Mamilla

 

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Mamilla

Se desejas deixar
a espiral da galáxia
terás de entrar
no centro do bojo central
pelo mesmo duto
que verte leite estelar

decerto sucumbirás
no centro da supermassa
perdido no buraco negro

se desejas deixar
a via láctea
terás de beijar
até que se abra
o disco galáctico
entre as nebulosas
e a poeira estelar.

wasil sacharuk

Bestiário

Bestiário

tão rude, o leão
se fecha as asas
faminto de abstração
ruge por carne
sangue
e compaixão

o leão, sua alteza
esquece a delicadeza
que fala ao coração
se é inútil dizer sim 
se é útil dizer não
reflete a juba nas águas

caça na selva intrépida
pelas terras azuladas
locus das bestas aladas
famintas egoicas
por um tanto de vida
e alguma paixão.

wasil sacharuk



tum tum

tum tum

a vida passa tão rápida
surfa lépida
nas asas do tempo

o instantâneo
o flash
um raro momento

mas
a vida passa 
tão rápida
e passa 
ainda mais rápida
se o coração bate lento.

wasil sacharuk


umbrella

umbrella

flor que floresce
da última chuva
nasce flor que parece
flor guardachuva

quando acontece
abre o pedicelo
da frieza das trevas
ao yang amarelo

onde Apolo
o belo
inspira fogos
sopra lascivas ondas
à Afrodite passional

umbrella archangelica
sedutora das sombras
benfeitora do umbral.

wasil sacharuk


Onde dorme oceano

Onde dorme oceano

o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

lá enroscam
fios de cabelos
aos cachos
costa do mar

e não nego
quando dizes

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar.

wasil sacharuk


Cafuné

Cafuné

chegas fagueira
promessa e desvelos
vestes nudez
tu toda inteira
eu todo apelos
a foda que inspira

mas o que espanta a dor
é o timbre da tua lira
dança de dedos
nos meus cabelos.

wasil sacharuk



Predestinação

Predestinação

Enquanto existo
fundo minha essência
absoluto da história
absoluto da sorte
apenas trago memórias
somente elas persistem
à morte

enquanto existo
minhas escolhas me recriam
continuamente
consciência da liberdade
que atesta incessante
a responsabilidade
de sempre escolher

wasil sacharuk

Ato e potência

Ato e potência

sou necessariamente
tudo o que sou
genuíno
ato puro
equivalente
ao divino

eu sou
o poder vir a ser
a totalidade
sou necessário
dispenso causas
para existir

em mim encontro
a razão suficiente
que fundamenta o nada
apriorístico universo
das minhas possibilidades.

wasil sacharuk


Enquanto cantam sirenas

Enquanto cantam sirenas

fecham-se as cortinas
dos tempos insones
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

escorrido em gotas
na vidraça da janela
sou deserto iluminado
universo alquebrado
enganos do dia

rasgam-se memórias
dos versos infames
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

enterro solene
pássaros mortos
no quintal de terra
arranco a casca leve
das estranhas magias
com sentenças breves
escritas sem letras

e transporto
clichês borboletas 
sobre as asas
da minha poesia.

wasil sacharuk


Xerófila

Xerófila

resta seca
quando a vida
agoniza
sem coragem

resta seca
após a estiagem
se desaguam
pingos esquálidos

resta seca
a seiva
dos verdes
dos rios
vertentes
dos versos áridos.

wasil sacharuk


Presságios escritos nas paredes

Presságios escritos nas paredes

insights estranhos
consulta aos arcanos
eco dos tempos
som dos lamentos
vislumbres insanos
junto ao trânsito
na cidade

chamaste meu nome

serena
mataste minha fome
no canto da sala
e recitamos poesia

noutro dia
plantei orquídeas negras
no parapeito da janela
que emoldura o meu vale
e confina em canções
presságios escritos
nas paredes.

wasil sacharuk

Labirinto

Labirinto

fui algoz
dos versos cadentes
torrentes
da ansiedade
deslizes do instinto

fui assassino dos versos
sem qualquer piedade
no seu labirinto

ninguém viu
quando cortei o fio
e logo matei Ariadne.

wasil sacharuk

Imagem: Dora Maar and Man Ray- 1936, The Years Lie in Wait for You


Melacueca

 Melacueca

não há
na minha ilha
mel mais doce
que a paixão

e não há
noutra ilha
igual iguaria
tal tua boca
tal o teu beijo

ninguém é tão louca
ninguém mais desafia
a verve do meu desejo

não há
amor comparado
a um melacueca
de rosto colado
num só quadradinho
do salão.

wasil sacharuk

Não digas nada

Não digas nada

preciso
mergulhar-te os confins
desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível
as três da manhã
ainda despencam pétalas
das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
batendo as asas

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

wasil sacharuk