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Sombras gasosas

Sombras gasosas

Meus versos de emboscadas
respiram nas nebulosas
bebem o leite das vias
viajam no espaço poesia

meus versos sem rosas
movem coisas paradas
param coisas movidas
misturados às prosas

meus versos acendem dias
nas imbatíveis porfias
são fugitivos das trovas
trevas da noite calada

meus versos são derrocada
cascata de rimas leprosas
galáxia de estrelas vadias
das dores da afta e azia

meus versos de veias nervosas
assaltam à mão armada
poeiras que não dizem nada
sinapses de sombras gasosas.

wasil sacharuk


Breu

Breu

Noite sem lua
paira assim
...desnecessária

Carece de adrenalina
uma emoção à toa

noites sem lua
são todas iguais
não têm fim

o gato preto
contra o fundo escuro
esvanece
sobre o telhado do galpão
um vulto
na falta de luz

no céu
duas ou três estrelas opacas
derradeiro brilho
de um apelo iluminado

sei que há vida oculta
segredada na noite escura

e um grito na rua
reverbera trôpego
entre as paredes das casas
vira esquinas
atravessa ruas
que grita gosto de medo
e cheiro de orvalho

Na noite sem lua
o gato do telhado
observa atento
os cães famintos
loucos na madrugada
que brigam ferozes
por um pedaço de vida.

wasil sacharuk


Santificada

Santificada

Preservo-te a paz
a zelar que o sal 
tuas águas não turve
e o inferno do céu 
nao pese tua cabeça

sei de ti no papel
plasmada de poesia

santificada
que não esmoreças
de viver fantasias
renovar as promessas
que nunca fizeste

não preciso aprender-te
eu sei ler-te às avessas
e posso sempre achar-te
onde perco palavras.

wasil sacharuk

Encontro casual

Encontro casual

meia pé pé sapato
calçada pedra buraco

pé pé pé pé
rua
ótica óculos
espelho
cartão máquina
senha nota

rua 
calçada pedra buraco

pé pé pé pé
mulher
olhos boca nariz

blusa peitos
saia quadris
coxas

olhos
mão ombros
mão mão
olhos olhos
boca boca

casa
sapato sapato
calça camisa
cueca
blusa
saia calcinha
boca boca
mão 
mão

boca língua
pau
bunda.

wasil sacharuk


Pulsante

Pulsante

Rasgo-te estradas
cruzo-te entranhas
a saltar-te horizontes
teu semblante
simula artimanhas
e razões depravadas

falo-te mais nada
penso ouvir-te cantante
canções que cantaste
calada
que muda calaste
sonante

permaneces pelada
eu continuo ofegante

e entremeio-te os flancos
enroscado nos brancos
lençóis contrastados
com tons elegantes

satanizo-te os santos
teus pecados e encantos
articulo-te nas veias
ao entrar-te pulsante.

wasil sacharuk

nanda grass

O corredor

O corredor

nesse momento, minha primeira sensação é o frio na barriga. E, logo, sentirei um calor insano nas bochechas. O oxigênio escasso irá produzir uma secura que me tomará os pulmões, enquanto minha visão se tornará turva. Assim sempre acontece. Minha rotina emocional bem organizada e previsível faz minhas mãos suadas tremerem. E hoje faz calor. Sei o que se aproxima. Eu posso ouvir os passos de botinas confundindo os meus batimentos cardíacos. 
Um padre e sua bíblia. E poucos dentre nós são cristãos, senhor.
Maldonado deu apenas um grito seco, como disse que o faria. Espero que o tenhas amparado. Foi rápido. 
Que seja assim também quando chegar a minha vez. Amém.

Alface

Alface

Nado nado
sei nada não
não estou aqui
você não está me vendo

continuo nadando
vi nada não
não era eu
era alguém parecido
comigo

sou a viva alma
mais honesta
d'alface
da terra.

wasil sacharuk

Chave de poesia


Chave de poesia

O baú envelhecido 
madeira dura 
metais oxidados

hermético
fechado
e do orifício 
da pequena fechadura
a imagem do esperado

um giro firme na chave 
e o voo da liberdade

chave de poesia
tão verdade
e perto
que se pode tocá-la

mas ninguém a tem.

wasil sacharuk

Alguém de verdade

Alguém de verdade

Da fatalidade
o atilado castigo
revés na minha história
rasgo na memória
da morte tu és
o víés

vens de arcanos antigos
desafio das idades
na roda dos signos
temerário convés
donde aporta a vontade

chegas num riso blasé
sem segredos
com liberdades

nas insanidades
e medos
és cúmplice e refém
és alguém
de verdade.

wasil sacharuk



O Louco



O Louco

Andarilho, bobo da corte
verso fútil o teu caminho
pedinte da própria sorte
de um parco naco de pão
e um cálice de vinho

arcano da branca rosa
da liberdade e da prosa
da trouxa de conhecimentos
ainda não conquistados
sob o firmamento

Andarilho, bobo da corte
dos cães vadios enroscados
à barra das tuas calças

engoles borboletas
que anunciam tua morte
sobrevoam a miséria
da tua vida obsoleta
sobre campos adubados
pelos restos da matéria.

wasil sacharuk