lua para te iluminar

lua para te iluminar

nada sei acerca dos paus
que perfazem singelas canoas
quero apenas bater na tua porta
perceber tua presença

nada sei das histórias
que perfazem dramas e guerras
quero estudar a genética
que te brota em fruta
cresce linda na terra
onde plantei amargura

só sei daquilo que sai
dessa estrambótica dimensão
não vou vestido de dádivas
quiçá eu seja o castigo
pelas tuas vidas passadas
 
marcarei-te a ferro e fogo
para que todos me saibam
jamais te ousem tocar

e quando estiveres nua
a te banhar no quintal
descreverei em versos a lua
só para te iluminar

wasil sacharuk

só tenho amor



só tenho amor

tenho nada na vida
só tenho amor

na rua logo te espero
ali bem junto ao portão
bom dia!

trago sorriso de sol
um rascunho de poesia
na palma da mão

queria voz musical
para cantar uma canção
bem linda
de cor

tenho nada na vida
só tenho amor

wasil sacharuk

Maria Louca

Maria Louca

a louca Maria
lá do Sobrado
passa a ler poesia
no canto ensolarado
daquela janela

vive a ler rimas ricas
e as metáforas mais belas
são as suas relíquias
no mundo encantado
das suas quimeras

a louca Maria
lá do Sobrado
passa noites e dias
a ouvir uns recados
que vêm das estrelas

ela não é astrofísica
e sequer tem luneta
só recolhe as titicas
do mundo abstrato
na janela aberta

wasil sacharuk

guia de pilotagem

guia de pilotagem

voar é coisa
para passarinho
já sai do ninho
batendo asas
e dando rasantes
sobre as casas

voar é coisa
de poeta
que pega caneta
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas

voar é coisa
de maluco
ou de bocomoco
se lança às favas
decola imprudente
livre das amarras

que nem borboleta

wasil sacharuk

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Versos de marcenaria

Versos de marcenaria

o poeta artesão salva madeiras
dos armários, cadeiras desprezados
de mogno, eucalipto, cerejeira
a sina marceneira no esquadro

compõe criado mudo em cabeceira
a alma vai inteira no traçado
armário modulado e cantoneira
e poema de primeira bem lixado

a tico-tico esgueira por um lado
um nó versificado na colcheia
na esteira de um metro encantado

poeta abençoado de mão-cheia
das artes que enleia articulado
o amor manifestado das suas veias

wasil sacharuk

capacitacao-marcenaria-formobile

café com as bestas

café com as bestas

ela conversa
com a pedra
confessa desejos
não sente pena
de si mesma

ela toma café
junto às bestas
com pão de queijo
e manteiga

ela não quer
a fé cega
mas quer o amor
mas quer a entrega
ela só quer
ser inteira

wasil sacharuk

Contra hipocrisia

Contra hipocrisia

remédio caseiro
contra hipocrisia
é mante-la em silêncio
guardá-la em segredo

senão tarde ou cedo
num descuido bom senso
sobrevém desespero
para acordar vilania

wasil sacharuk

8f29de35-f6a8-4d87-a21f-71a38a553b00

pacífica

pacífica

eis que faro lupino
apazigua à mansidão
da branca camélia
nesse dia caótico

sossega a ira do destino
derrete a frieza da razão
tão pura camélia
mais fatal
que arma na mão

wasil sacharuk

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brisa leve



brisa leve

janela aberta
ora sou vento e invado
corujo toco e acarinho
ela gosta

ora eu sorrio
ela delicada
sussurra coisas
ao pé do meu ouvido
de encantos
quentinhos

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

ora sou rio
ela delicada
revolve as águas
inverte os sentidos
e eu canto
baixinho

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

wasil sacharuk

jardim bonito das flores cheirosas



jardim bonito das flores cheirosas

move-se crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
resplandecente
ao colo da lua

exibe-se nua
revela o risco
que parte do umbigo
para achar sua rosa
bipartidas pétalas
jardim tão bonito
das flores cheirosas

a noite secreta
tranquila sussurra
salpica-lhe os cabelos
com brilhos perdidos
de estrelas antigas

em desvelos
mergulha ao perigo
no oásis da sede
calado de um porto

e suas costas ao sol
bebem raios ansiosos
que queimam-lhe o corpo

wasil sacharuk

o gosto da tua alma II

o gosto da tua alma II

tua alma
tem textura da pedra
enfeita a ruína
amargura da sina
tem gosto de fogo
que a serpente desperta
abocanha
rumina
desruga
desalma
e entrega

wasil sacharuk


323

O gosto da tua alma I

o gosto da tua alma I

tua alma
lembra café
leite canela
capuccino
tal disse
outro poeta vespertino
acerca da tua nudez

wasil sacharuk

1

Pequeno



Pequeno

eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
               ...fantásticos 

tudo é tão pequeno 
     se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
               ...fantásticos 

tudo é tão pequeno 
     se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno 
       se te amo tão vasto

wasil sacharuk

narciso em teus reflexos



narciso em teus reflexos

Deságua na língua
ágil que te pronuncia
nas tranças da poesia
de um narciso
em teus reflexos

fodes aos versos
eles fodem contigo
caem de boca
fatal puta louca
das pernas abertas

geme manhosa
sujeiras escrotas
devassas da prosa
verte chá de boceta
no caderno
de escrituras

musa bruxa
manipresta negra
refletes indecorosa
no espelho mágico
das minhas letras

wasil sacharuk

A velha detrás duma moita

A velha detrás duma moita

Havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

a velha escolhia pato
no quintal da vizinha
passava pato
passava pato
pato e mais pato

e o tal pato
não aparecia
contou dona Diquinha

e a velha dizia
calma
ainda está passando pato
ainda está passando pato
pato e mais pato

e o tal pato
ela nunca escolhia
então essa história
nunca termina

perguntasse à Diquinha
ainda está passando pato?
ela logo respondia

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk

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Erofagia




Erofagia

provo teu amor à língua
em travessa de louça
na hora do almoço
para senti-lo à boca
delirar com seu gosto

logo irei mastigá-lo
faze-lo espesso
na minha saliva
manjar de átomos
viscosas esferas
assalto às papilas

e engoli-lo
até inundar-me as vísceras
e empapar-me o baço
depois comerei tua carne
a começar pelo braço

wasil sacharuk


fuck

fuck

escuta
não devo desculpas
se te mandei às estrelas
se te mostrei o inferno
nos meus braços
viajaste no espaço
comemos os astros
astronautas famintos
que somos

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
meu desenho
no céu

mas tu dizes
vai vai vai
então eu digo
vem vem vem

depois a gente
fuck fuck fuck
depois a gente
fuck fuck fuck

sabe
não te devo desculpas
se preenchi os buracos
se constelei como louco
no trajeto das ursas
nos meus braços
viajaste no espaço
percorremos o rastro
dos cometas extintos
na nossa cama

sonhamos sonhamos sonhamos
na nossa cama

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
meu desenho
no céu

mas tu dizes
vai vai vai
então eu digo
vem vem vem

entramos e saímos
botamos e tiramos
paramos e mexemos
sonhamos sonhamos sonhamos

se o sol
vai embora
eu escuto
o chamado
e tua boca
tuas mãos
meu desenho
no céu

depois a gente
fuck fuck fuck
depois a gente
fuck fuck fuck

wasil sacharuk

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a lealdade e a servidão

a lealdade e a servidão

tentaram as mãos
tatear o futuro
comovidos dedos
bolinaram nuvens
leves são os pés
saltaram muros
lealdade é sal
contra a vertigem

tentou a cabeça
fazer a viagem
ao lado escuro
da rocha abissal
falaram os diabos
e os santos de fé
a servidão é mal
contra a clareza

wasil sacharuk

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Avesso

Avesso

meu avesso
dos tons desconexos
sem gênero
sem cor
não tem sexo

o melhor lugar

avesso de estar
  avesso de ser
permancer
genuíno que é
avesso de mim
é o avesso de ti
de tão nosso

o avesso
é o que de mim
eu mais gosto

wasil sacharuk

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Amor cru

Amor cru

meu amor cru
assenta galopa
comunga com fé
face à cadeira

macula
tremeluz tal estrela
dança na chuva
germina pólem
sopro de vento

meu amor cru
olhar de centelha
ama sem roupas
amor que é
tem contém
sustém
no espectro
das suas belezas

amor criatura
cor borboleta
clichê passarinho
maior que o planeta
e cabe em meu ninho

macula
tremeluz tal estrela
dança na chuva
corpo nu
do espaço e do tempo

wasil sacharuk

1510217094121

graffiti

graffiti

estalidos singelos
beijos pequeninos
selam a superfície

extasiado artífice
percorro acidentes
tal olhar de graffiti
denota tuas curvas
em glorioso desenho

refaço caminhos
das tuas belezas
tuas ancas
teus seios
acendo tua pele
com fagulhas de mim

nossas línguas
exalam polissemia
compartilhamos os dedos
sucumbidos segredos
desvendados os versos
gotejam poesia

dissolvidos átomos
amor e saliva
ao pulsar soberano
explodida em minhas vias
tu deságuas nas tintas

wasil sacharuk

grafite

O novo sopro do vento

O novo sopro do vento

percorri noites insones
quando todos dormiam
andei ruas coloridas
luzes que me cegavam

contei noites estelares
tal cavaleiro noturno
que se desfaz em orvalho
do amor que tanto sente
do amor que tanto sente

meu corpo é frio
meu peito é mais
mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

medi forças com o tempo
enquanto todos dormiam
vi imagens distorcidas
luzes que me enganaram

escrevi poemas tolos
tal mensageiro noturno
que se desfaz oceano
de tanto amor que sente
de tanto amor que sente

meu corpo é frio
meu peito é mais
mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

mas abre para abraçar
o novo sopro do vento

wasil sacharuk

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A tortura é o grito

A tortura é o grito

a tortura
é o grito
um poema aflito
um engasgo
o murmúrio
canto desafinado

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de costa e de frente
ao caralho

a tortura
é o grito
o cu circunscrito
no rabo
o perjúrio
do pau atolado

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de costa e de frente
ao caralho

a tortura
é o grito
sócio-político
o estrago
no furingo
do povo otário

respinga chuva
em mim
pingam gotas de ti
pinga orvalho

wasil sacharuk




temer-juca

novamente chorei



novamente chorei

certos dias eu soube
nas noites duvidei
as vezes eu tive
outras vezes dispensei
dia desses fui forte
noite dessas errado
novamente chorei

na manhã tive sorte
mas na noite azarei
já estive parado
entretanto andei
nalguns dias vivi
noutras noites morri
novamente chorei

pelo meu espaço
pelo meu caminho
pelo teu carinho
pelo teu abraço

certos dias eu soube
nas noites duvidei
tantas vezes vivi
tanto noutras morri
novamente chorei

pelo meu espaço
pelo meu caminho
pelo teu carinho
pelo teu abraço

novamente chorei

wasil sacharuk

Adaga

Adaga

risquei teu nome
no espelho do banheiro
desmanchei meu baton

vingadora insone
saí mesmo do tom

a raiva embriaga
eu perco o norte
a elegância e o porte
é a praga

no sentido da fome
comeria-te inteiro
e seria tão bom
  o desejo é ligeiro
insano e rasga
sem compaixão

arde forte
o sol escorpião
diante do corte
da adaga

wasil sacharuk

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Tudo e mais outro tanto

Tudo e mais outro tanto

A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como, a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego.

wasil sacharuk

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Vamos para casa

Vamos para casa

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

procura o destino de cada coisa
procura o sentido de cada palavra
procura aquilo que faz dizer não
onde está a verdade de cada não?

logo te levo para minha casa
logo alí onde moram mistérios
sentaremos ao colo da noite
antes mesmo que o sol acorde

la la la la la
vamos para casa
viver da beleza
viver as incertezas
que temos para nós
e não vais viver só

venhas comigo
venhas comigo
podes ver quando a lua declina?
podes sentir o pulso da vida?

venhas comigo
venhas comigo
correr pelos campos dos lírios infindos
lá onde apenas nós dois existimos

se tu me amas
o universo conspira
se tu me amas
nosso santo ajuda
venhas fazer
tudo aquilo que queres
venhas fazer
tudo aquilo que quero

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

procura onde mora cada resposta
procura sentido onde nada importa
procura saber sobre tudo o que fere
qual o valor do não mais nos serve?

logo te levo para meu mundo
logo alí onde acaba o inverno
e sentaremos ao colo da noite
antes mesmo que o sol acorde 

la la la la la
vamos para casa
viver da beleza
viver as incertezas
que temos para nós
e não vais viver só

venhas comigo
venhas comigo
podes ver quando a lua declina?
podes sentir o pulso da vida?

venhas comigo
venhas comigo
correr pelos campos dos lírios infindos
lá onde apenas nós dois existimos

se tu me amas
o universo conspira
se tu me amas
nosso santo ajuda
venhas fazer
tudo aquilo que queres
venhas fazer
tudo aquilo que quero

la la la la la
vamos para casa
la la la la la
vamos para casa

ooohhh ooohhh
ooohhh ooohhh

wasil sacharuk

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Uirapuru

Uirapuru

Uirapuru
canta para mim:

quem és tu?

Já cometi grave falta
ao pensar que eras flauta
uirapuru tu és musical
uirapuru tu és cântico
és fenômeno  igual
no Pacífico ou Atlântico

teu canto  é encanto
tua casa é recanto
tua sorte
é morrer empalhado
teu azar
é viver ameaçado

Ah, maldita extinção
o único pássaro livre
é o tal de avião

wasil sacharuk

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Fé demais



Fé demais

Teimoso era o burro
do Teodoro
batia cabeça dura
nas tábuas da baia
logo após desmaiava
durinho da silva

Teodoro
tentava bocaboca
simpatia
recitava poesia
reza forte
salvava o burro da morte

Certo dia
montou o quadrúpede
e orou
pediu para deus
por um tanto de sorte

recém ressuscitado
o animal vacilão
bateu de novo a cabeça
lançou Teodoro à distância
que espatifou-se ao chão

Teodoro
além de burro é simplório
morto na contramão
atrapalhou o trânsito

O burro
filho de égua e jumento
não mais do que burro
só desmaiou
mas ainda viveu

moral da estória:
mais burro que burro
é quem esperou pela glória
confiou na vitória
e só se fodeu

wasil sacharuk
BydPzI5IUAARKPy

Choro comprado

Choro comprado

quando extinguirem
meus átomos
ficarão meus enfados
e alguma sujeira

serei sempre lembrado
pelo choro comprado
das fiéis carpideiras

wasil sacharuk

carpid

De botânica não entendo

De botânica não entendo

na velha orquídea
prevalecem cem anos
insistem primaveras
brotam dezessete
ou então vinte três
lilases amores

no meu quintal
germinam sementes
flores mágicas
contra existência enfadonha

na velha orquídea
poesia do amor
sabedoria dos tempos

pouco sei das orquídeas
de botânica não entendo
mas também acho vida
quando mudam os ventos

wasil sacharuk

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O vestido

O vestido

teu vestido
costurado à mão
traz sonhos e notas
  encantos coloridos
estamparia de passarinhos

carrego na bolsa
minhas agulhas e linhas
para suprir alinhavos
pregar em tuas costas
par de asas
para voar sobre as águas

desliza tua mão
sobre esse tecido
sente a textura fria
sincera e serena
costura fina
das cartas da alma
e versos de poesia
que tanto combinam
com a maciez da tua voz

escolhe um batom
que ostente a palavra
alimente o fogo
e ilumine o decote

a agulha faz dor
quando toca o íntimo
e o vestido
insinua vestígios
se não tem drapeados

wasil sacharuk

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loop

loop

Clara Ana
paleta mexicana
frutas vermelhas
ovo caipira

linda laranja
casca espiral
língua de fogo
e girassol

wasil sacharuk


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Quando os feixes perpassam vitrais

Quando os feixes perpassam vitrais

Enquanto vislumbras belos vitrais perpassados por feixes de luz, as sombras ocultam vestígios e sacerdotes ostentam as joias de baal.

Nas aberturas da catedral, o lume do sol despe extraordinária arte, o ópio e o mistério, tudo aquilo o que te for semelhante.

Logo, sou mesmo eu, assim como és tu, artífices das coisas belas e, sem elas, permanecemos ruína.

Eis que não há verdade sem a ruína.

Ruína é a casa daqueles que lutam. É o palco daqueles que vivem. É ela o esteio de qualquer fundamento.

wasil sacharuk

Fêmea indelicada

Fêmea indelicada

passeio-te pela pele
as digitais
percorrer-te outra vez

circunferencio-te
branca tez
fina areia

morna brisa
sopra do mar reentrâncias
hoje sou lua cheia
bebo-te os córregos
deslizo-te as tranças
penetro-te os poros
clandestinos da pele

assalto-te os potes
teu tesouro
tua oferenda

despejo-te néctar
sobre a língua
indelicada fêmea
faminta na senda

morna brisa
sopra do mar reentrâncias
hoje sou rio acima
escrevo-te as rimas
descrevo-te as ânsias
agarro-te as crinas
a sujeitar-te no curso

wasil sacharuk

Estranha florista



Estranha florista

a estranha florista
na sua bicicleta
atravessa a floresta
há chão pela frente
mas o universo conspira

da vertente
jorra água cristalina
ela pode beber
também pode banhar
a natureza é justa
e o tempo infalível
organiza tudo
no devido lugar

ela aprende
o que a vida ensina
quando escuta as pedras
e convence as flores
que as coisas pequeninas
podem ser muito belas

e entende
a língua da rosa calada
quando chora as feridas
perde as pétalas e a vida
mas não quer dizer nada

então sente
seu amor correr líquido
regar de luz o espírito
para acender madrugadas

wasil sacharuk
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Montaria

Montaria

da minha cadeira
discorro as horas
quando então saltas
sobre minhas pernas
linda esperta
e solta

tua mão mostra a rota
te insinuas na montaria
galgas potra sem cilha
das ancas escarranchadas
a percorrer cavalgada
livre e sem piedade
pelo meu corpo afora

sem demora
meu olhar te devora
explora tuas vertentes
meus dedos enroscam cabelos
para prender-te
meus versos declamam mamilos
entre os dentes

logo mergulhas urgente
para colher em tua língua
meu prêmio aos teus desvelos

wasil sacharuk

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Faremos amor com Tchaikovsky

Faremos amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
minguarei-te
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
minha boca
pousará nos contornos
tuas dunas de areia

wasil sacharuk

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Poesia dos desadornos

Poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram sua pele
que voam ultraleve
mesmo na queda dura

ela ama as rosas
e também os espinhos
a dor e a textura
das entregas deliciosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
que declama sem ar
os cumes do seu corpo
a ilha entre suas pernas

versos brancos desabrocham
suplicam que os contemplem

ela ama os acordes
sinfônicos de violino
os dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
que um verso adentre
destrave os seus dentes
entreabra sua boca
explore recônditos
gengiva e língua

poesia dos desadornos
que expande e amingua
desenha contornos
ao entorno das dunas

rosas brancas desabrocham
suplicam que as contemplem

wasil sacharuk

mackbyNG2

A umidade da noite

A umidade da noite

Brinquei com o nariz da noite na pontinha do meu indicador. Ela, surpresa, mirou gentilmente bem dentro dos meus olhos e sorriu pelo canto da boca. Há dias que a noite acorda no jardim, contando estrelas inocentes. Então eu sorri para ela também.

Corremos, dançamos e, depois, mergulhamos desnudos numa gota de orvalho. Exploramos profundamente. Apneia de sete segundos.

E a noite, toda molhada, se abriu toda, estrelada e lânguida. Logo, percorri com meus dedos, bem dentro, dos cachos dos seus cabelos, que enroscados num canto da lua, despencavam incertos pelo breu.

Ela, a noite, generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinado, a penetrei pelos olhos.

wasil sacharuk

Risco

Risco

arrisco a pele
à crueldade do risco
desruga a carne no vinco
tuas unhas amoladas

selvagem felina

sei que nada
te domina
nem os avessos
sequer incertezas
se inclinas garras finas
sobre as faces

wasil sacharuk

mackbyNG3

Os demônios do esquecimento



Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente. Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais. Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk


Helena de um mundo abissal



Helena de um mundo abissal

descubro-te imersa no amor 
teu mergulho inteligente
eis que brotas tal semente
no quintal da minha casa

logo posso colher-te
num poema que te acalente
envolta nas minhas asas
tu Helena
de um mundo abissal
lá onde o amor é lenda
renova sua sentença
noutra história sem final

te insinuas na senda
a vestir tua pele
com o que te cabe
e te despes da cal
que te queima a carne
clareia teus karmas
circunda tua aura

é esse amor
linda Helena
que elevo na escrita
diz a mim pela arte
e tatuou o teu nome
na minha espádua

wasil sacharuk
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O servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.dinheiro-3-300x220
Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções.
Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho. 
Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.
Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco.
Vendeu seguros. Desejou estar seguro.
Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu.
Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

wasil sacharuk

feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



Opus para flauta

Opus para flauta

ao avesso
seus olhos adentro
atravesso
com versos do cancioneiro
barco à revelia

as três marias
apontam o universo
paralelo

a deusa
dança nas nebulosas
dissipa as dúvidas
opus de flauta
doce e singelo

emissões úmidas
num singular dialeto
declamam a mim de um jeito
estranhamente belo

wasil sacharuk


Rima pobre

Rima pobre

pobre rima
rima pobre
queria ser genuína
estar entre os nobres
triste sina
morrer na esquina
pedindo esmolas

nasceu de parto normal
frequentou a escola
e fez suas escolhas
nos versos da vida

viveu esquecida
pobre rima
malabarista de bolas
sob o farol
da avenida

wasil sacharuk


se calas

se calas

poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

se calas 
te sinto presente
até o silêncio das pedras
posso escutar

poeta atrapalhado
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
sei de cor e salteado
teu jeito simplório
teus intentos

permaneço abrindo poros
meus e teus
vidrada no sangue 
que jorra vertente
nas folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

wasil sacharuk



outra dança cigana

outra dança cigana

se o amor
voou com os pássaros
para outras vivendas
deixa a inspiração
beijar teus olhos
de coruja na senda

dança
e te encanta
novos passos
outra dança cigana
gira as saias
sopra as farpas
que te arranham
a pele

wasil sacharuk

Dancing Gypsy Painting by Anna Rose Bain


O caderno

O caderno

naquele caderno
descansavam letras
contorcidas e pretas
caladas e sem dom
inexpressivas sem som
tantas danças
cabeça e caneta

nas páginas brancas
jazia a destreza
que desarrumava palavras
devolvia perguntas
embaralhava nuanças

o clamor da beleza
jamais alcança
o embaraço das luzes
das ideias abstratas

se bem que um caderno
pode ser céu de papel
ou combustível do inferno

wasil sacharuk

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The brazilian bundamolism

The brazilian bundamolism

Quando os abutres chegaram
estúpidos cadáveres já habitavam vera cruz
completamente duros e inertes

no entanto
conservaram intacta a moleza dos seus glúteos
por mais quinhentos e tantos anos

chamaram a isso: malemolência!

wasil sacharuk

Passeio breve

Passeio breve

Aprende, mulher
a vida segue
ainda há espaço
para os lamentos

a escultura do tempo
revela-te em traços
e as tuas faces
têm novos contornos

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

aprende, mulher
que o poeta te ensina
na esteira dos dias
há novas surpresas

a vida veste poesia
a vertente sangria
nunca termina

na ciência das coisas
cada átomo-coisa
tem lá sua sina
e se morrem as coisas
não é a ruína

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

wasil sacharuk

nada se perde, nada se cria1

perpetuum mobile

perpetuum mobile

tão esquivada
dos meus sentimentos
me vi solitária
na multidão

tanta tristeza
tanto lamento
me vi revirada
pela emoção

mas é assim mesmo
que sopram meus ventos
dançam com a flâmula
da solidão

continuo estranha
nos últimos tempos
presa às raias
da busca em vão

wasil sacharuk

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Simpatia

Simpatia

sorriso
simples e claro
branco de neve
tal algodão
dentadura
e brancura

liso
singelo e caro
doa-se leve
tal a emoção
que se esconde
na brandura

wasil sacharuk

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Ao redor da caverna

Ao redor da caverna

não estou confinado na geometria
não sou outro adepto das idolatrias
nenhuma promessa de mundo melhor

e nada me priva da luz do sol
qualquer juízo não é ameaça
qualquer vela de chama escassa
não se compara ao meu arrebol

não tenho a posse da sabedoria
recuso ao batismo da hipocrisia
nem sei recitar escrituras de cor

sou o compromisso da vida que passa
pelas sombras impressas numa parede
se eu não sair para caçar serei caça
não vou morrer sem matar minha sede

não estou sob um jugo à revelia
não sou silenciado e digo heresia
não sou outro escravo do teu senhor

meu trato com a vida rompe grilhões
sem fundo de poços e longe do abismo
ao redor da caverna há tantas paixões
há o entendimento sem determinismo

eu sou uma essência que induz poesia
sou os versos latentes da ontologia
que só admite o poder do amor

wasil sacharuk

Caverna-de-Platao

Sozinha

Sozinha


aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

wasil sacharuk

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Quando o sol fica ensimesmado

Quando o sol fica ensimesmado

o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
em disparada cabal
bicho selvagem alado
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
e nunca desama
veste o raio que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
 
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

se o vento da noite
trepida paredes
eleva teus pés delicados
tilinta o cristal
dos lindos sapatos
que decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

wasil sacharuk

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Será sempre caminho

Será sempre caminho

Aprende, Gafanhoto
observa os poetas
declinando as letras
golpes na completude
do vazio

escuta versos repletos
o silêncio e a música
das águas do rio

entende, Gafanhoto
a dor é peso morto
despenca pela colina
esvanece na distância

e a poesia se funda na ânsia
de ver através da neblina

Gafanhoto
sente teu corpo
quando danças
cascatas e desatino

no abismo das ânsias
tua escolha
será sempre caminho

wasil sacharuk

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Fascínio

Fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

wasil sacharuk

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Cantilena ao socialismo aquático

Cantilena ao socialismo aquático

os peixes traíras
naturalmente nefastos
a poucos pés da complexidade
dos nossos mares tão trágicos
rodamoinho de imbroglios
quintanamente bicudos

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para curtir
a própria perplexidade

e com o peixe-povo?
nada novo
só nada para servir
a sua lulossantidade

os peixes traíras
são só alguns poucos
e nadam muito à vontade
num menage sabático
caviar no antepasto
borbulham vinho do porto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para comer
chorume e esgoto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para cheirar
peido e arroto

wasil sacharuk

lula-peixeLula (Foto: Divulgação)

as pequenas coisas


as pequenas coisas

as pequenas coisas
são verdes
ou qualquer outra cor
inocentes
sob o prisma do amor

as pequenas coisas
são brutas
pedras duras
cicatrizes das almas
cerne do mundo

pequenas coisas são tudo
mas cabem na palma
da mão de um amigo

as pequenas coisas
são muito mais
que a calma do abrigo
o desvelo aos animais
vidas de todas as cores

as pequenas coisas
partilham suas dores
com os outros mortais

wasil sacharuk

flat,1000x1000,075,fGala Gauthier

das artes manuais

das artes manuais

nas mãos trago o signo
registros do destino
a história das sinas
estigma raio ametista
e o corte diamante
dedos e falanges
de emanações quentes

nelas reside a febre
revolução incontida
o enlace da corda
senso e sentimento
a sorte e o lamento
a passagem e a porta

as mãos têm a voz
fachos exatos da luz
veredas do argumento
que implodem muros
entre guerra e paz

tenho nas mãos
nuvem branca de sonhos
bálsamo das dores
espinhos de flores
feridas calejadas

delas verte a verve
da criação inaudita
sutileza do corte
extenso e profundo
do louco até o mundo
a viagem e a morte

wasil sacharuk

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Contando estrelas calaveras

Contando estrelas calaveras

No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita

deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira

wasil sacharuk

romance na curutela

O cheiro do cio

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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