O pueril balanço das roupas




O pueril balanço das roupas

A disposição era torta
contemporânea instalação
expostas em qualquer bienal
numa concepção universal

pendiam sarrafos do chão
tal atlas das roupas rotas
uma jazida de células mortas
oculta nos poros de um blusão

das brisas que sopram varal
ventam roupas em cor desigual
pingos pingados na imensidão
numa organização tão incerta

pediam por uma área aberta
para poder arejar o colchão
e secar os fluidos ao sol
esfregados com branco total

com gancho, grampo e cordão
penduravam um mar de gotas
de limpas, cheirosas e fofas
tramas téxteis de ilusão

wasil sacharuk



O poiso dos meus colibrios


O poiso dos meus colibrios

Beijar tuas flores sem bris
foi isso que sempre eu quis
assim fiz fraquejar calafrios
e poisar sobre ti os colibrios

Beber do teu néctar no céu
com margaridas e flordemel
vermelhas, rosadas, cordelis
desamores incolores e anis

Na secura de um galho senil
espinhei meu poema sombrio
a esperar os teus versos gentis

De seiva e de tronco e de fel
e de pólen espargido em papel
me fizeste deixar de ser gris

wasil sacharuk

Nestes prados longínquos


Nestes prados longínquos

Nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

wasil sacharuk

Fruto podre

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

Velho, filho do mal, Fruto estragado
Duma árvore maldita, tu também
Serás severamente torturado
Pelos demônios ríspidos do além.

Sentirás que num golpe do destino
Comichar a bicheira no intestino
A comer o teu bucho esfarrapado

Saberás que na volta dos ponteiros
O teu couro, tua honra e teu dinheiro
Servirão p'ra cobrir os teus cagados.

David Moura & Wasil Sacharuk


Imagem: Nebuchadnezzar (Nabucodonosor), óleo sobre tela, 1795, por William Blake

Esqueletos

Tela: ‘Bailarina em uma Caveira’, Salvador Dalí


Esqueletos

Naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

Marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

Separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

wasil sacharuk

Inópia

Inópia

Dai à fome do chão
gratidão em sementes
à terra que sente
o soluto fervente
dos sais

Dai aos viventes
enganos minerais
em níquel
e falsos brilhantes
a armação
que ilumina
ao poente

Dai aos ausentes
memórias fatais
versos de sofreguidão
gotas de solidão
em lágrimas quentes

Dai à vida
solução diferente.

wasil sacharuk

Valquíria morde a língua

Valquíria morde a língua

Ela é de áries ascendente gêmeos
e não cala a boca
Valquíria, a louca

Configuração danada
faz vibrar azul brilhante
naquele centro energético
que não deixa a pessoa calar
viciada nas trelas
e nos blablablás

E ontem ela disse:
"eu sei bem quem tu és
e o que ocorre na tua cabeça perturbada"
bem, ela não sabe o que diz
mesmo assim não cala a boca

Hoje como em todos os hojes
Valquíra trança a língua
e depois a morde
sina ingrata de quem
não tem boca fechada

Ontem como em todos os ontens
Valquíria não calou a boca
blablablá blablablá blablablá

Noutro dia falou tanto
que somente ela mesmo escutou

Amanhã Valquíria morderá a língua
sempre que chega amanhã
Valquíria trança e depois morde

E amanhã como em todos os amanhãs
Valquíria não calará a boca
e morderá novamente a maldita língua

Valquíria não sabe quem sou
e nem aquilo que penso
quanta pretensão!

Acaso Valquíria calasse
teria tempo de saber
o que ocorre em minha cabeça perturbada
e talvez até eu lhe contasse quem sou

Mas ela é de áries ascendente gêmeos
tanto fala que nada escuta.

wasil sacharuk

Fadinha


Fadinha

Fadinha de vestido rosa
e de cabelos violeta
trocou poesia por prosa
mudou a ordem das letras

trouxe um bouquet de cores
com beijos de borboletas
e quis uma paleta de flores
plasmada nas asas abertas

Fadinha nem sempre acerta
sua mágica não é perfeita
contudo se ama e se aceita
por isso ela é muito esperta

wasil sacharuk

Haviam faces

Haviam faces

Haviam cortes chanfrados
cuidadosos e laminados
brilhantemente polidos

estenderam-se tal lápides
espelhadas
cada qual com seus cantos
contornos e expressões

haviam nuanças diversas
e milhares de olhos
pontiagudos

veriam matizes estranhos
em tons tergiversos

faces que delatam belezas
juntadas às dores e tristezas
e além do possível
a fome de se fazer vida

faces vertentes de inexatidão
a linha tênue das crenças
e da satisfação

faces denotam clichês
de amor e de ódio
pintadas de versos latentes
ideias escandalosas
e iluminuras

faces que formam figuras
abstrações e palavras

haviam faces ultrajadas
emoldurando sorrisos discretos
que pareciam felizes

haviam faces e agora
vemos somente seus rostos
encravados
nas cabeças imóveis.

wasil sacharuk

Gororoba nuclear

Gororoba Nuclear

Dor de barriga. Todos nós aqui de casa. Ainda ontem, a velha carcaça acostumada aos maltratos das faltas e dos excessos, rejeitou certo negócio de estranha textura e gosto intrigante e inócuo de plástico que, por vezes, lembrava isopor. Mas com isopor já estou habituado, desde os chips “isoporitos” com sabor de picanha. Quiçá, menos letal do que churrasco friboi.

Agora tenho um grande abacaxi para descascar: o que dar de comer às crianças? Bom, por enquanto, a prole vai garantindo a cidadania enganando as pobres solitárias. IMG_20160822_093843379

Hoje eu comprei uma lata de uma farinha de mingau que se mistura ao leite e, absorvida a gordura, realiza estranha mutação numa pasta gelatinosa de aspecto duvidoso. Há algo de futurístico nisso. Fiquei imaginando meus meninos, depois de metabolização do grude sintético, caçando androides pelo quintal.

Dia desses, ouvi um líder espiritual dizer na TV que nossos corpos, mentes e alma são representações daquilo que comemos. Se isso é verdade, aguardo o momento de toda a existência da minha família se diluir naquele mingau pardo. Para não ficarmos todos com  aparência de meleca inerte, vou misturar ao mingau aquele pó cor-de-rosa de tingir leite. Rosados, seremos emblemas de boa saúde.

E, para dar substância à gororoba nuclear, precisei comprar leite, mas só havia daquele de caixinha. Perguntei ao atendente do supermercado:

-Moço, esse aqui é o que contém soda caustica ou é o da água oxigenada?

-Sei não, senhor, não diz nada na caixinha. Mas é melhor usar máscara de proteção e luvas, antes de abrir. Só para garantir.

wasil sacharuk

Ave

Ave

Alavanque as asas
a alma aberta
assemelhada
a astuta ave

Afugente
as algias atemporais
arfantes assombrosas
alternam arghs, ais

Aparte
acabrunhe a asinha
abaixando as abas
assustadas
altiva, aparte

Aposente analgésicos
aspirinas
apoios abalizadores
ardentes assustadores
a atmosfera abafadiça

Alto
abaixe as armas
abainhadas

assegure a alma
alçada ao amor

ao alto

algo arriscado?

apenas abra as asas!

wasil sacharuk

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Tarefa inglória


Tarefa Inglória

repete todo santo dia
faço sempre a mesma coisa
preciso calçar as galochas
e desfilar entre rochas
de mármore e granito

Revisito o mesmo rito
enquanto a carne esfria
se o dito é poeta se lê poesia
se o cujo é crente se lê oração
mas no fim é só casca e caixão

Eu já cavei tantos buracos
ouvindo o choro dos fracos
mandei alguns para o lado de lá
em golpes contritos de pá
e ofícios de carpideiras

Mas, juntar as caveiras
é a tarefa mais inglória
pois vejo uma sombra ilusória
que se lança e se esgueira
nas ruas de mármore frio

Sempre sinto um calafrio
mas aprendi a manter a calma
pois sempre haverá uma alma
assombrando o terreno
em busca de um lugar ameno

wasil sacharuk

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