas
Na tela azul daquele dia
Ouvi sorrisos de criança

Hoje rasguei a minha tez
Avancei minhas retrancas
Reli um livro de poesia
Plantei semente de esperança

Hoje chamusquei velhas folhas
Bolhas de sabão eu pintei!
Hoje prometi para o ontem
Não me esquecer do amanhã

Hoje repensei as escolhas
Nas asas da fênix viajei
Ergui a alma sobre o monte
Novo colorido a uma tela vã

A obra, cujo título é futuro
Hoje acaba de ser iniciada
Com pinceladas de verdade
Aladas ondas na própria tela

Vou iluminar o tom escuro
Novo horizonte e nova estrada
Serão os objetos da vontade
Um abraço na vida mais bela.

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

Um domingo diferente

Um Domingo Diferente

Perdoem-me os infelizes, mas estou feliz.
Perdoem-me os surdos, mas tenho ouvido canções de amor.

Quanto aos invejosos, inveja não tem perdão...

Perdi a direção, mas escapei por um triz,
Perdi o meu escudo, mas eu fugi dos rincões da dor,

Quanto aos chorosos, choro não é mais do que emoção...

Perdoe-me o Mago, mas sou seu gnomo aprendiz,
Esse poema que lhe trago, ganha corpo e professor,

Quanto aos desgostosos, só perdoa quem tem coração...

Abri meu coração, foi o melhor que fiz,
Lancei a voz no mundo, encontrei o amigo escritor,
Quanto aos escabrosos, são uns velhacos sem noção.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk


Gira mundo



Gira mundo

Girei meu mundinho no ar
Ligeiro tal qual um pião
Num amplo espaço a rodar
Nadando nessa imensidao
Dançando sobrava lugar
Espaço sem céu e sem chão

Girei...
E giro no mundo sem par
Buscando maior amplidão
Não quero da vida levar
Migalhas desse mundo cão
No giro que a gira me dá
Sufoco a dor. O meu lugar
Procuro, me viro, em vão...

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

Arremedos

Arremedos

Do pó esfumaçado
Que estas palavras evolam
Respiro as cinzas remotas
Que os meus dizeres calaram

Das chagas abertas nestas mãos
Escorrem as gotas que lavam meus dedos
Pungidas destas veias que levam meus medos
Finalmente trazidas a vida, por estas palavras

A palavra na cara escarrada
Desterrada de sete palmos de segredos
Na ceifa da língua articula arremedos
Que rasga a couraça, meu tudo e meu nada

A mão trêmula que desgarra as palavras
É a mesma mão de um agir obtuso
Do verso que traz meu reflexo confuso
A mão que desata o nó das amarras.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk

420414_3665324031534_1264340070_n

Espere-me

Espere-me

Sei que me mostras
o quanto me amas
apesar de tudo

e eu fico mudo
se perdes o tempo
embalando as noites

eu nunca prometo
fazer difente
do que fiz antes
de detonar o mundo

mas eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

nós somos mares
de marés confusas
sou dos teus males
de mim és musa

espere-me

o quanto me queres
em meio às noites
enquanto me feres
com teus açoites

espere-me

eu sei que causas
tanta destruição
sempre que me vens

e não há nada
que faça mudar
a ideia maluca
que sempre me consome

e eu nunca prometo
fazer diferente
do que fiz antes
de detonar o mundo

pois eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

nós somos mares
de marés confusas
sou dos teus males
de mim és musa

espere-me

o quanto me queres
em meio às noites
enquanto me feres
com teus açoites

espere-me

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

wasil sacharuk

Espere-me (Mell Shirley - Wasil Sacharuk)

fotografia Ana Clara Iunes Sacharuk


Tu, ave
fá sol 
na primavera
se bem sabes
esperas

Tu, nota
faminta
em bemóis
na primavera
fás sóis
sem entraves

Tu, partitura
fac simile
das urdiduras
em claves
de sons

Tu 
imitas o tom
das criaturas.

Wasil Sacharuk

Riograndência



Riograndência

Tenho na minha essência
aquele sabor amargo
de chão quente e solidário

Meu amor é um relicário
que guarda a marca que trago
emblemas da minha querência

Sou cativo de uma riograndência
a vida velhaca me fez esse afago
e achei por demais voluntário

Minha lida é o cultivo diário
de manter um campo vago
para a minha permanência

wasil sacharuk

Às vezes sou o quanto tu és


Às vezes sou o quanto tu és

às vezes sorrio
às vezes sou rio
às vezes sou nó dos ventos do sul

sou blue quando azul
sou eu mais de mil
sou a vertente das tuas belezas

o quanto a ti são certezas
o quanto a mim são bobagens
o quanto sou epicentro das tuas viagens

tu és meu tempo e querência
tu és momento e essência
tu és o cais da minhas ancoragens.

Wasil Sacharuk

Vejo luz de estrela quedar em cascata


Vejo luz de estrela quedar em cascata

Vejo luz de estrela
quedar em cascata
cortar chão em lascas
de fagulhas acesas

Há neons sobre as casas
e por todos os cantos
luzindo caras de santo
e consciências escassas

Vejo semblantes tacanhos
desfilando na praça
entre gêneros e raças
quantidade e tamanho

Vejo luz de estrela
quedar em cascata
que sensata
estende uma mão
e me ergue do chão.

Wasil Sacharuk

Aos ventos de setembro

Aos ventos de setembro

Alguns setembros
brotam assim

tão lentos

a organizar o firmamento
em belezas sem fim
livres até os confins
dos tempos

nos livres espaços
vejo a dança
dos eus simulacros

ao sonoro compasso
minuano dos ventos

wasil sacharuk




Qualquer treco


Qualquer treco

Meu amor
pode ser um segredo
um gueto
domínio do medo
pode ser preto
ou qualquer outra cor

Meu amor
de brinquedo
pode ser seco
como um boneco
pode ser qualquer treco
ou apenas rancor

wasil sacharuk

Contabilidade


Contabilidade

Andei vasculhando alguma gaveta
com histórias e fatos bloqueados
tsunamis, naufrágios e tormentas
aos confins da memória relegados

Andei projetando o pós-quarenta
na esteira dos anos repassados
procurei entender as ferramentas
para romper o ferro dos cadeados

Andei repensando meu propósito
a reler minha vida quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

Andei recontando meus depósitos
perseguindo os valores debitados
em busca do saldo dos estragos

wasil sacharuk

Dezesseis Pétalas


Dezesseis Pétalas 

Eflúvio de éter 
azul e laringe 
expressão e esfinge 
do meu eu, ser 

Para despetalar 
dezesseis pétalas 
é preciso começar 
pelas pontas 
até o rebento 
do meu centro 

Plena voz 
de quatro elementos 
seus argumentos 
e sua dissolução 

Para repetalar 
dezesseis despétalas 
é preciso terminar 
no centro 
onde guardo o ar 
meu sustento 

Nó da sublimação 
no mais alto 
o salto 
da evolução

wasil sacharuk

Terra de ninguém



Terra de ninguém

Paralelepípedos nas ladeiras
Os ratos a cochichar nos cantos
As moças coloridas e faceiras
Malandros, lá tem o seu encanto

Onde a cultura se faz baboseira
A indiferença entre riso e pranto
Toda a desgraça é só brincadeira
Miséria, doença e vela pro santo

O morro, subterfúgio de tudo
Crianças a brincar na lama
Estampidos a deixar-te surdo
Traficantes, ladrões e uma dama

Polícia é cega e o direito é mudo
Mulheres vendem a alma na cama
A sanidade é um mero absurdo
E a segurança faz parte da trama

Mais abaixo, vem a bela paisagem
Os carros na avenida principal
Motoristas se despistam da miragem
Celulares e buzinas num tom boçal

Jóias falsas, modelitos e maquiagem
Silicone, botox e o sorriso formal
Os assaltantes bloqueiam a passagem
No luxo e no medo o estado normal

As luzes se acendem no anoitecer
Fica 'inda mais difícil enxergar
O que não é belo finge-se não ver
Na terra de ninguém vais democratizar?

A trégua não vem junto ao amanhecer
O céu é incerteza e o inferno é o lar
Não é bom negócio subir ou descer
Em terra de ninguém o que queres mudar?

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Meus velhos cacos

fotografia de Célia Domingos



Meus velhos cacos

Se me desgarro da ventania
ronca a bomba das velhas tristezas
busco os sorrisos nas cercanias
no rincão que é o pago
das minhas belezas

quando cai a noite na estância
a cordeona chama a dança
o guaipeca, a prenda e as crianças
alegria ao luar da querência

o mate da noite ao pé da coronilha
a prenda me balda
no abraço apertado
o cambicho segue alvorotado
se esparrama por toda a coxilha

dou de laço na vida xerenga
no revesgueio dos velhacos
não levo vareio nem fico capenga
acolhero os meus velhos cacos

wasil sacharuk

Plexo solar

Plexo solar

se sinto o que penso
se sinto o que digo
se sinto o que penso que sinto
provavelmente minto

se falo encontro o amigo
depois eu dispenso
o momento é intenso
mais tarde eu nem ligo

em cada sentimento distinto
eu provo o absinto
e divido contigo
um viés do meu lenço

se digo que sinto imenso
comunico e complico
traduzo meu instinto
numa costura sem vinco

se sinto e não digo me intrigo
e me encontro em poema pretenso
disforme libertino e sem senso
só para beijar meu umbigo

wasil sacharuk


8355ca7ad9ebc0f6753e5cc18c814c69

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Esse site é apoiado por INSPIRATURAS