os sais do teu banho

os sais do teu banho

subtraio 
teus pensamentos
até rasgo tuas roupas
te arranco promessas
desde as mais singelas
até as mais loucas
impregno os sais 
do teu banho 
com partículas ocultas
de mim

subtraio
os teus vícios
teus fins
teus inícios
tuas drogas e culpas
invado os domínios
subjugo o arbítrio
os recônditos
donde escondes segredos
buracos sinistros
cobertos de medo

subtraio
teu baú de artifícios
obscuros diamantes
lapidados em tua mente
o teu hades latente
de fogo e de lama

subtraio
a cruel liberdade
que te prende na cama

de novo

tudo o que subtraio
depois, eu devolvo.

wasil sacharuk

Malva papoila

Malva papoila

circunda leve
minha tromba língua
ao botão
da flor delicada

pétalas afastadas
e nos grãos
falsos dentes e dedos
livres desvelos
ao entorno

malva papoila
bailarina
tão louca

e eu borboleta 
guardo na boca
seu néctar.

wasil sacharuk




Leve e sem pressa


Leve e sem pressa

trago apelos  
liberdade e solidão
recolho poemas
para um livro
alívio transcrito
paredes riscadas
por outra emoção

olhares perdidos
navegantes de mares
urgentes
irrestritos
pela vertente
das letras

na nascente
colho asas
de borboletas
e voo distante
leve e sem pressa.

wasil sacharuk


Gotas salgadas

Gotas salgadas

danço
os poros da pele
tão leve
o encanto
entorta grades
da prisão

danço a milonga
ritual com veneno
de escorpião
e despenco exausto
na leveza do chão

danço ao corpo
monumento
a espargir
texturas e cores
harmonias aromas
e odores

danço na noite
que verte
essência e verve
em gotas salgadas.

wasil sacharuk

Relógio do Tempo e Máquina do Pensar

Relógio do Tempo e Máquina do Pensar

Sou do tempo
que espera
o insight
o deva ju
setas no caminho

não leio olhos
sei ler ouvidos
que se emprenham
de musicalidade

atemporal é nenhum
atemporal é o pensar
atemporal é a espera
o horizonte

Relógio do Tempo
Máquina do Pensar
que tenham a mim
que tenham as coisas
pois coisa eu sou

vento e onda do mar
pólen que germina
o farol e a guia
a água fria
unguento e bálsamo.

wasil sacharuk

Juramento à Hipócrates

Juramento à Hipócrates

Puta merda. Quinze para as três e nada. Essas caras. Cada qual com seu drama. Aquela lá fala alto. Aos gritos. Precisa muito que a ouçam. Infeliz. 

Revista Caras é ridícula. Grátis, uma colher de sobremesa top. Que lixo! Imagino que a secretária levou a colher para casa. Deixou essa droga de revista aqui. 

Doze para as três. Parece que não há ninguém naquela sala. Não ouço nada além dessa bruxa que não cala a boca. E aquela tela na parede. Eu teria pintado coisa melhor. Não serve sequer para a minha cozinha. Natureza morta... quadro de restaurante barato. Se bem que aqui parece mais um frigorífico de carnes. Cada um de nós espera gentilmente para ser abatido. E ainda pagamos por isso. Trezentos reais. 

Não cabe mais uma bunda sequer naquele sofá. As bundas gordas ocupam todo o espaço. O que querem aqui? Parecem muito saudáveis. Se chegar mais alguém vai ficar esperando em pé. Aquele vivente não para de olhar o relógio. E são sete para as três. A porta não abre e ninguém chama.

A secretária também olha o relógio e diz que não vai demorar. Sempre o mesmo: não vai demorar, mas o senhor é o oitavo na ordem de chegada. E o nono e o décimo... Raios. Por que agendam a consulta para catorze e trinta e só atendem depois das três? Agora são quatro para as três. Aqui não tem wifi. Nem para navegar no facebook. Apenas revistas caras. Fofoca de gente imbecil e de atriz cretina de biquíni.

Três horas. Que saco. Não suporto mais esperar. Opa! A porta está abrindo. A secretária entrou e vai chamar. O que ela tanto conversa lá dentro. É agora. Ela saiu. Vai chamar.

É a minha vez? Não? Mas a minha consulta era para as duas e meia! Cancelar? Como assim? Já estou esperando há quarenta minutos. 

O médico não passa bem? Sério? Por isso vai cancelar? Enfartando? Deixa eu vê-lo agora, afinal, o juramento que eu fiz, eu cumpro. E depois mando a conta.


A toalha


A toalha

joguei a toalha
num toque singelo
movimento discreto
desprendido e belo

derrubei a malha
detalhes amarelos
despencou sem lamentos
sem compostura
e sem argumento

que valha
o intento
e a loucura
de andar pelado
com o pau pendurado
sem armadura.

wasil sacharuk

Meus olhos

Meus olhos

meus olhos 
têm a cor 
das folhas secas
veem verde teu viço

sem artifícios
sem princípios
sem delicadeza

meus olhos
são híbridos
urdidura
e aspereza

meus olhos
são tormentas
castanhas escuras
tantos cinzentas.

wasil sacharuk


Lira imperativa

Lira imperativa

que venhas poeta
deites na frieza das dunas
juntes areia ao teu delírio
faz da brisa do mar
das reentrâncias
a musa que inspira
tua fêmea indelicada

bebas nos córregos
aguaceiros e néctar
sigas caminhos clandestinos
ocultos nos poros da pele

vires ouro dos potes
objeto de encantamento
tal louco varrido
desprevenido e desarmado

percorras o curso do verso
na ponta da língua
até que te encontres perdido
no labirinto da embriaguez

fodas as filosofias
chupa-as e craves
teus dentes furtivos
enquanto escutas a lira
que ressoa em tua boca.

wasil sacharuk

Úmida

Úmida

a língua pronuncia
palavras torpes
bastardas

as pétalas afastadas
e contrais
espichas
aninhas
contorces

úmida
não esqueces a poesia
escrita nas saliências
tatuada nas curvas
declamada nos cantos
criada na cabeça que apertas 
entre as pernas

alivia tua dor
com lambidas certeiras
e memórias eternas.

wasil sacharuk

Broto e semente

Broto e semente

qualquer arte é lógica
antes mesmo da abstração
sistematização é possível
tudo acomoda à razão
infalível

arte é o broto
a semente
essência das coisas
 é outra natureza
experiência primordial
que fecunda as noções

tal barco de expressões
navegando mar de incertezas.

wasil sacharuk

Anêmona-do-mar

Anêmona-do-mar

Seria apenas
outro tipo de flor
mas é bicho do mar

no dorso estende
sedutores tentáculos
de pétalas coloridas

seria apenas cor
que consome a vida
de animais minúsculos
peixes e moluscos

estanque desliza suave
na pele das rochas
risca a dor
na superfície calcária

poderia ser amor
abraçado aos sedimentos
mas seu pigmento
provoca urticária.

wasil sacharuk


Versos míopes

Versos míopes

Rabisco o contorno 
que insinua teus lábios
sorrisinho rasgado
num canto da boca

sigo os teus passos
perambulo à toa
para ver-te andar
ontentando belezas
abstratas

teus cabelos confusos
despencam cascatas
ou deitam assanhados
vinheta que enrosca
aos seios fartos

escrevo-te travessa
meus versos míopes
negam cicatrizes 
que o tempo
poderia tatuar
num calendário
sobre tuas coxas

faço-te nas fantasias
mais loucas
vestida de poesia
desprovida de roupas.

wasil sacharuk



Abelhinha

Abelhinha

Abelhinha ameaçada
foi já amarrando a cara
logo depois soltou a picada
deixou cair o pote de mel

A Abelhinha 
foi muito cruel
batendo as asinhas 
em outro abrigo
gastou o ferrão 
em um falso inimigo
apenas porque 
ele é tanto feio

Abelhinha é tão bonitinha
mas seu ferrão é derradeiro

Abelhinha foi preconceituosa
enganou-se com seu julgamento
agora não voa pelo infinito
sequer pousa sobre o firmamento

Depois que Abelhinha
chorou seus lamentos
até prometeu
não ser tanto atrevida
não sei se está
mesmo arrependida
ou só simulando 
o arrependimento.

wasil sacharuk

A cobiça

A cobiça

Já faz muito desde o sucedido
Alguns não recordam mais nada
E outros duvidam do acontecido...

A meia-noite quebrou a calada
No grito da primeira badalada
Lançada a sorte na noite de breu
Eu estava lá quando tudo se deu:

No meio da mata, não sei bem ao certo
Um rito secreto e uma estranha canção
O calor da fogueira ardia bem perto

Construíram lá um grande portal
Fundamentado em colunas de ouro
Nele incrustado o amor ao metal
Toda paixão p'ra compor o tesouro

A cobiça foi mãe da ira e da morte
Da intolerância e do devir malogrado
Os nativos insanos perderam o norte

Ouviu-se som grave qual um trovão
Que fez todo o povoado desperto
Apenas uns poucos sabiam a razão
Da queda de todos no limbo deserto

De nada adiantaram os meus mantras
Sequer os apelos ao deus que esqueci
Caídas por terra as crenças santas

Todos arremessados no mundo abissal
Por uma espiral no centro do estouro
Caídos no fogo mais quente infernal
Reinado de um anjo coberto de louro.

Wasil Sacharuk

Ilusões guloseimas



Ilusões guloseimas

faço amor como lenda
história pitoresca
versos tatuados
em constelações violetas

faço amor tal gangorra
de pontas alternadas
supérfluas palavras
entre Páris e Helena

faço amor na amizade
do tipo obscena
que tira pedaços
ilusões guloseimas

faço amor num som blue
mergulhado num pixel 
de fotografia
faço amor no espaço
quando escrevo poesia.

wasil sacharuk

Sacrifício

Sacrifício

aquieta
teu coração aflito
deixa algo bonito
nada complexo
a notícia
uma publicação
em versos
sem subterfúgios
ou adornos

deixa tudo aos amigos

exponha o verbo
aos transtornos
ao perigo
ao inferno
conjuga-o nu
para que capture
a veia pulsante
que flui ao termo
no instante
de cada suspiro

tenha a poesia
a brindar-te
o sacrifício
que te cabe.

wasil sacharuk

Pela janela aberta

Pela janela aberta

Vi da janela aberta
os nós do cotidiano
as coisas que andam mortas
tal fossem passos humanos
 e vi pelas grades tortas
semblantes indiferentes
cabeças girando tontas
as dores de toda gente

Havia razões incertas
e os mais tolos enganos
pessoas andando lentas
ratos saindo dos canos
crianças correndo soltas
em busca dos pais ausentes
os cães mijando em volta
as dores de toda gente

E vi que a carência é farta
os pensamentos insanos
o amor que mata e que corta
saúde restrita a planos
casas de vida barata
prometem carícias quentes
conversas vazias chatas
as dores de toda gente

a vida parece ingrata
mas pode ser diferente
são sempre tão inexatas
as dores de toda gente.

wasil sacharuk

Medusas

Medusas

Tenho medo
de dormir cedo
e não sonhar acordado

os meus olhos parados 
miram medusas
quando já sou a pedra
que fecha a clausura

medo 
quando durmo na rua
tomo ônibus errado
vou parar do outro lado 

medos tantos
medos tamanhos
de matar raros versos
em poemas calados.

wasil sacharuk

Medusa (Caravaggio)

Rapinagem

Rapinagem

Sou ave de poesia
carnívoro de rapina
asas distantes sombrias
em perdição e loucura

do voo à envergadura
o que eu seria
sem elas?

habito o topo 
de qualquer lugar
e tu, protegida
poderás ser a presa
na cadeia alimentar

tenhas certeza
da minha acuidade
e destreza
perfuro-te o olhar
de surpresa 
na minha queda.

wasil sacharuk

Da envergadura ao voo

Da envergadura ao voo

o que te prende o olhar
e te obriga a dizer nada?

acaso te suspendeste
nas linhas inimigas
que conduzem palavras?

o que sabes das garras
que perfuram a fronte?

arrancarei-te as asas
para que tu me contes

faças o que faças
espinhes com farpas
depois te abandones

em divagações inexatas
razões insensatas
e logo assines
teu nome.

wasil sacharuk


 - Caravaggio - Judite e Holofernes
1598-1599

Quiromancia

Quiromancia

As marcas da minha mão
não te dizem quem sou
mas posso ler tua sina
sem que percebas

tu viras brisa espessa
e sopras confidências
quentes ao meu ouvido
e teus dedos finos
bolinam meu brinco

precisas saber
estudar com afinco
meus versos de poesia
e soletrar minhas linhas
com tua quiromancia

precisas entender
a minha caligrafia
e resenhar meu destino.

wasil sacharuk


Garça

Garça

sei que poisas para mim
teus castelos jardins
em virtudes tão plácidas
diluídas nas curvas
e plasmadas nas sombras
com luzes cálidas

sei que riscas serpentes
sob o céu de penumbra
da minha mente esquálida
que perdida em escusas
e fogueiras folclóricas
verte verve das musas
com tanto de vodka

sei que bailas graciosa
nos teus voos de ousadia
com incertas passadas
e tuas asas largas

pois sei ver poesia
numa garça 
estabanada.

wasil sacharuk


Witch by Hjorvind

Gris

Gris

pedi que a lua
mandasse soprar vento livre
carinhos amáveis
toques doces suaves
e grisalhos

pedi ao sol
o orvalho
amor liquefeito
em gotas
dias perfeitos
novas rotas

pedi ao sol o abraço
relegado ao espaço
sem gravidade
ou outras forças

pedi à lua
um flerte comigo
portador de coisas
previsíveis
aos meus ouvidos
insensíveis
que só escutam
aquilo que querem

pedi ao sol
mil amperes
ao cozimento do mundo
meu vazio
pedi à lua um pavio
de chamas
lacrimenjantes.

wasil sacharuk