O caderno

O caderno

naquele caderno
descansavam letras
contorcidas e pretas
caladas e sem dom
inexpressivas sem som
tantas danças
cabeça e caneta

nas páginas brancas
jazia a destreza
que desarrumava palavras
devolvia perguntas
embaralhava nuanças

o clamor da beleza
jamais alcança
o embaraço das luzes
das ideias abstratas

se bem que um caderno
pode ser céu de papel
ou combustível do inferno

wasil sacharuk

EMOJI_2017_CADERNETA_CAPA01

The brazilian bundamolism

The brazilian bundamolism

Quando os abutres chegaram
estúpidos cadáveres já habitavam vera cruz
completamente duros e inertes

no entanto
conservaram intacta a moleza dos seus glúteos
por mais quinhentos e tantos anos

chamaram a isso: malemolência!

wasil sacharuk

Passeio breve

Passeio breve

Aprende, mulher
a vida segue
ainda há espaço
para os lamentos

a escultura do tempo
revela-te em traços
e as tuas faces
têm novos contornos

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

aprende, mulher
que o poeta te ensina
na esteira dos dias
há novas surpresas

a vida veste poesia
a vertente sangria
nunca termina

na ciência das coisas
cada átomo-coisa
tem lá sua sina
e se morrem as coisas
não é a ruína

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

wasil sacharuk

nada se perde, nada se cria1

perpetuum mobile

perpetuum mobile

tão esquivada
dos meus sentimentos
me vi solitária
na multidão

tanta tristeza
tanto lamento
me vi revirada
pela emoção

mas é assim mesmo
que sopram meus ventos
dançam com a flâmula
da solidão

continuo estranha
nos últimos tempos
presa às raias
da busca em vão

wasil sacharuk

CYMERA_20161213_080359

Simpatia

Simpatia

sorriso
simples e claro
branco de neve
tal algodão
dentadura
e brancura

liso
singelo e caro
doa-se leve
tal a emoção
que se esconde
na brandura

wasil sacharuk

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Ao redor da caverna

Ao redor da caverna

não estou confinado na geometria
não sou outro adepto das idolatrias
nenhuma promessa de mundo melhor

e nada me priva da luz do sol
qualquer juízo não é ameaça
qualquer vela de chama escassa
não se compara ao meu arrebol

não tenho a posse da sabedoria
recuso ao batismo da hipocrisia
nem sei recitar escrituras de cor

sou o compromisso da vida que passa
pelas sombras impressas numa parede
se eu não sair para caçar serei caça
não vou morrer sem matar minha sede

não estou sob um jugo à revelia
não sou silenciado e digo heresia
não sou outro escravo do teu senhor

meu trato com a vida rompe grilhões
sem fundo de poços e longe do abismo
ao redor da caverna há tantas paixões
há o entendimento sem determinismo

eu sou uma essência que induz poesia
sou os versos latentes da ontologia
que só admite o poder do amor

wasil sacharuk

Caverna-de-Platao

Sozinha

Sozinha


aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

wasil sacharuk

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Quando o sol fica ensimesmado

Quando o sol fica ensimesmado

o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
em disparada cabal
bicho selvagem alado
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
e nunca desama
veste o raio que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
 
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

se o vento da noite
trepida paredes
eleva teus pés delicados
tilinta o cristal
dos lindos sapatos
que decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

wasil sacharuk

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Será sempre caminho

Será sempre caminho

Aprende, Gafanhoto
observa os poetas
declinando as letras
golpes na completude
do vazio

escuta versos repletos
o silêncio e a música
das águas do rio

entende, Gafanhoto
a dor é peso morto
despenca pela colina
esvanece na distância

e a poesia se funda na ânsia
de ver através da neblina

Gafanhoto
sente teu corpo
quando danças
cascatas e desatino

no abismo das ânsias
tua escolha
será sempre caminho

wasil sacharuk

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Fascínio

Fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

wasil sacharuk

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Cantilena ao socialismo aquático

Cantilena ao socialismo aquático

os peixes traíras
naturalmente nefastos
a poucos pés da complexidade
dos nossos mares tão trágicos
rodamoinho de imbroglios
quintanamente bicudos

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para curtir
a própria perplexidade

e com o peixe-povo?
nada novo
só nada para servir
a sua lulossantidade

os peixes traíras
são só alguns poucos
e nadam muito à vontade
num menage sabático
caviar no antepasto
borbulham vinho do porto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para comer
chorume e esgoto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para cheirar
peido e arroto

wasil sacharuk

lula-peixeLula (Foto: Divulgação)

as pequenas coisas


as pequenas coisas

as pequenas coisas
são verdes
ou qualquer outra cor
inocentes
sob o prisma do amor

as pequenas coisas
são brutas
pedras duras
cicatrizes das almas
cerne do mundo

pequenas coisas são tudo
mas cabem na palma
da mão de um amigo

as pequenas coisas
são muito mais
que a calma do abrigo
o desvelo aos animais
vidas de todas as cores

as pequenas coisas
partilham suas dores
com os outros mortais

wasil sacharuk

flat,1000x1000,075,fGala Gauthier

das artes manuais

das artes manuais

nas mãos trago o signo
registros do destino
a história das sinas
estigma raio ametista
e o corte diamante
dedos e falanges
de emanações quentes

nelas reside a febre
revolução incontida
o enlace da corda
senso e sentimento
a sorte e o lamento
a passagem e a porta

as mãos têm a voz
fachos exatos da luz
veredas do argumento
que implodem muros
entre guerra e paz

tenho nas mãos
nuvem branca de sonhos
bálsamo das dores
espinhos de flores
feridas calejadas

delas verte a verve
da criação inaudita
sutileza do corte
extenso e profundo
do louco até o mundo
a viagem e a morte

wasil sacharuk

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Contando estrelas calaveras

Contando estrelas calaveras

No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita

deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira

wasil sacharuk

romance na curutela

O cheiro do cio

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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sorvida

sorvida

sublime
sobreveio seu sabor
salpicado suor
silvestre salgado
salsa
sálvia

seu sexo
selou sensações
singular sinfonia
sem sentido
sem sequência

seu sorriso
simulou sinos
soou sincero
somente sorriso
simplesmente satisfeito

wasil sacharuk

3ilustração: Mihály Von Zichy

nave

nave

saibas, guria
não quero anarquia
não quero barraco
quero uma escuna
uma nave um barco
que faça fortuna
que navegue poesia
que viaje no espaço

wasil sacharuk

images (1)

as noivas de gramsci

as noivas de gramsci

desfez-se a distância
entre as lembranças
e o firmamento
não há mais lamento
nem vinganças
apagadas memórias
de militância

a história
redunda em vergonhas
falsas beligerâncias
artimanhas

percorre simplória
pela linha do tempo
entre tolos eventos
extremidades do fio
da ignorância

e as noivas de gramsci
valsam impunes
com a ganância

wasil sacharuk

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Jardinagem

Jardinagem

Hoje, voltou ao jardim e, enfim, pousou a mão sobre a indelicada rosa vermelha.

Tão linda, abriu-se inteira. Desejou e exibiu suas belezas aos viventes da estação; e o jardineiro, feito abelha, deslizou satisfeito pela seiva conquistada com paciência e manipulada com paixão.

Seus dedos cálidos de humores percorreram a umidade da lírica flor. Resvalou nas vontades e sucumbiu entre as pétalas. Tanto calor. Estava ela lá, lânguida rosa indecorosa, liberta e plena, tal a poesia.

wasil sacharuk

mujer-rosa

invenção

invenção

nenhum deus te dá
nenhum diabo te tira
a realidade que crias
não se trata de mentira
mas decerto é invenção
tal a poesia
que pensa com o coração

wasil sacharuk

god-devil-5671846

Quatro duos e tua boca

Quatro duos e tua boca

tenhas dileto cuidado
com o estranho poema

paira passivo
para ser aniquilado

vista-te das escolhas
das minhas das tuas das todas

na nuvem risquei quatro duos
transmutei beijo fátuo

em tua boca


wasil sacharuk

CYMERA_20170621_212811

correção

correção

se poesia
cai tal pluma
não causa avaria

um poema
fora do livro
causa engano
desassossego

o medo
da pronúncia
dos versos insanos
oculta segredos
à revelia

wasil sacharuk

Unlocking-the-secrets-to-finding-great-writers-to-produce-your-content-2

roda-viva



roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk
rodaviva



Margarita

Margarita

margarita das ancas
redondas
madrepérola pele
opaca leitosa
pérola esfera
lúcida curva
a virgem translúcida
de concha e alcova

wasil sacharuk
ostra

opus 54

opus 54

lira e arpejo
gotejam desejos
diluído gelo
dos segredos
da noite

a ponte o plano
o recanto
o semblante
a lembrança
vive num canto
do horizonte

declinam dedos
a sentença
e o açoite
valsam enredos
dos segredos
da noite

lira e arpejo
recital ao piano
pingam desvelos
dos segredos
da noite

wasil sacharuk

casal-schumann

Sortilégio

sortilégio

habita
as altas colinas
e indelicada
manipula elementos

faminta
vinga nas matas
enfrenta os ventos
mastiga raízes
engole os frutos
absurdos
que repelem a dor

ela adora
os acentos agudos
nas palavras esdrúxulas
o dó das cicatrizes
sangra lamentos
ao risco de espora
marca vírgulas

antropófaga
poisa nas várzeas
insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até a aurora
do próximo amor

wasil sacharuk

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as sextas-feiras são fêmeas

as sextas-feiras são fêmeas

fêmeas
são as sextas-feiras
exibem unhas vermelhas
a delicada dança
das mãos finas

meninas
noites intensas
noites tesas
a verter natureza
pelas pernas

declinam
ciclos de espera
se o tempo é esteira
deriva a sina
em mar aberto

decerto
haverão sextas-feiras
menstruadas

wasil sacharuk

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Sideral

Sideral

poeta alienígena
dos ares facínoras
habita a nuvem
nave mãe coerente
construída para ti
no feixe de espaço
estranho e distante
em que constelas

ele pode
pincelar falsas telas
fazer pouco caso
tripudiar das escolhas
inverter as letras
travar poesia na prosa

talvez só acredite
na finitude das coisas
na tolice das minhas
na doença das tuas
na perplexidade
das todas

sideral iluminado
jaz ao lado
do olho da lua
máscara turva
sobre as faces

wasil sacharuk

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poema do caos ao ocaso

poema do caos ao ocaso

as lanternas acesas
apontam o caos ao ocaso
desfilam luzes veredas
lumiam doces sentenças
da crosta ao espaço

murmurante heresia
sem temor ou tormenta
num raio num traço
num verso de poesia

wasil sacharuk

do-caos-se-faz-a-ordem-min

minhoca na praia

minhoca na praia

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco

wasil sacharuk

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estrelas te vigiam abismadas

estrelas te vigiam abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
nenhuma bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
do teu ofício
os excessos e os vícios
o tesão e as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

wasil sacharuk

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Vácuo

Vácuo

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

ventos virão
virarão vendaval
valentes vertentes
varrerão vilipendios
varrerão vilanias
vereis

vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
venderão vaginas
valendo vagos vinténs

vegetarão velhos
valsando vertigem
virando voltas
vomitarão verdades

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs

vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
voarão velozes
vomitarão verdades

ventos virão
virarão vendaval
vereis

wasil sacharuk

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Ofício das notas

Ofício das notas

nada pretensa
envergo a poesia
que sangra o sentimento
ao passo que pensa
as dores do dia
os climas e tempos

carrego o intento
que enxerga magia
no viés das coisas tortas
para adornar de encantos
emprestar a alquimia
ao ofício das notas

nada de tensa
enxergo a poesia
que traz contentamento
e ao passo que se adensa
agrega harmonia
a todos os templos

vai nos pés do vento
dançando euforia
e assopra o pó das coisas mortas
e pra reanimar os seus cantos
devolve os passos da alegria
ao vício das coisas rotas

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

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poetisa Lena Ferreira

Estrela cadente


Estrela cadente

dispersa
ela vê as pessoas
desorientadas
não sabem o valor
de viver por amor
talvez essa gente
não saiba de nada

é certeza
tão somente
incontestada
fosse eloquente
seria a primeira
mas perde a razão
então é besteira

calada
ela troca as palavras
pela língua dos sonhos
cenas perplexas
sons enfadonhos
o mundo lá fora
é outra conversa

é beleza
tão somente
deslumbrante
fosse estação
seria primavera
mas floresce ilusão
então é quimera

tão só
ela escreve o roteiro
no oriente das vidas
vislumbra as pegadas
onde o vento sopra o pó
e encobre a estrada

é estrela
tão somente
cintilante
fosse pedra
seria diamante
mas cai na terra
então é cadente

wasil sacharuk

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Na cavalgadura da caterva



Na cavalgadura da caterva

ao esplêndido berço
donde pastam ovelhas
estende toalha de mesa
velha bandeira vermelha
agora é só pano

larga a pinga
sobre a estrela amarela
quer ter um remédio
contra o tormento

há um vácuo no crânio
dos jumentos
que provoca esquecimento
e os fazem andar sem intento
pelas vielas
repetir os enganos
pelas noites da cidade

o sol da liberdade
é quadrado
visto de uma cela
nenhum raio fúlgido
nenhum plano

e a récua deita nos campos
para ver futebol e novela

wasil sacharuk

Amor de milonga



Amor de milonga

quero amor refratário
que decanta milonga
e se banha no Prata
amor sem bravatas

quero amor sem a zanga
que não desfia rosário
verte livre do estuário
e descansa nas sangas

amor perdido nas matas
das cidades cinzentas
exala cheiro pitanga
assovia com os canários

ao fim da tarde
toma comigo o mate
que encurta lembranças

amor enroscado aos galhos
ao solar das esperanças
e rodopia na dança
quero amor que dá rumo
e não dá atalho

wasil sacharuk

Cão negro

Cão negro

Psicopompo cria o cão negro
terror das nectarinas 
do quintal
que tanto salta o fogo
quanto lambe o gelo
salivantes papilas
no garrão de las brujas
até o mundo infernal

a bestafera e o dilema
do espanto das ruas
da beleza em poema
do silêncio que ecoa
no hiato
entre o bem e o mal

Psicopompo cria o cão negro
bem guardado segredo
argumento paradoxal
nem toda morte morrida
é uma morte acidental 

wasil sacharuk


Apolo

Apolo

se a luz
é traço
é rastro
ou rasgo
a lanterna é facho
ao fim da rua

se a lua
é espaço
é pedaço
é um astro
que ilumina esfera
reflete num laço
espelha na terra

luz amarela
luz arrebol
luz pleonasmo
luz que empresta
regente da orquestra
luz do sol

wasil sacharuk


Degredo

Degredo

Teu mundo é abismo
e o diabo te sabe
na noite fria
te rouba
sem poesia
te sangra
com unhas de aço
e voz de cristal

não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
além do retrato
das tuas faces

teu mundo é o amor
que aquece e queima
sopra e esfria
zomba
angustia
e zanga
não deixa rastros
do mal

não há lugar
escrito no espaço
do céu
na terra ou no mar
não há lugar
além da moldura
da tua janela

não há lugar
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na terra ou no mar

não há lugar

wasil sacharuk

Laurel

Laurel

leu livros 
letras lúcidas 
legítimo lume 
louca lira 

libertou lindas luas 
lavrando léxico 

livre 
lançou linhas 
labirintos ligados 
limpou lama 
lágrimas 
lamúrias 

levantou leve 
liso leito 
lúgubre luz 
luziu lapsos 
logo 
logrou louros 

longe 
longínquo 
levitou 
literatura livre 
lírica lápide 

wasil sacharuk


Vaneira

Vaneira

Dois pra cá
guria
dois pra lá
versos gaudérios
raízes profundas
da Habanera

vem garrida
velha faceira
adornada de pulgas
de garra e vontade
tal nas brigas
sem clemência

vem torta
do esqueleto
e da malemolência
desafia o senso
desafia a ciência

eis que a rota dos tempos
fez a ti
senhora das dores

vem bater à porta
derrubar minhas flores
sentar comigo ao vento
e juntar nossas patas
em eterna vaneira

wasil sacharuk

Indulto

Indulto quiçá a humanidade a lograr no desterro ainda discuta ainda escute ainda se nutra ainda se embuche dos erros dos atos omissos naquele canto que bêbado mija nos larápios do antro nas broacas da missa no indulto que ratos de esgoto gentilmente cospem bem no olho do seu culto wasil sacharuk

diamantes falsos

diamantes falsos

pecaminoso
o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor

tanto incrédulos
quanto insanos
acordes teimosos
quebram pedras

uma a uma

irremediável torpor
orvalho e suor
cadentes gotas
ao piano

pecaminosos 
diamantes falsos
inventam amor
o sabem de cor

o som dos mistérios
a dor dos enganos
indecorosos
segredam pétalas

wasil sacharuk

sanga


sanga

verte
alma de sanga
deságua
ao fluido escasso
de poesia

e sangra
a verve
das matas

subverte
a pedra fria
ao espelho de sol

wasil sacharuk

viagem da gota serena

Viagem da gota serena

Ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira

guiei um cometa
nas dunas de areia
costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

wasil sacharuk



O pingente

O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.
Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk


vambora


vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
fovever

amora
let's go
I promise you

wasil sacharuk






Perdido em Porto Alegre



Perdido em Porto Alegre

tempos bons
horas brilhantes
até outro amanhecer
história delirante
e seu grande final

assim brinquei dia inteiro
até fumei meio cigarro
após o arroz de carreteiro
junto ao gato frajola
no quintal

insanidades noturnas
de plena poesia
e minúcias de artesão

as mulheres belas
com seus copos
e as canecas
com caldo de feijão

perdido em Porto Alegre
poesia e abstração
o dia inteiro
a viagem com amigos
num supertáxi maneiro
para correr dos perigos

wasil sacharuk

réquiem

réquiem

as razões do nexo
o teor controverso
infiel argumento
mentiroso espesso

um momento
à porta do intento
o contexto complexo
pensamento disléxico

o erro esférico
as falácias ao vento
monumento bucólico
de karma e lamento

e o tempo
no seu voo eufórico
o sopro sistólico
e o sepultamento

wasil sacharuk


oficina inspiraturas – desafio de poema sem verbos

Insetos no caderno



Insetos no caderno

há insetos no caderno
páginas envergadas
licor sépia derramado
colore palavras soltas
atmosfera de esperança
perdida

folhas poisadas pelas vespas
dilaceradas pelas cortadeiras
rabiscos afogados
na vertente das mágoas
entre alegrias envelhecidas

insetos no caderno
circundam manchas
sobrevoam os resíduos
dos insanos registros
poesia ébria embebida
na doçura esparramada

memórias cagadas pelas moscas
conformadas rimas açucaradas
em contornos de caneta
outono das letras
primavera das baratas

insetos roem o viço
dos poemas escritos
no verão

wasil sacharuk

Artesania

Artesania


galopei sôfrega
insana e atônita
quase sem energia

a musa eu quis ser
que desencanta
a tua poesia

cavalguei afoita
a subir e descer
até dançar lenta
ora sedenta
sobre tua guia

sufoquei a cadência
desaguei violenta
pela periferia
e nas reentrâncias

misturada às letras
da tua artesania.

wasil sacharuk

Interprete a verve

Interprete a verve

O massacre dos desejos
É coito interrompido
Uma broxa se repetindo
Ato falho na caminhada

Vai e vem
E nada
Esfrega e roça
Espicha e coça
O malogro do tesão

O gozo em plena excitação
Constrói a rua de delícias
Abafar suas malícias
É ser frouxo e moleirão

Sai e entra
Na alucinação
Vira e troca
Emboca e toca
A lira fodedeira

Veja isso como queira
Sou lasciva e sem vergonha
Vou safada, de esgueira
Bater para seu ego, uma bronha

Bota e tira
Bate e apanha
Morde a fronha
Só a cabecinha
Perfura poema fogoso

Tente se encaixar nessas linhas
Tão nossas, tuas e minhas
Excitando o leitor curioso
Fazendo do trouxa, corajoso.

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

poetisa Dani Maiolo

Inspiraturas