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Sortilégio

sortilégio

habita
as altas colinas
e indelicada
manipula elementos

faminta
vinga nas matas
enfrenta os ventos
mastiga raízes
engole os frutos
absurdos
que repelem a dor

ela adora
os acentos agudos
nas palavras esdrúxulas
o dó das cicatrizes
sangra lamentos
ao risco de espora
marca vírgulas

antropófaga
poisa nas várzeas
insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até a aurora
do próximo amor

wasil sacharuk

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as sextas-feiras são fêmeas

as sextas-feiras são fêmeas

fêmeas
são as sextas-feiras
exibem unhas vermelhas
a delicada dança
das mãos finas

meninas
noites intensas
noites tesas
a verter natureza
pelas pernas

declinam
ciclos de espera
se o tempo é esteira
deriva a sina
em mar aberto

decerto
haverão sextas-feiras
menstruadas

wasil sacharuk

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Sideral

Sideral

poeta alienígena
dos ares facínoras
habita a nuvem
nave mãe coerente
construída para ti
no feixe de espaço
estranho e distante
em que constelas

ele pode
pincelar falsas telas
fazer pouco caso
tripudiar das escolhas
inverter as letras
travar poesia na prosa

talvez só acredite
na finitude das coisas
na tolice das minhas
na doença das tuas
na perplexidade
das todas

sideral iluminado
jaz ao lado
do olho da lua
máscara turva
sobre as faces

wasil sacharuk

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poema do caos ao ocaso

poema do caos ao ocaso

as lanternas acesas
apontam o caos ao ocaso
desfilam luzes veredas
lumiam doces sentenças
da crosta ao espaço

murmurante heresia
sem temor ou tormenta
num raio num traço
num verso de poesia

wasil sacharuk

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minhoca na praia

minhoca na praia

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco

wasil sacharuk

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estrelas te vigiam abismadas

estrelas te vigiam abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
nenhuma bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
do teu ofício
os excessos e os vícios
o tesão e as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

wasil sacharuk

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Vácuo

Vácuo

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

ventos virão
virarão vendaval
valentes vertentes
varrerão vilipendios
varrerão vilanias
vereis

vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
venderão vaginas
valendo vagos vinténs

vegetarão velhos
valsando vertigem
virando voltas
vomitarão verdades

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs

vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
voarão velozes
vomitarão verdades

ventos virão
virarão vendaval
vereis

wasil sacharuk

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Ofício das notas

Ofício das notas

nada pretensa
envergo a poesia
que sangra o sentimento
ao passo que pensa
as dores do dia
os climas e tempos

carrego o intento
que enxerga magia
no viés das coisas tortas
para adornar de encantos
emprestar a alquimia
ao ofício das notas

nada de tensa
enxergo a poesia
que traz contentamento
e ao passo que se adensa
agrega harmonia
a todos os templos

vai nos pés do vento
dançando euforia
e assopra o pó das coisas mortas
e pra reanimar os seus cantos
devolve os passos da alegria
ao vício das coisas rotas

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

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poetisa Lena Ferreira

Estrela cadente


Estrela cadente

dispersa
ela vê as pessoas
desorientadas
não sabem o valor
de viver por amor
talvez essa gente
não saiba de nada

é certeza
tão somente
incontestada
fosse eloquente
seria a primeira
mas perde a razão
então é besteira

calada
ela troca as palavras
pela língua dos sonhos
cenas perplexas
sons enfadonhos
o mundo lá fora
é outra conversa

é beleza
tão somente
deslumbrante
fosse estação
seria primavera
mas floresce ilusão
então é quimera

tão só
ela escreve o roteiro
no oriente das vidas
vislumbra as pegadas
onde vento faz pó
e encobre a estrada

é estrela
tão somente
cintilante
fosse pedra
seria diamante
mas cai na terra
então é cadente

wasil sacharuk
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Na cavalgadura da caterva



Na cavalgadura da caterva

ao esplêndido berço
donde pastam ovelhas
estende toalha de mesa
velha bandeira vermelha
agora é só pano

larga a pinga
sobre a estrela amarela
quer ter um remédio
contra o tormento

há um vácuo no crânio
dos jumentos
que provoca esquecimento
e os fazem andar sem intento
pelas vielas
repetir os enganos
pelas noites da cidade

o sol da liberdade
é quadrado
visto de uma cela
nenhum raio fúlgido
nenhum plano

e a récua deita nos campos
para ver futebol e novela

wasil sacharuk

Amor de milonga



Amor de milonga

quero amor refratário
que decanta milonga
e se banha no Prata
amor sem bravatas

quero amor sem a zanga
que não desfia rosário
verte livre do estuário
e descansa nas sangas

amor perdido nas matas
das cidades cinzentas
exala cheiro pitanga
assovia com os canários

ao fim da tarde
toma comigo o mate
que encurta lembranças

amor enroscado aos galhos
ao solar das esperanças
e rodopia na dança
quero amor que dá rumo
e não dá atalho

wasil sacharuk

Cão negro

Cão negro

Psicopompo cria o cão negro
terror das nectarinas 
do quintal
que tanto salta o fogo
quanto lambe o gelo
salivantes papilas
no garrão de las brujas
até o mundo infernal

a bestafera e o dilema
do espanto das ruas
da beleza em poema
do silêncio que ecoa
no hiato
entre o bem e o mal

Psicopompo cria o cão negro
bem guardado segredo
argumento paradoxal
nem toda morte morrida
é uma morte acidental 

wasil sacharuk