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loop

loop

Clara Ana
paleta mexicana
frutas vermelhas
ovo caipira

linda laranja
casca espiral
língua de fogo
e girassol

wasil sacharuk


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Quando os feixes perpassam vitrais

Quando os feixes perpassam vitrais

Enquanto vislumbras belos vitrais perpassados por feixes de luz, as sombras ocultam vestígios e sacerdotes ostentam
as joias de baal.

Nas aberturas da catedral, o lume do sol despe extraordinária arte, o ópio e o mistério, tudo aquilo o que te for semelhante.

Logo, sou mesmo eu, assim como és tu, artífices das coisas belas e, sem elas, permanecemos ruína.

Eis que não há verdade sem a ruína.

Ruína é a casa daqueles que lutam. É o palco daqueles que vivem. É ela o esteio de qualquer fundamento.

wasil sacharuk

Fêmea indelicada

Fêmea indelicada

passeio-te pela pele
as digitais
percorrer-te outra vez

circunferencio-te
branca tez
fina areia

morna brisa
sopra do mar reentrâncias
hoje sou lua cheia
bebo-te os córregos
deslizo-te as tranças
penetro-te os poros
clandestinos da pele

assalto-te os potes
teu tesouro
tua oferenda

despejo-te néctar
sobre a língua
indelicada fêmea
faminta na senda

morna brisa
sopra do mar reentrâncias
hoje sou rio acima
escrevo-te as rimas
descrevo-te as ânsias
agarro-te as crinas
a sujeitar-te no curso

wasil sacharuk

Estranha florista



Estranha florista

a estranha florista
na sua bicicleta
atravessa a floresta
há chão pela frente
mas o universo conspira

da vertente
jorra água cristalina
ela pode beber
também pode banhar
a natureza é justa
e o tempo infalível
organiza tudo
no devido lugar

ela aprende
o que a vida ensina
quando escuta as pedras
e convence as flores
que as coisas pequeninas
podem ser muito belas

e entende
a língua da rosa calada
quando chora as feridas
perde as pétalas e a vida
mas não quer dizer nada

então sente
seu amor correr líquido
regar de luz o espírito
para acender madrugadas

wasil sacharuk
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Montaria

Montaria

da minha cadeira
discorro as horas
quando então saltas
sobre minhas pernas
linda esperta
e solta

tua mão mostra a rota
te insinuas na montaria
galgas potra sem cilha
das ancas escarranchadas
a percorrer cavalgada
livre e sem piedade
pelo meu corpo afora

sem demora
meu olhar te devora
explora tuas vertentes
meus dedos enroscam cabelos
para prender-te
meus versos declamam mamilos
entre os dentes

logo mergulhas urgente
para colher em tua língua
meu prêmio aos teus desvelos

wasil sacharuk

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Faremos amor com Tchaikovsky

Faremos amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
minguarei-te
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
minha boca
pousará nos contornos
tuas dunas de areia

wasil sacharuk

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Poesia dos desadornos

Poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram sua pele
que voam ultraleve
mesmo na queda dura

ela ama as rosas
e também os espinhos
a dor e a textura
das entregas deliciosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
que declama sem ar
os cumes do seu corpo
a ilha entre suas pernas

versos brancos desabrocham
suplicam que os contemplem

ela ama os acordes
sinfônicos de violino
os dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
que um verso adentre
destrave os seus dentes
entreabra sua boca
explore recônditos
gengiva e língua

poesia dos desadornos
que expande e amingua
desenha contornos
ao entorno das dunas

rosas brancas desabrocham
suplicam que as contemplem

wasil sacharuk

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A umidade da noite

A umidade da noite

Brinquei com o nariz da noite na pontinha do meu indicador. Ela, surpresa, mirou gentilmente bem dentro dos meus olhos e sorriu pelo canto da boca. Há dias que a noite acorda no jardim, contando estrelas inocentes. Então eu sorri para ela também.

Corremos, dançamos e, depois, mergulhamos desnudos numa gota de orvalho. Exploramos profundamente. Apneia de sete segundos.

E a noite, toda molhada, se abriu toda, estrelada e lânguida. Logo, percorri com meus dedos, bem dentro, dos cachos dos seus cabelos, que enroscados num canto da lua, despencavam incertos pelo breu.

Ela, a noite, generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinado, a penetrei pelos olhos.

wasil sacharuk

Risco

Risco

arrisco a pele
à crueldade do risco
desruga a carne no vinco
tuas unhas amoladas

selvagem felina

sei que nada
te domina
nem os avessos
sequer incertezas
se inclinas garras finas
sobre as faces

wasil sacharuk

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Os demônios do esquecimento

Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis, cultivada pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente.  Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais.  Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk


Helena de um mundo abissal

Helena de um mundo abissal

descubro-te imersa no amor
teu mergulho inteligente
eis que brotas tal semente
no quintal da minha casa

logo posso colher-te
num poema que te acalente
envolta nas minhas asas
tu Helena
de um mundo abissal
lá onde o amor é lenda
renova sua sentença
noutra história sem final

te insinuas na senda
a vestir tua pele
com o que te cabe
e te despes da cal
que te queima a carne
clareia teus karmas
circunda tua aura

é esse amor
linda Helena
que elevo na escrita
diz a mim pela arte
e tatuou o teu nome
na minha espádua

wasil sacharuk

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O servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.dinheiro-3-300x220
Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções.
Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho. 
Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.
Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco.
Vendeu seguros. Desejou estar seguro.
Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu.
Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

wasil sacharuk

feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



Opus para flauta

Opus para flauta

ao avesso
seus olhos adentro
atravesso
com versos do cancioneiro
barco à revelia

as três marias
apontam o universo
paralelo

a deusa
dança nas nebulosas
dissipa as dúvidas
opus de flauta
doce e singelo

emissões úmidas
num singular dialeto
declamam a mim de um jeito
estranhamente belo

wasil sacharuk


Rima pobre

Rima pobre

pobre rima
rima pobre
queria ser genuína
estar entre os nobres
triste sina
morrer na esquina
pedindo esmolas

nasceu de parto normal
frequentou a escola
e fez suas escolhas
nos versos da vida

viveu esquecida
pobre rima
malabarista de bolas
sob o farol
da avenida

wasil sacharuk


se calas

se calas

poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

se calas 
te sinto presente
até o silêncio das pedras
posso escutar

poeta atrapalhado
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
sei de cor e salteado
teu jeito simplório
teus intentos

permaneço abrindo poros
meus e teus
vidrada no sangue 
que jorra vertente
nas folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

wasil sacharuk



outra dança cigana

outra dança cigana

se o amor
voou com os pássaros
para outras vivendas
deixa a inspiração
beijar teus olhos
de coruja na senda

dança
e te encanta
novos passos
outra dança cigana
gira as saias
sopra as farpas
que te arranham
a pele

wasil sacharuk

Dancing Gypsy Painting by Anna Rose Bain


O caderno

O caderno

naquele caderno
descansavam letras
contorcidas e pretas
caladas e sem dom
inexpressivas sem som
tantas danças
cabeça e caneta

nas páginas brancas
jazia a destreza
que desarrumava palavras
devolvia perguntas
embaralhava nuanças

o clamor da beleza
jamais alcança
o embaraço das luzes
das ideias abstratas

se bem que um caderno
pode ser céu de papel
ou combustível do inferno

wasil sacharuk

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The brazilian bundamolism

The brazilian bundamolism

Quando os abutres chegaram
estúpidos cadáveres já habitavam vera cruz
completamente duros e inertes

no entanto
conservaram intacta a moleza dos seus glúteos
por mais quinhentos e tantos anos

chamaram a isso: malemolência!

wasil sacharuk

Passeio breve

Passeio breve

Aprende, mulher
a vida segue
ainda há espaço
para os lamentos

a escultura do tempo
revela-te em traços
e as tuas faces
têm novos contornos

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

aprende, mulher
que o poeta te ensina
na esteira dos dias
há novas surpresas

a vida veste poesia
a vertente sangria
nunca termina

na ciência das coisas
cada átomo-coisa
tem lá sua sina
e se morrem as coisas
não é a ruína

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

wasil sacharuk

nada se perde, nada se cria1

perpetuum mobile

perpetuum mobile

tão esquivada
dos meus sentimentos
me vi solitária
na multidão

tanta tristeza
tanto lamento
me vi revirada
pela emoção

mas é assim mesmo
que sopram meus ventos
dançam com a flâmula
da solidão

continuo estranha
nos últimos tempos
presa às raias
da busca em vão

wasil sacharuk

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Simpatia

Simpatia

sorriso
simples e claro
branco de neve
tal algodão
dentadura
e brancura

liso
singelo e caro
doa-se leve
tal a emoção
que se esconde
na brandura

wasil sacharuk

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Ao redor da caverna

Ao redor da caverna

não estou confinado na geometria
não sou outro adepto das idolatrias
nenhuma promessa de mundo melhor

e nada me priva da luz do sol
qualquer juízo não é ameaça
qualquer vela de chama escassa
não se compara ao meu arrebol

não tenho a posse da sabedoria
recuso ao batismo da hipocrisia
nem sei recitar escrituras de cor

sou o compromisso da vida que passa
pelas sombras impressas numa parede
se eu não sair para caçar serei caça
não vou morrer sem matar minha sede

não estou sob um jugo à revelia
não sou silenciado e digo heresia
não sou outro escravo do teu senhor

meu trato com a vida rompe grilhões
sem fundo de poços e longe do abismo
ao redor da caverna há tantas paixões
há o entendimento sem determinismo

eu sou uma essência que induz poesia
sou os versos latentes da ontologia
que só admite o poder do amor

wasil sacharuk

Caverna-de-Platao

Sozinha

Sozinha


aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

wasil sacharuk

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Quando o sol fica ensimesmado

Quando o sol fica ensimesmado

o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
em disparada cabal
bicho selvagem alado
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
e nunca desama
veste o raio que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
 
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

se o vento da noite
trepida paredes
eleva teus pés delicados
tilinta o cristal
dos lindos sapatos
que decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

wasil sacharuk

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Será sempre caminho

Será sempre caminho

Aprende, Gafanhoto
observa os poetas
declinando as letras
golpes na completude
do vazio

escuta versos repletos
o silêncio e a música
das águas do rio

entende, Gafanhoto
a dor é peso morto
despenca pela colina
esvanece na distância

e a poesia se funda na ânsia
de ver através da neblina

Gafanhoto
sente teu corpo
quando danças
cascatas e desatino

no abismo das ânsias
tua escolha
será sempre caminho

wasil sacharuk

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Fascínio

Fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

wasil sacharuk

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Cantilena ao socialismo aquático

Cantilena ao socialismo aquático

os peixes traíras
naturalmente nefastos
a poucos pés da complexidade
dos nossos mares tão trágicos
rodamoinho de imbroglios
quintanamente bicudos

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para curtir
a própria perplexidade

e com o peixe-povo?
nada novo
só nada para servir
a sua lulossantidade

os peixes traíras
são só alguns poucos
e nadam muito à vontade
num menage sabático
caviar no antepasto
borbulham vinho do porto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para comer
chorume e esgoto

e com o peixe-povo?
nada novo
ele nada para cheirar
peido e arroto

wasil sacharuk

lula-peixeLula (Foto: Divulgação)

as pequenas coisas


as pequenas coisas

as pequenas coisas
são verdes
ou qualquer outra cor
inocentes
sob o prisma do amor

as pequenas coisas
são brutas
pedras duras
cicatrizes das almas
cerne do mundo

pequenas coisas são tudo
mas cabem na palma
da mão de um amigo

as pequenas coisas
são muito mais
que a calma do abrigo
o desvelo aos animais
vidas de todas as cores

as pequenas coisas
partilham suas dores
com os outros mortais

wasil sacharuk

flat,1000x1000,075,fGala Gauthier

das artes manuais

das artes manuais

nas mãos trago o signo
registros do destino
a história das sinas
estigma raio ametista
e o corte diamante
dedos e falanges
de emanações quentes

nelas reside a febre
revolução incontida
o enlace da corda
senso e sentimento
a sorte e o lamento
a passagem e a porta

as mãos têm a voz
fachos exatos da luz
veredas do argumento
que implodem muros
entre guerra e paz

tenho nas mãos
nuvem branca de sonhos
bálsamo das dores
espinhos de flores
feridas calejadas

delas verte a verve
da criação inaudita
sutileza do corte
extenso e profundo
do louco até o mundo
a viagem e a morte

wasil sacharuk

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Contando estrelas calaveras

Contando estrelas calaveras

No pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita

deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira

wasil sacharuk

romance na curutela

O cheiro do cio

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

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sorvida

sorvida

sublime
sobreveio seu sabor
salpicado suor
silvestre salgado
salsa
sálvia

seu sexo
selou sensações
singular sinfonia
sem sentido
sem sequência

seu sorriso
simulou sinos
soou sincero
somente sorriso
simplesmente satisfeito

wasil sacharuk

3ilustração: Mihály Von Zichy

nave

nave

saibas, guria
não quero anarquia
não quero barraco
quero uma escuna
uma nave um barco
que faça fortuna
que navegue poesia
que viaje no espaço

wasil sacharuk

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as noivas de gramsci

as noivas de gramsci

desfez-se a distância
entre as lembranças
e o firmamento
não há mais lamento
nem vinganças
apagadas memórias
de militância

a história
redunda em vergonhas
falsas beligerâncias
artimanhas

percorre simplória
pela linha do tempo
entre tolos eventos
extremidades do fio
da ignorância

e as noivas de gramsci
valsam impunes
com a ganância

wasil sacharuk

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Jardinagem

Jardinagem

Hoje, voltou ao jardim e, enfim, pousou a mão sobre a indelicada rosa vermelha.

Tão linda, abriu-se inteira. Desejou e exibiu suas belezas aos viventes da estação; e o jardineiro, feito abelha, deslizou satisfeito pela seiva conquistada com paciência e manipulada com paixão.

Seus dedos cálidos de humores percorreram a umidade da lírica flor. Resvalou nas vontades e sucumbiu entre as pétalas. Tanto calor. Estava ela lá, lânguida rosa indecorosa, liberta e plena, tal a poesia.

wasil sacharuk

mujer-rosa

invenção

invenção

nenhum deus te dá
nenhum diabo te tira
a realidade que crias
não se trata de mentira
mas decerto é invenção
tal a poesia
que pensa com o coração

wasil sacharuk

god-devil-5671846

Quatro duos e tua boca

Quatro duos e tua boca

tenhas dileto cuidado
com o estranho poema

paira passivo
para ser aniquilado

vista-te das escolhas
das minhas das tuas das todas

na nuvem risquei quatro duos
transmutei beijo fátuo

em tua boca


wasil sacharuk

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correção

correção

se poesia
cai tal pluma
não causa avaria

um poema
fora do livro
causa engano
desassossego

o medo
da pronúncia
dos versos insanos
oculta segredos
à revelia

wasil sacharuk

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roda-viva



roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk
rodaviva



Margarita

Margarita

margarita das ancas
redondas
madrepérola pele
opaca leitosa
pérola esfera
lúcida curva
a virgem translúcida
de concha e alcova

wasil sacharuk
ostra

opus 54

opus 54

lira e arpejo
gotejam desejos
diluído gelo
dos segredos
da noite

a ponte o plano
o recanto
o semblante
a lembrança
vive num canto
do horizonte

declinam dedos
a sentença
e o açoite
valsam enredos
dos segredos
da noite

lira e arpejo
recital ao piano
pingam desvelos
dos segredos
da noite

wasil sacharuk

casal-schumann

Sortilégio

sortilégio

habita
as altas colinas
e indelicada
manipula elementos

faminta
vinga nas matas
enfrenta os ventos
mastiga raízes
engole os frutos
absurdos
que repelem a dor

ela adora
os acentos agudos
nas palavras esdrúxulas
o dó das cicatrizes
sangra lamentos
ao risco de espora
marca vírgulas

antropófaga
poisa nas várzeas
insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até a aurora
do próximo amor

wasil sacharuk

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as sextas-feiras são fêmeas

as sextas-feiras são fêmeas

fêmeas
são as sextas-feiras
exibem unhas vermelhas
a delicada dança
das mãos finas

meninas
noites intensas
noites tesas
a verter natureza
pelas pernas

declinam
ciclos de espera
se o tempo é esteira
deriva a sina
em mar aberto

decerto
haverão sextas-feiras
menstruadas

wasil sacharuk

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Sideral

Sideral

poeta alienígena
dos ares facínoras
habita a nuvem
nave mãe coerente
construída para ti
no feixe de espaço
estranho e distante
em que constelas

ele pode
pincelar falsas telas
fazer pouco caso
tripudiar das escolhas
inverter as letras
travar poesia na prosa

talvez só acredite
na finitude das coisas
na tolice das minhas
na doença das tuas
na perplexidade
das todas

sideral iluminado
jaz ao lado
do olho da lua
máscara turva
sobre as faces

wasil sacharuk

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poema do caos ao ocaso

poema do caos ao ocaso

as lanternas acesas
apontam o caos ao ocaso
desfilam luzes veredas
lumiam doces sentenças
da crosta ao espaço

murmurante heresia
sem temor ou tormenta
num raio num traço
num verso de poesia

wasil sacharuk

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minhoca na praia

minhoca na praia

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco

wasil sacharuk

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estrelas te vigiam abismadas

estrelas te vigiam abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
nenhuma bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
do teu ofício
os excessos e os vícios
o tesão e as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

wasil sacharuk

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Vácuo

Vácuo

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

ventos virão
virarão vendaval
valentes vertentes
varrerão vilipendios
varrerão vilanias
vereis

vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
venderão vaginas
valendo vagos vinténs

vegetarão velhos
valsando vertigem
virando voltas
vomitarão verdades

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo

vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs

vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
voarão velozes
vomitarão verdades

ventos virão
virarão vendaval
vereis

wasil sacharuk

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Ofício das notas

Ofício das notas

nada pretensa
envergo a poesia
que sangra o sentimento
ao passo que pensa
as dores do dia
os climas e tempos

carrego o intento
que enxerga magia
no viés das coisas tortas
para adornar de encantos
emprestar a alquimia
ao ofício das notas

nada de tensa
enxergo a poesia
que traz contentamento
e ao passo que se adensa
agrega harmonia
a todos os templos

vai nos pés do vento
dançando euforia
e assopra o pó das coisas mortas
e pra reanimar os seus cantos
devolve os passos da alegria
ao vício das coisas rotas

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

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poetisa Lena Ferreira

Estrela cadente


Estrela cadente

dispersa
ela vê as pessoas
desorientadas
não sabem o valor
de viver por amor
talvez essa gente
não saiba de nada

é certeza
tão somente
incontestada
fosse eloquente
seria a primeira
mas perde a razão
então é besteira

calada
ela troca as palavras
pela língua dos sonhos
cenas perplexas
sons enfadonhos
o mundo lá fora
é outra conversa

é beleza
tão somente
deslumbrante
fosse estação
seria primavera
mas floresce ilusão
então é quimera

tão só
ela escreve o roteiro
no oriente das vidas
vislumbra as pegadas
onde vento faz pó
e encobre a estrada

é estrela
tão somente
cintilante
fosse pedra
seria diamante
mas cai na terra
então é cadente

wasil sacharuk
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Na cavalgadura da caterva



Na cavalgadura da caterva

ao esplêndido berço
donde pastam ovelhas
estende toalha de mesa
velha bandeira vermelha
agora é só pano

larga a pinga
sobre a estrela amarela
quer ter um remédio
contra o tormento

há um vácuo no crânio
dos jumentos
que provoca esquecimento
e os fazem andar sem intento
pelas vielas
repetir os enganos
pelas noites da cidade

o sol da liberdade
é quadrado
visto de uma cela
nenhum raio fúlgido
nenhum plano

e a récua deita nos campos
para ver futebol e novela

wasil sacharuk

Amor de milonga



Amor de milonga

quero amor refratário
que decanta milonga
e se banha no Prata
amor sem bravatas

quero amor sem a zanga
que não desfia rosário
verte livre do estuário
e descansa nas sangas

amor perdido nas matas
das cidades cinzentas
exala cheiro pitanga
assovia com os canários

ao fim da tarde
toma comigo o mate
que encurta lembranças

amor enroscado aos galhos
ao solar das esperanças
e rodopia na dança
quero amor que dá rumo
e não dá atalho

wasil sacharuk

Cão negro

Cão negro

Psicopompo cria o cão negro
terror das nectarinas 
do quintal
que tanto salta o fogo
quanto lambe o gelo
salivantes papilas
no garrão de las brujas
até o mundo infernal

a bestafera e o dilema
do espanto das ruas
da beleza em poema
do silêncio que ecoa
no hiato
entre o bem e o mal

Psicopompo cria o cão negro
bem guardado segredo
argumento paradoxal
nem toda morte morrida
é uma morte acidental 

wasil sacharuk