Juramento à Hipócrates

Juramento à Hipócrates

Puta merda. Quinze para as três e nada. Essas caras. Cada qual com seu drama. Aquela lá fala alto. Aos gritos. Precisa muito que a ouçam. Infeliz. 

Revista Caras é ridícula. Grátis, uma colher de sobremesa top. Que lixo! Imagino que a secretária levou a colher para casa. Deixou essa droga de revista aqui. 

Doze para as três. Parece que não há ninguém naquela sala. Não ouço nada além dessa bruxa que não cala a boca. E aquela tela na parede. Eu teria pintado coisa melhor. Não serve sequer para a minha cozinha. Natureza morta... quadro de restaurante barato. Se bem que aqui parece mais um frigorífico de carnes. Cada um de nós espera gentilmente para ser abatido. E ainda pagamos por isso. Trezentos reais. 

Não cabe mais uma bunda sequer naquele sofá. As bundas gordas ocupam todo o espaço. O que querem aqui? Parecem muito saudáveis. Se chegar mais alguém vai ficar esperando em pé. Aquele vivente não para de olhar o relógio. E são sete para as três. A porta não abre e ninguém chama.

A secretária também olha o relógio e diz que não vai demorar. Sempre o mesmo: não vai demorar, mas o senhor é o oitavo na ordem de chegada. E o nono e o décimo... Raios. Por que agendam a consulta para catorze e trinta e só atendem depois das três? Agora são quatro para as três. Aqui não tem wifi. Nem para navegar no facebook. Apenas revistas caras. Fofoca de gente imbecil e de atriz cretina de biquíni.

Três horas. Que saco. Não suporto mais esperar. Opa! A porta está abrindo. A secretária entrou e vai chamar. O que ela tanto conversa lá dentro. É agora. Ela saiu. Vai chamar.

É a minha vez? Não? Mas a minha consulta era para as duas e meia! Cancelar? Como assim? Já estou esperando há quarenta minutos. 

O médico não passa bem? Sério? Por isso vai cancelar? Enfartando? Deixa eu vê-lo agora, afinal, o juramento que eu fiz, eu cumpro. E depois mando a conta.