Seara

Degredo

Degredo

Teu mundo é abismo
e o diabo te sabe
na noite fria
te rouba
sem poesia
te sangra
com unhas de aço
e voz de cristal

não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
além do retrato
das tuas faces

teu mundo é o amor
que aquece e queima
sopra e esfria
zomba
angustia
e zanga
não deixa rastros
do mal

não há lugar
escrito no espaço
do céu
na terra ou no mar
não há lugar
além da moldura
da tua janela

não há lugar
na hidrosfera ou no ar
não há lugar
escrito em pedaços
de papel
na terra ou no mar

não há lugar

wasil sacharuk

Laurel

Laurel

leu livros 
letras lúcidas 
legítimo lume 
louca lira 

libertou lindas luas 
lavrando léxico 

livre 
lançou linhas 
labirintos ligados 
limpou lama 
lágrimas 
lamúrias 

levantou leve 
liso leito 
lúgubre luz 
luziu lapsos 
logo 
logrou louros 

longe 
longínquo 
levitou 
literatura livre 
lírica lápide 

wasil sacharuk

Vaneira

Vaneira

Dois pra cá
guria
dois pra lá
versos gaudérios
raízes profundas
da Habanera

vem garrida
velha faceira
adornada de pulgas
de garra e vontade
tal nas brigas
sem clemência

vem torta
do esqueleto
e da malemolência
desafia o senso
desafia a ciência

eis que a rota dos tempos
fez a ti
senhora das dores

vem bater à porta
derrubar minhas flores
sentar comigo ao vento
e juntar nossas patas
em eterna vaneira

wasil sacharuk

Indulto

Indulto quiçá a humanidade a lograr no desterro ainda discuta ainda escute ainda se nutra ainda se embuche dos erros dos atos omissos naquele canto que bêbado mija nos larápios do antro nas broacas da missa no indulto que ratos de esgoto gentilmente cospem bem no olho do seu culto wasil sacharuk

diamantes falsos

diamantes falsos

pecaminoso
o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor

tanto incrédulos
quanto insanos
acordes teimosos
quebram pedras

uma a uma

irremediável torpor
orvalho e suor
cadentes gotas
ao piano

pecaminosos 
diamantes falsos
inventam amor
o sabem de cor

o som dos mistérios
a dor dos enganos
indecorosos
segredam pétalas

wasil sacharuk

sanga


sanga

verte
alma de sanga
deságua
ao fluido escasso
de poesia

e sangra
a verve
das matas

subverte
a pedra fria
ao espelho de sol

wasil sacharuk

viagem da gota serena

Viagem da gota serena

Ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira

guiei um cometa
nas dunas de areia
costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca

viagem da gota serena

wasil sacharuk



O pingente

O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.
Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk


vambora

vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
fovever

amora
let's go
I promise you

wasil sacharuk




Perdido em Porto Alegre



Perdido em Porto Alegre

tempos bons
horas brilhantes
até outro amanhecer
história delirante
e seu grande final

assim brinquei dia inteiro
até fumei meio cigarro
após o arroz de carreteiro
junto ao gato frajola
no quintal

insanidades noturnas
de plena poesia
e minúcias de artesão

as mulheres belas
com seus copos
e as canecas
com caldo de feijão

perdido em Porto Alegre
poesia e abstração
o dia inteiro
a viagem com amigos
num supertáxi maneiro
para correr dos perigos

wasil sacharuk

réquiem

réquiem

as razões do nexo
o teor controverso
infiel argumento
mentiroso espesso

um momento
à porta do intento
o contexto complexo
pensamento disléxico

o erro esférico
as falácias ao vento
monumento bucólico
de karma e lamento

e o tempo
no seu voo eufórico
o sopro sistólico
e o sepultamento

wasil sacharuk


oficina inspiraturas – desafio de poema sem verbos

Insetos no caderno



Insetos no caderno

há insetos no caderno
páginas envergadas
licor sépia derramado
colore palavras soltas
atmosfera de esperança
perdida

folhas poisadas pelas vespas
dilaceradas pelas cortadeiras
rabiscos afogados
na vertente das mágoas
entre alegrias envelhecidas

insetos no caderno
circundam manchas
sobrevoam os resíduos
dos insanos registros
poesia ébria embebida
na doçura esparramada

memórias cagadas pelas moscas
conformadas rimas açucaradas
em contornos de caneta
outono das letras
primavera das baratas

insetos roem o viço
dos poemas escritos
no verão

wasil sacharuk

Artesania

Artesania


galopei sôfrega
insana e atônita
quase sem energia

a musa eu quis ser
que desencanta
a tua poesia

cavalguei afoita
a subir e descer
até dançar lenta
ora sedenta
sobre tua guia

sufoquei a cadência
desaguei violenta
pela periferia
e nas reentrâncias

misturada às letras
da tua artesania.

wasil sacharuk

Interprete a verve

Interprete a verve

O massacre dos desejos
É coito interrompido
Uma broxa se repetindo
Ato falho na caminhada

Vai e vem
E nada
Esfrega e roça
Espicha e coça
O malogro do tesão

O gozo em plena excitação
Constrói a rua de delícias
Abafar suas malícias
É ser frouxo e moleirão

Sai e entra
Na alucinação
Vira e troca
Emboca e toca
A lira fodedeira

Veja isso como queira
Sou lasciva e sem vergonha
Vou safada, de esgueira
Bater para seu ego, uma bronha

Bota e tira
Bate e apanha
Morde a fronha
Só a cabecinha
Perfura poema fogoso

Tente se encaixar nessas linhas
Tão nossas, tuas e minhas
Excitando o leitor curioso
Fazendo do trouxa, corajoso.

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

poetisa Dani Maiolo

Cheiro

cheiro

menina
quiçá é só desejo
talvez seja sina
enroscado em tuas coxas
à revelia do tempo
sentir tuas narinas
em carícias de vento

wasil sacharuk

#nandagrass

o robin e outros pássaros

o robin e outros pássaros

a fortuna
girou a roda
lancei-me afora
pássaro de luz
na paisagem noturna

gravei
o canto do robin
e doutros pássaros

mundos de asfalto
percorri sob as asas
até tua casa
planícies planaltos
mares e praias
matas fechadas

voei com os pássaros
levei em minha boca
teu livro de sonhos

voei com os pássaros
levei em minha boca
um punhado
das tuas palavras

fiquei junto 
ao velho tronco
com meu nome
e recitei poemas
no jardim
com os pequenos
animais

no quarto
tu bailavas
vestido vermelho
tão linda
mirando o espelho

voei com os pássaros
levei em minha boca
teu livro de sonhos

voei com os pássaros
levei em minha boca
um punhado
das tuas palavras

wasil sacharuk

© Francis C. Franklin

A mulher primitiva

A mulher primitiva

fluidos tramados
em sangue
pele rasgada de dentes
cada célula
sabiamente devorada

penetrada
conduzia a descida
ao inferno da loucura
e o demônio rendido
aos encantos repletos

do gozo pulsava voz
e os olhos fundidos
traficavam amor renegado
com alto teor cerebral

a mulher primitiva
espargiu sementes
de prazer sobre os campos
sem que ninguém a tocasse

wasil sacharuk


Lugar de homem



Lugar de homem

Lugar de homem
é na cozinha
fritando galinha
batendo ovos
quebrando a cabeça
e os copos

wasil sacharuk

Pelas paredes que separam

Pelas paredes que separam

Menina
se teus cachos
despencarem
sobre os ombros
não saberei
me fazer entender

noite calada
estás acordada
e chamas
posso ouvir
pelas paredes
que separam
nosso imenso jardim

Menina
se teus traços
são tão abstratos
tuas saliências
revelam escombros
de antiga poesia

noite calada
tu acordada
em chamas
posso sentir
pelas paredes
que separam
nosso imenso jardim

wasil sacharuk


sinistros nós



sinistros nós

certo dia foi heroi
noutro dia fortaleza
nas ruínas revolveu pó
foi desabrigo
incerteza

dissolvidas pelo sol
perdeu as asas de cera
leu pecados
confessos de Jó
no livro de cabeceira

suas linhas
bifurcam traslados
demarcam
sinistros nós

certo dia riu no escuro
noutro chorou arrebol
e hoje vê o futuro
dançando junto às caveiras

o destino traçado
poema recitado
pelas moiras fiandeiras

suas linhas 
bifurcam traslados
demarcam 
sinistros nós

wasil sacharuk

Serpente Ígnea

Serpente Ígnea

Tramaste em cordão
o colar exuberante
ornado com crânios
decepados
dos demônios

vês agora
nos sonhos
presságios
de sexo
e de fogo

ígnea serpente
desperta
e irrompe
de Muladhara
ao portal
do terceiro olho

wasil sacharuk


Desejo confesso

Desejo confesso
 
Gosto de ficar em teu peito
leito donde verte minha poesia
gosto dessa tua mania
de me bagunçar os cabelos
os pêlos e os versos
 
Gosto dos rumos dispersos
que conversam com tua ousadia
e gosto da tua filosofia
que me faz sucumbir em desvelos
meu desejo confesso
 
E gosto além da conta
dessa afronta dos beijos teus
ah o apogeu em tua boca
quando sente-me a pele sedenta
e me sacia o corpo ávido
 
Mas amo o sorriso tão cálido
que os teus lábios ostentam
quando se abrem aos meus
 
Angela Mattos & Wasil Sacharuk
poetisa Angela Mattos

Mûre

Mûre

Mûre do espaço
relâmpago e afago
os longos braços
da doce energia
emerge poesia
para fazer-se criança

Mûre da esperança
conta os patos
que nadam no lago
ensina a esperar
o festim da alegria
enquanto encurta
as distãncias

Mûre das lembranças
da visão do futuro
e das velhas histórias
traz a memória
dos mares profundos
enquanto canta
aos cantos do mundo

wasil sacharuk

morsure-chiens-proteger-enfant

prado imenso dos lírios infindos

prado imenso dos lírios infindos

prado imenso
dos lirios infindos
ofertório
do alimento
dos seres ingênuos
e pequeninos

vasto domínio
dos lírios infindos
observatório
da ave semente
nas terras
dos intentos divinos

wasil sacharuk

 

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amargo 69

amargo 69

amarga-me
a recolhida língua
à dormência
captura de essências
do limão e do sal
absinto

desidrata na cal
meu toque áspero
tempero-te
de agridoce atrito
de suor e fluído
vinagrette
de amor seminal

desliza e arde
contorcida língua
nas gotículas de  pele
no cheiro da febre
óxido de ferro
e ph vaginal

wasil sacharuk

dddd

Órbita

Órbita

habito estrelas
descrevo curvas
que perpassam 
a cadeia de rochas
crosta do teu planeta

a cada manhã
recolho sonhos
plantados na arcada
dos teus olhos
quando miram o sol

assim posso vê-los
se fecho os meus

habito satélites
corpos celestes
em trajetória suave
observatórios
de ocultas verdades.

wasil sacharuk


Canta comigo princesinha

Canta comigo princesinha

Canta comigo princesinha
pula e dança na cozinha
sobre a insignificância da vida
enquanto eu faço a comida

princesinha
só há maestria
em prender poesia
entre os dentes

princesinha
a maior alegria
é tomar café quente
sentada ao poente

ri comigo princesinha
para afugentar todo o mal
aos lobisomens
por entre os coqueiros
e dar boa noite
aos bois no quintal

wasil sacharuk

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pioggia gentile

pioggia gentile

no inverno
tão pouco chovias
sobre as igrejas
nas arenas
nas ruínas
   chuva fina

só gotas frias
chuva de confetes
serpentinas
e canivetes

non correre al raggio
pioggia gentile
que tua melodia
seja livre

nos dias
carentes
de poesia
viveste a ira
imponente dos raios
   chuva suave

o céu
com poeira de estrelas
traçou outras linhas
horizontes do eu
chuva minha

non correre al raggio
pioggia gentile
que tua melodia
seja livre

wasil sacharuk

 

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Rain Lights by Kateey

Analgesia e placebo

Analgesia e placebo

busca o alívio
pelo sangue que jorra
dos buracos de faca
no mar gosma verde
num século de sede
o dia de ressaca

busca o alívio
dessa dor que ataca
que judia que fere
logo adoece
depois mata

busca o alívio
na mesma crença ingrata
que te pede e promete
um novo milênio
de novas bravatas

busca o alívio
numa letra de hino
nas ciências exatas
nos sistemas de ensino
na pintura abstrata

busca o alívio
nas ideias compradas
filosofias baratas
nas sentenças mais curtas
nas comidas em lata

busca o alívio
nas vivências passadas
nas certezas já prontas
que jamais dizem nada.

wasil sacharuk

 

placebo3

zimbro

zimbro

Sob os frutos
de zimbro ao pé
deitei secretas memórias
relegadas ao limbo
sedimentadas
tal pedras

sob as folhagens
alcei a viagem
nas asas dos versos
rumos repletos
fatal emoção
apertada
em nós abstratos

sob a árvore
estendem-se campos
da criação
livre dos entretantos
da coerência ou coesão

sob a paisagem
universos imensos
contextos completos
recriação
dos tantos retratos

sob os sapatos
frutinhos esmagados
espargidos e coagulados
de rubra poesia

wasil sacharuk

 

001

Rosa vermelha orquídea negra

Rosa vermelha orquídea negra

enquanto dormes
contarei-te as novas
das mil e uma
longas longas longas
noites silenciosas

entenderás
os versos de distração
difusos nas ondas 
sobem sobem sobem
perpassam muros
da razão

sentirás
o velho sopro obscuro
frio anjo demônio
andejo dos umbrais

saberás
desses tempos reais
e seus sonhos
artefatos de poesia
céus e infernos
algo para não acreditar
algo para esquecer
queimar os cadernos

rosa vermelha
orquídea negra
floreiras brancas do descanso
chamam alegria ao imenso jardim

a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 
nas cruzes
se o capim verde
cresce em volta

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 

a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

wasil sacharuk


Hospital Hezbollah

Hospital Hezbollah

Botou ele
mais sal
no prato dela
aumentou a pressão
sentiu mal
partiram direto
para o hospital
Hezbollah

e lá
ela girou
fora para dentro
dentro para fora
pulou sapata
comeu rapadura
mascou chiclete
jogou bola

quando nada lhe falta
no mundo conquistado
ela quis ser rastafari
conhecer astronautas

pagou ele
pela picada letal
congelou toda ação
desatino total
ela partiu direto
ao abismo infernal

e lá
ela virou
direita esquerda
esquerda direita
conheceu o capeta
o saci pererê
o boi da cara preta
e foi-se embora.

wasil sacharuk

hh

Insone

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Insone

vi a alma pairar tal peça solta
a vagar pela casa de aluvião
vi o vento mexendo coisas mortas
no deserto das vidas sem razão

vi o corpo morrer à banca rota
e dever uma vela ao cramulhão
vi o verso perder-se em vias tortas
num soneto perverso e aleijão

vi mistérios baterem à minha porta
a cobrar a dura conta da emoção
uma soma de angústia em várias notas

vi fantasmas de assombro no salão
a arrastar as correntes e as botas
e matar-me de insônia sem perdão.

wasil sacharuk

Desenhando espirais

Desenhando espirais

tu que me viste perdido
no espaço subtraído
inventando poesia
de gabinete

tu que me viste ausente
nos meus versos sem dentes
em fatal desamor à sofia
aos auspícios da negação

tu que me viste à deriva
desprovido da memória
sem vacina
sem repelente
cena suspensa na descrição

logo verás novamente
meus ventos soprarem ideias
traduzidas em versos universais
entre algumas histórias
irreais
ou comoventes

e perceberás a trajetória
que perfaz a rota ascendente
manobrada em círculos
desenhando espirais.

wasil sacharuk

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Image credits: Matthias Haker

Tão somente

Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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poetisa Angela Mattos

Aço

Aço

anda assim
a alma
anda afora
ainda alquebrada
amargura aliviada
anda assim
a alma
animal alado

anda agora
alçada aos ares
arremedando as aves

alça as alturas
até a atmosfera azul
até arcos abertos
aplaudirem ao Apolo
a avermelhar
a aurora ametista

até anoitecer
anda assim
a alma
ainda acordada
abandona a armadura

as aspas abolidas
alíneas
artigos abreviados
abona aos apóstrofos
argumentos acumulados

a alma atada
ao aço
agora admite
arrebentar as algemas.

wasil sacharuk

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Veja aquele vivente

Veja aquele vivente

Estás vendo lá? Aquele, do carvalho?
Tu o vês sentado ao chão
livro na mão
meditando sentido da vida
mendicando flashes de morte

se aquele vivente der sorte
debaixo da copa crescida
sua mente se abre num rasgo
daqueles que faz estrago
no núcleo da consciência

vai indagar filosofia
ressignificar a ciência
e proclamar poesia...

Tu o vês sentado
cérebro na mão
morrendo mendigo
vivendo  da meditação

lá, sob a sombra do carvalho
ao solo molhado de orvalho
sopra sementes
de perguntas tantas.

wasil sacharuk

 

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo da tua vontade

Ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e posso bem mais
mas isso é segredo.

wasil sacharuk


Navegantes do escuro

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Navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino.

wasil sacharuk