Primaveras na boca

Primaveras na boca

Tanto melhor que sintas
de uma só vez
alguns dos meus
sessenta e sete tipos
de medos

se de algum modo te posso
também te devoro
e isso talvez
te machuque um pouco

não pensarás que sou louco
sequer tu verás que sou bruto
farei com que gostes
farei com que gozes
do meu amor absurdo

não pensarei que és puta
sequer verei que és louca
farás que eu te cante
farás que eu te plante
primaveras na boca.

wasil sacharuk




A pele que veste tua alma

A pele que veste tua alma

te provoco
te perdes insana
onça selvagem
carente e faminta

verto tintas
nos teus círculos
cubos, retângulos
te entorpeço
com essências de sândalo
patchouli e cravo
perfumada em gotas
de absinto

te perdes
desbravando passagens
no meu labirinto
sem fio de ariadne
e nenhuma guarida

perdida
desnorteada
desorientada
e atrevida
tu me pedes um beijo
e me perco contigo

dançam minhas mãos
nas tuas salas
teus caminhos
teus abrigos
precipícios
abissais

deixo marcas
digitais 
minha palma
na pele 
que veste tua alma
o meu vício.

wasil sacharuk


Dos ciclos da ressurgência

Dos ciclos da ressurgência

Depois da erupção
resta agora fumaça
há pedras quentes
no chão
onde passas

as coleciono
para um dia
caso falte poesia
eu possa quebrar 
teu espelho
rachar 
teu raro sorriso
espatifar
teus olhos fundidos
às chamas do inferno

e espero 
pela próxima ressurgência
para rever minha essência
redescobrir meu mistério.

wasil sacharuk

Hudson Pontes - O Globo

Alemoa

Alemoa

Alemoa, molha tua face
imprime um sorriso á toa
na luminosidade
que emana das águas
da tua bacia

ao pé do teu ouvido
sussurros de melodias
imersas em anseios
e brutas vontades

para que minha poesia
percorra teus seios
e provoque umidades.

wasil sacharuk

O soneto jaz na biblioteca

O soneto jaz na biblioteca

O olho esquerdo
castanho escuro 
pupila escondida 
na pálpebra 
oscila e molha

gota a gota
do canto 
deslizam densas
e lentas

o olho esquerdo
castanho escuro
pisca uma, duas
três vezes... 
mais nenhuma

o outro
observador direito
paralisa alguns segundos
logo fecha-se 
tal seu gêmeo

gota a gota
do canto 
deslizam cadentes
sobre o caderno 
encharcam o bloco 
pingos coesos
de catorze versos 
simétricas estrofes 

A cadeira inclina 
a caneta quica
no canto escuro
do chão.

wasil sacharuk

Néctar dos pés alados

Néctar dos pés alados

Pressinto que é agridoce
o aquoso sabor das palavras
das tuas glândulas
vertidas

provei teus açúcares
ao prato das etimologias
me ensinou a poesia
que nunca é doce
a catarse

tuas anteras
são armadilhas infames
ao pássaro desavisado
que de janela em janela
esparrama teu pólen
por outros cercados.

wasil sacharuk

http://rubens-plantasdobrasil.blogspot.com.br

Amor-abandono

Amor-abandono

Mulher, me tenhas
no teu berço de essência
abandonado em teus seios
donde ausculto segredos

sintas o rasgo da dor
a pintura sem cor
o adorno dos medos
que me perseguem
e sempre renegues
minhas ciências
desprovidas de ser
meras penitências
razões para crer

mulher, tenhas certeza
compreendas os anseios
e as minhas carências
boba esperança
de poder sempre  ter
teu amor esquisito
diluído em desvelos

e, aos teus cabelos
tentarei novas tranças
delicadeza das tramas
fragmentos de um rito
imbuído de amor.

wasil sacharuk


Passava e pensava

Passava e pensava

Eu passava roupa
e pensava a ferro
ele assistia
sexo e futebol
e me chamava de louca

eu só queria amor
miséria pouca
é bobagem
eu passava
e pensava
em arrumar a bagagem

eu passava
diante dos olhos
ele não me via
e eu pensava
em morrer todo dia

eu pensava
ele não passava
e sempre dizia:
poetisa pretensa
só pensa em poesia.

Wasil Sacharuk


Em gotas

Em gotas

Poisados na nuvem
a carícia e o gosto
pingam sorrisos

 catarei 
gotas de chuva
para verter em teus olhos.

wasil sacharuk

Coisa que já não dói

Coisa que já não dói

Aprendi a ler solidão, bebê
pois a mim
é coisa que já não dói

quando menino era só
com meus pequenos objetos
que viraram pó
e deram vida aos dejetos
da vida simplória
que não nos deixa optar

mas, meu bebê
um preço se pode pagar
como nas longas estórias
de príncipes mocorongos
e mocinhas habilidosas

enquanto isso, borrifa
as dálias rosadas
da minha velha colcha
com vinho tinto seco

e logo cedo
livra-te das roupas
te retrates à solidão.

wasil sacharuk


Até o amor verter sobre mim

Até o amor verter sobre mim

te escuto respirar
na noite adormecida
se entro pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros contigo
na nova manhã

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

eu te escuto respirar
se entro à noite pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

e acordar pássaros contigo
na nova manhã.

wasil sacharuk


Faças hoje, Lilly

Faças hoje, Lilly

Fales agora, Lilly
depois fales de novo
tudo o que podes ser
e tudo o que queres

Se ficas ou vais
estejas ou não
sempre é nunca mais
assumas o controle
novamente, bebê

busca um oriente
alguma verdade
e não adormeças
na cama de plumas
todos dias renasças
das tuas ruínas

faças hoje, Lilly
que hoje tu gostas
depois, nunca mais.

wasil sacharuk

Calos

Calos

imites a sina, poeta
contes histórias
dessas nossas saudades
as infâncias felizes
e virtudes mágicas

daquelas mulheres
lavadeiras tão trágicas
que cantavam nas cacimbas
com calos nas linhas das mãos
outros tantos nas linhas da vida.

wasil sacharuk


Lavadeiras – J.Eliseu (filho)

Para ninar tristeza

Para ninar tristeza

quando acorda lua cheia 
nos teus contornos
faço pétalas suaves
despencadas nos versos
se as águas mareiam
tua rosa de espinhos

espalmo areia
que remonta as dunas
para beijar-te os mamilos

tu, noturna sereia
encantas e danças
a canção da tristeza
doce ciranda
ninada ao colo.

wasil sacharuk

O pé de Camila

O pé de Camila

recria a mim
Camila
inventa minha ilha
ao entorno dos versos

recria
da pedra mais fria
do nosso universo
repara as rugas
com gesso

tu vê?

um dia
desvendo roteiros de poesias
que retratam
meu olhar introspecto
faminto de sanidade
ou qualquer outra fé

e teu pé
traz meu nome tatuado
sumariamente marcado
pelo fel dos meus avessos.

wasil sacharuk

O Pé de Rodin - By Camille Claudel, Musée Rodin, Paris, France

Orquídeas que adornam meu túmulo

Orquídeas que adornam meu túmulo

o verso faca afiada 
sem piedade sem dó
corta lanha entorta
revira o avesso
reduz ao pó
o sangue que verte de mim

verso ruína sem fim
coliseu das cinzas
desvelado jardineiro
das reminiscências híbridas
e negras orquídeas
estranhamente belas.

wasil sacharuk

Tesoura

Tesoura

Não faças fita
do elástico
que aperta minha cueca
canção de pagode
dilacerado
grito rasgado
onde o saco
se agarra à cintura

não faças fita
dos meus carpins
e outras meias
de elastano e cetim
que escondem frieiras
e outras nojeiras

não faças fita
da minha camiseta
a mesma que usaste
para secar a boceta
e num relance limpaste
a boca suja de leite

não faças fita
da fatiota de defunto
preciso usá-la muito
numa orgia celeste

não faças fita
das minhas vestes
senão fico pelado
todos verão deslumbrados
a real dimensão
do que queres cortar.

wasil sacharuk


Meus demônios


Meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor.

wasil sacharuk

imagem: Ellen Rogers