Seara

Caprichosa cura

Caprichosa cura

carecia contar certos causos
com considerações concernentes
contos contados
com conclusões certeiras

carecia conhecer ciências
considerações coerentes
conjugar conhecimentos
com coisas convincentes

carecia cativar corações
costurar cortes
curar convalescenças
conduzir crenças
com carinhoso critério

carecia cantar
comovente canção
com cuidado
caprichosa cura

carecia companhia
câmara com cordas
colorida com clarinetas
contrabaixos
cítara
címbalos
condução competente

carecia conjugar
coisa com coisa
crença com conhecimento
ciência com coração.

wasil sacharuk




toquei flauta
colori as matas
em busca da essência
elixir da vida
além da sobrevivência

sacrifiquei as pernas
nas tristes cruzadas
noites desenganadas
bobo tarológico
trilha de piano
meloso e bucólico

percorri arcanos
pulei
dancei com as ninfas
desafio da fogueira
que lumia vaidades

fui executado
morto enforcado
mas estive sorrindo
na fatalidade

e na poesia
embalo as verdades
em versos de gritos

nela ressuscito
todos os dias.

wasil sacharuk


Impune e devagar

Impune e devagar

estanque o tempo 
agora
e a ti
esfola
áspera
a barba 

tua nuca
retruca
reclama
fome que esgana
meus dentes
tua pele

beijo a ti
estrela cadente
cai impune
cai devagar

o mesmo ar
que respiras
respiro
de outro abrigo
de outro habitat

e o que querias 
fazer comigo
eu queria contigo
no mesmo lugar.

wasil sacharuk

Emboscada da lua

Emboscada da lua

enclausuradas
minhas rimas
insistentes
desperdiçam tempo
tão iguais
às dos outros viventes

mas não sei
se realmente sei
não sei
se reviro poemas
de poetas mortos
talvez dos vanguardistas
solenes vigaristas
dos versos mais tortos

o sol desembarca 
sempre tão depressa
no mesmo porto
sempre tão previsível

e a lua é tão tímida
no entanto
arma emboscada
num canto

infalível.

wasil sacharuk

Mizifia

Mizifia

Levanta daí mizifia
é noite de poesia
então melhor fazer festa
pois tudo o que resta
continua uma porcaria.

wasil sacharuk

Noites repletas de uma só voz

Noites repletas de uma só voz

hoje eu pergunto
da insistência
de ter feito
o tempo divagar
fazer do intento
um lugar qualquer
qualquer outro lugar

hoje sinto
pesar os minutos
a sutura do rasgo
iminente de um grito
e do riso absurdo
delirante de orgasmos

eu busco
eu procuro
espero
que o escuro
não vire
teu brilho
ao avesso

hoje atravesso
mares mais calmos
a estrada mais longa
da distância abstrata
reviro noites estreladas
tão quietas
repletas
de uma só voz

eu ouço
eu quero
espero
que o sol
não queime
tuas costas
pelas frestas
da janela.

wasil sacharuk


Versos de premonição

Versos de premonição

quando um dia
lembrar desse tempo
debruçado à árvore
que guarda teu quarto
meu sangue em poesia
verterá supernovas
que te vigiarão
da janela

minhas letras singelas
flanarão memórias
de contos de sherazade
outras belas estórias
que contaste nos campos
ou deitada na canoa
sob o voo das garças
as brancas e as pardas
e os martin-pescadores

as marcas deixadas
pelo açoite das dores
juntarão oceanos
farão arder fogueiras
nas pupilas distantes
descansarão no arcano
do teu olhar diamante

contemplarei tua dança
aos demônios de um rito
respostas aos sonhos
em vermelho escritos
na forma de versos
infinitos
de premonição

quando um dia
esse tempo falar
no poema e na canção
acerca de flores
e o cão no quintal
derramarei as sementes
que brotarão a ti
e às coisas que te pertencem

quando um dia
esse tempo calar
quedará uma era sem nome
perpetuada tal signo
tatuado em setembros
descansará solene
sob um solo de orquídeas.

wasil sacharuk


Catando restos de mim

Catando restos de mim

quero a liberdade
para deixar de acreditar
e que o voo do pensamento
reconstrua minha unidade

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

quero a liberdade
andar nas ruas da cidade
sorrir ao carteiro
abrir minha porta
e não morrer
de morte idiota

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar.

wasil sacharuk



Imago

Imago

Belbellita lepidoptera 
asas delicadas
riscadas
coloridas
no caderno

voa leve
pela vida
voo eterno

belbellita crisálida
fases pálidas
da lagarta aos lilases
e turquesas celestes

voa breve
pela vida
voo eterno.

wasil sacharuk


PHOTOGRAPH BY CARY WOLINSKY


Parindo futuros

Parindo futuros

Ando rasgando certezas
dissimulando conceitos
refazendo o tear

Ando apagando belezas
percorrendo os intentos
anunciando degredos

Ando bipartindo medos
parindo sonhos como fazem as nuvens
quando venta
reduzindo abstratas formas
a novas descobertas

Ando abrindo vielas
mordendo desilusões e as digerindo
engolindo frações das coisas complexas
com sentimentos mais puros

Ando alucinadamente
parindo futuros.

Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


Calendário

Calendário

Certo dia
ontem, talvez
um traço de poesia
solapou a cadência
num grito consciente

mostrou transparência
num tom eloquente
falou sobre tudo
acerca das gentes
dos seus absurdos
das tantas doenças
do fim desse mundo

certo dia
hoje, talvez
inconcebível poesia
debocha das ciências
num riso inconsequente

mostra petulância
num tom implicante
zomba sobre tudo
se faz repugnante
desfruta os abusos
 da inocência das crenças
e faz planos imundos

certo dia
talvez amanhã
um buquet de poesia
abrirá pétalas tenras

no dia incandescente
mostrará abundância
de cores vibrantes
verterá sobre tudo
se fará radiante
derrubará muros
romperá desavenças
e tomará o seu curso.

wasil sacharuk


Chuva de meteoros

Chuva de meteoros

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

eu escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

ooohhhh
oh-oh-oh

ooohhhh
oh-oh-oh

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

eu escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

wasil sacharuk

http://coolinterestingstuff.com/meteors-across-the-uk

Das biocoisas - palavrinvent®da

Das biocoisas - palavrinvent®da

tudo ilumina
no brilho
cintilante nas faces
das fatais biocoisas

me caem dos bolsos
os butiás

pela baroteia
agregado de estrume
ando solto
pela cidade
retroalimento biogás
sem massa ou volume
ou densidade
calculada
nas tabelas

vejo a vida tão bela
sem certeza de nada.

wasil sacharuk

Meu castigo

Meu castigo

Lancei um pedido
nas águas do mar
estive perdido
para me encontrar

tanto fui louco
a dialogar tuas mãos
por espaços
de coisas
fora do lugar

vivo escondido
na esteira do tempo
para nao sentir
tua falta
nunca mais

vivo escondido
detras da tua porta
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

eu vivo escondido
por espaços
de coisas
fora do lugar

lancei um pedido
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia.

wasil sacharuk

elisabetta buonanno - il mare d'inverno

Bilhete na garrafa

Bilhete na garrafa

pelas águas
átomos mensageiros
tempos alvissareiros
as saudades sem máculas
perpassam oceanos

os mares
irrompem meridianos
continentes avessos
conduzem os versos
de amores insanos
em seus cursos intensos.

wasil sacharuk

Da esquizofrenia das noites

Da esquizofrenia das noites

se dormires comigo
aqui bem ao meu lado
ao açoite do frio
farás de mim o abrigo
que protege e abraça

formaremos couraça
contra os teus medos
e contra os meus 
sessenta e seis tipos
de nós cabalísticos

adormecerás contando 
fagulhas coloridas 
suavemente desprendidas 
dos braços do remanso
e dos sonhos de poesia

eu estarei murmurando
a esquizofrenia
que  toma minhas noites.

wasil sacharuk


Príncipe

Príncipe

Evita saber o mistério 
desse fogo que arde
no meu império
não desafia meus exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

minhas cabeças 
de três naturezas
indivisíveis
são rendições à beleza
conduzem-te rasteira
ao inferno das posses

minhas pernas fortes
montam as carapaças 
dos mais venenosos
escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória 
da morte aos inimigos

rasgo-te os pulsos
vertentes de sangue
a mim consagrado
com felinas garras

lagarto de fogo
desliza em teu corpo
te devora sem amarras
enquanto obedeces
ao meu desejo.

wasil sacharuk

A névoa e a nudez

A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e  cobrir minha nudez

Tarde demais... 
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk

poetisa Angela Mattos


Engano

Engano

inocente eu pensava
que o poeta via coisas
do mundo das fadas
e dos quintos infernais
coisas que reles mortais 
não poderiam ver

imaginava que descrevia
sentimentos do seu objeto
traduzido em versos
de poesia

que capturava
tons e cores
amores e imagens
descrevia sabores
de sentimentos vivos

e eu que pensava
que os olhos fechavam
para ver as paisagens
e  abriam
para saber os motivos.

wasil sacharuk