Canção da maré

Canção da maré

Ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofecerem
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

dançamos
a canção da maré.

wasil sacharuk

Aziago

Aziago

atro
o contrato
com a sorte
o corte
a ceifa
cabeça
coração
o ouro

atro
o agouro
o olho
soslaio
a morte
o desmaio
infausto
funesto

à sombra da lápide
pelo campo ominoso.

wasil sacharuk

Insônia

Insônia

insônia invencível
invoca imagens
indaga
infere
intriga

insônia impetuosa
ímpia imunda
intenção indecorosa
imersa
intrusa
infielmente íntima

insônia intuitiva
instante inusitado
instável ideia
incorpora
imagina
indica

insônia insistente

insiste...

wasil sacharuk

Fábrica

Fábrica

no divã
vertem lágrimas
doidivanas
e vertem nos lenços
vertem nos travesseiros
nos quadrantes da cama

a cada louco
ainda é pouco
tudo o que a mente fabrica

acho até que tem coisa
que nem freud explica.

wasil sacharuk


Cinzento

Cinzento

escrevas poesia
das manhas
e armadilhas
das artimanhas
tudo que desabona
tua imagem

escrevas poesia
sem inocência
das tuas viagens
da indecência
que ocultas
e te incrimina

escrevas poesia
da impertinência
da mente assassina
mas não a descrevas
nas cores perfeitas
da hipocrisia.

wasil sacharuk

Quando flui mansa

Quando flui mansa

Amigo
licença
percorro lugares
tal cometa
perfurando os ares
mas corrente de rio
quando flui mansa
que me embala
que me encanta

jogo sementes
num imenso quintal
de magnólias
e gerânios
nada mal
à velha águia
que cruza oceanos

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

amigo
nem a ciência
decifra a emoção
que veste o sabiá
de tanta eloquência
na corrente de rio
que flui mansa
quando ele canta
ela dança

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

wasil sacharuk

http://www.simonleechphotography.com/blog/trip-report-feldberger-seenlandschaft-east-germany/

Quando só resta caminhar

Quando só resta caminhar

iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas

escuta a ira
a falta de ar
os pedregulhos
que sempre se pisa
mas nunca se vê
quando só resta
caminhar

as coisas belas
traços formosos
luz de luar
jardim de orquídeas

toca a lira
o poeta a cantar
amor e orgulho
que a verve inspira
iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas.

wasil sacharuk

[Image: One-of-a-Kind Places on Earth]

O beijo do súdito

O beijo do súdito

suavium 
o beijo
da ágil serpente 
nos lábios
da fêmea indelicada

cerimonial sem decoro
pétalas orvalhadas
tensão projetada
sobre os joelhos

a mão que doma
subjuga
pelos cabelos
surra de aromas
mistura fluida
de desvelos.

wasil sacharuk


Quando escolheste a dor

Quando escolheste a dor

liberta-me
se a vida verter
pela última vez
nave sem rumo
levo-te com gosto

o mais bendito
rasgo na pele
meus dentes
minhas marcas
minhas garras
perfuram teus olhos

plantei na tua fronte
sementes de escuta
e de sentidos
para germinar
minha sina

agora desfalecida
vejas o que fizemos
quando escolheste a dor

ofertas a garganta
tuas vísceras
não foges
da tua desgraça

nua tu danças
sobre a cadeira
teus pulsos abertos
me pingam na boca

e logo te tenho
inerte e livre

inerte e livre

livre.

wasil sacharuk

Japanese actress Asami

Cascata cachos graúna

Cascata cachos graúna

meu amor sempre fala das horas
conduz meus dedos pelos bancos
de areias brancas
sutileza
suave textura

despenca cascata
cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovido 
murmúrios de encantos
numa língua insana 
de outro planeta

meu amor desprende 
poeira radioativa
das suas dunas
enquanto colhe maçãs inglesas 
pelo parque

mas o que eu mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando meu amor
me escreve em poesia.

wasil sacharuk

Carbonos coloridos

Carbonos coloridos

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

Cada canalhice
conduz consequência
converte castigo.

wasil sacharuk


Inspiraturas