Insone

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Insone

vi a alma pairar tal peça solta
a vagar pela casa de aluvião
vi o vento mexendo coisas mortas
no deserto das vidas sem razão

vi o corpo morrer à banca rota
e dever uma vela ao cramulhão
vi o verso perder-se em vias tortas
num soneto perverso e aleijão

vi mistérios baterem à minha porta
a cobrar a dura conta da emoção
uma soma de angústia em várias notas

vi fantasmas de assombro no salão
a arrastar as correntes e as botas
e matar-me de insônia sem perdão.

wasil sacharuk

Desenhando espirais

Desenhando espirais

tu que me viste perdido
no espaço subtraído
inventando poesia
de gabinete

tu que me viste ausente
nos meus versos sem dentes
em fatal desamor à sofia
aos auspícios da negação

tu que me viste à deriva
desprovido da memória
sem vacina
sem repelente
cena suspensa na descrição

logo verás novamente
meus ventos soprarem ideias
traduzidas em versos universais
entre algumas histórias
irreais
ou comoventes

e perceberás a trajetória
que perfaz a rota ascendente
manobrada em círculos
desenhando espirais.

wasil sacharuk

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Image credits: Matthias Haker

Tão somente

Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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poetisa Angela Mattos

Aço

Aço

anda assim
a alma
anda afora
ainda alquebrada
amargura aliviada
anda assim
a alma
animal alado

anda agora
alçada aos ares
arremedando as aves

alça as alturas
até a atmosfera azul
até arcos abertos
aplaudirem ao Apolo
a avermelhar
a aurora ametista

até anoitecer
anda assim
a alma
ainda acordada
abandona a armadura

as aspas abolidas
alíneas
artigos abreviados
abona aos apóstrofos
argumentos acumulados

a alma atada
ao aço
agora admite
arrebentar as algemas.

wasil sacharuk

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Veja aquele vivente

Veja aquele vivente

Estás vendo lá? Aquele, do carvalho?
Tu o vês sentado ao chão
livro na mão
meditando sentido da vida
mendicando flashes de morte

se aquele vivente der sorte
debaixo da copa crescida
sua mente se abre num rasgo
daqueles que faz estrago
no núcleo da consciência

vai indagar filosofia
ressignificar a ciência
e proclamar poesia...

Tu o vês sentado
cérebro na mão
morrendo mendigo
vivendo  da meditação

lá, sob a sombra do carvalho
ao solo molhado de orvalho
sopra sementes
de perguntas tantas.

wasil sacharuk

 

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e posso bem mais
mas isso é segredo

wasil sacharuk




Navegantes do escuro

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Navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino.

wasil sacharuk