Contando estrelas calaveras

Contando estrelas calaveras

No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita

deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira

wasil sacharuk

romance na curutela

O cheiro do cio

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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sorvida

sorvida

sublime
sobreveio seu sabor
salpicado suor
silvestre salgado
salsa
sálvia

seu sexo
selou sensações
singular sinfonia
sem sentido
sem sequência

seu sorriso
simulou sinos
soou sincero
somente sorriso
simplesmente satisfeito

wasil sacharuk

3ilustração: Mihály Von Zichy

nave

nave

saibas, guria
não quero anarquia
não quero barraco
quero uma escuna
uma nave um barco
que faça fortuna
que navegue poesia
que viaje no espaço

wasil sacharuk

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as noivas de gramsci

as noivas de gramsci

desfez-se a distância
entre as lembranças
e o firmamento
não há mais lamento
nem vinganças
apagadas memórias
de militância

a história
redunda em vergonhas
falsas beligerâncias
artimanhas

percorre simplória
pela linha do tempo
entre tolos eventos
extremidades do fio
da ignorância

e as noivas de gramsci
valsam impunes
com a ganância

wasil sacharuk

images

Jardinagem

Jardinagem

Hoje, voltou ao jardim e, enfim, pousou a mão sobre a indelicada rosa vermelha.

Tão linda, abriu-se inteira. Desejou e exibiu suas belezas aos viventes da estação; e o jardineiro, feito abelha, deslizou satisfeito pela seiva conquistada com paciência e manipulada com paixão.

Seus dedos cálidos de humores percorreram a umidade da lírica flor. Resvalou nas vontades e sucumbiu entre as pétalas. Tanto calor. Estava ela lá, lânguida rosa indecorosa, liberta e plena, tal a poesia.

wasil sacharuk

mujer-rosa

invenção

invenção

nenhum deus te dá
nenhum diabo te tira
a realidade que crias
não se trata de mentira
mas decerto é invenção
tal a poesia
que pensa com o coração

wasil sacharuk

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Quatro duos e tua boca

Quatro duos e tua boca

tenhas dileto cuidado
com o estranho poema

paira passivo
para ser aniquilado

vista-te das escolhas
das minhas das tuas das todas

na nuvem risquei quatro duos
transmutei beijo fátuo

em tua boca


wasil sacharuk

CYMERA_20170621_212811

correção

correção

se poesia
cai tal pluma
não causa avaria

um poema
fora do livro
causa engano
desassossego

o medo
da pronúncia
dos versos insanos
oculta segredos
à revelia

wasil sacharuk

Unlocking-the-secrets-to-finding-great-writers-to-produce-your-content-2

roda-viva



roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk
rodaviva



Margarita

Margarita

margarita das ancas
redondas
madrepérola pele
opaca leitosa
pérola esfera
lúcida curva
a virgem translúcida
de concha e alcova

wasil sacharuk
ostra

opus 54

opus 54

lira e arpejo
gotejam desejos
diluído gelo
dos segredos
da noite

a ponte o plano
o recanto
o semblante
a lembrança
vive num canto
do horizonte

declinam dedos
a sentença
e o açoite
valsam enredos
dos segredos
da noite

lira e arpejo
recital ao piano
pingam desvelos
dos segredos
da noite

wasil sacharuk

casal-schumann

Inspiraturas