feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



Opus para flauta

Opus para flauta

ao avesso
seus olhos adentro
atravesso
com versos do cancioneiro
barco à revelia

as três marias
apontam o universo
paralelo

a deusa
dança nas nebulosas
dissipa as dúvidas
opus de flauta
doce e singelo

emissões úmidas
num singular dialeto
declamam a mim de um jeito
estranhamente belo

wasil sacharuk


Rima pobre

Rima pobre

pobre rima
rima pobre
queria ser genuína
estar entre os nobres
triste sina
morrer na esquina
pedindo esmolas

nasceu de parto normal
frequentou a escola
e fez suas escolhas
nos versos da vida

viveu esquecida
pobre rima
malabarista de bolas
sob o farol
da avenida

wasil sacharuk


se calas

se calas

poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

se calas 
te sinto presente
até o silêncio das pedras
posso escutar

poeta atrapalhado
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
sei de cor e salteado
teu jeito simplório
teus intentos

permaneço abrindo poros
meus e teus
vidrada no sangue 
que jorra vertente
nas folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

wasil sacharuk



outra dança cigana

outra dança cigana

se o amor
voou com os pássaros
para outras vivendas
deixa a inspiração
beijar teus olhos
de coruja na senda

dança
e te encanta
novos passos
outra dança cigana
gira as saias
sopra as farpas
que te arranham
a pele

wasil sacharuk

Dancing Gypsy Painting by Anna Rose Bain


O caderno

O caderno

naquele caderno
descansavam letras
contorcidas e pretas
caladas e sem dom
inexpressivas sem som
tantas danças
cabeça e caneta

nas páginas brancas
jazia a destreza
que desarrumava palavras
devolvia perguntas
embaralhava nuanças

o clamor da beleza
jamais alcança
o embaraço das luzes
das ideias abstratas

se bem que um caderno
pode ser céu de papel
ou combustível do inferno

wasil sacharuk

EMOJI_2017_CADERNETA_CAPA01

The brazilian bundamolism

The brazilian bundamolism

Quando os abutres chegaram
estúpidos cadáveres já habitavam vera cruz
completamente duros e inertes

no entanto
conservaram intacta a moleza dos seus glúteos
por mais quinhentos e tantos anos

chamaram a isso: malemolência!

wasil sacharuk

Passeio breve

Passeio breve

Aprende, mulher
a vida segue
ainda há espaço
para os lamentos

a escultura do tempo
revela-te em traços
e as tuas faces
têm novos contornos

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

aprende, mulher
que o poeta te ensina
na esteira dos dias
há novas surpresas

a vida veste poesia
a vertente sangria
nunca termina

na ciência das coisas
cada átomo-coisa
tem lá sua sina
e se morrem as coisas
não é a ruína

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

wasil sacharuk

nada se perde, nada se cria1