Fruto podre

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

Velho, filho do mal, Fruto estragado
Duma árvore maldita, tu também
Serás severamente torturado
Pelos demônios ríspidos do além.

Sentirás que num golpe do destino
Comichar a bicheira no intestino
A comer o teu bucho esfarrapado

Saberás que na volta dos ponteiros
O teu couro, tua honra e teu dinheiro
Servirão p'ra cobrir os teus cagados.

David Moura & Wasil Sacharuk


Imagem: Nebuchadnezzar (Nabucodonosor), óleo sobre tela, 1795, por William Blake

Inópia

Inópia

Dai à fome do chão
gratidão em sementes
à terra que sente
o soluto fervente
dos sais

Dai aos viventes
enganos minerais
em níquel
e falsos brilhantes
a armação
que ilumina
ao poente

Dai aos ausentes
memórias fatais
versos de sofreguidão
gotas de solidão
em lágrimas quentes

Dai à vida
solução diferente.

wasil sacharuk

Valquíria morde a língua

Valquíria morde a língua

Ela é de áries ascendente gêmeos
e não cala a boca
Valquíria, a louca

Configuração danada
faz vibrar azul brilhante
naquele centro energético
que não deixa a pessoa calar
viciada nas trelas
e nos blablablás

E ontem ela disse:
"eu sei bem quem tu és
e o que ocorre na tua cabeça perturbada"
bem, ela não sabe o que diz
mesmo assim não cala a boca

Hoje como em todos os hojes
Valquíra trança a língua
e depois a morde
sina ingrata de quem
não tem boca fechada

Ontem como em todos os ontens
Valquíria não calou a boca
blablablá blablablá blablablá

Noutro dia falou tanto
que somente ela mesmo escutou

Amanhã Valquíria morderá a língua
sempre que chega amanhã
Valquíria trança e depois morde

E amanhã como em todos os amanhãs
Valquíria não calará a boca
e morderá novamente a maldita língua

Valquíria não sabe quem sou
e nem aquilo que penso
quanta pretensão!

Acaso Valquíria calasse
teria tempo de saber
o que ocorre em minha cabeça perturbada
e talvez até eu lhe contasse quem sou

Mas ela é de áries ascendente gêmeos
tanto fala que nada escuta.

wasil sacharuk

Haviam faces

Haviam faces

Haviam cortes chanfrados
cuidadosos e laminados
brilhantemente polidos

estenderam-se tal lápides
espelhadas
cada qual com seus cantos
contornos e expressões

haviam nuanças diversas
e milhares de olhos
pontiagudos

veriam matizes estranhos
em tons tergiversos

faces que delatam belezas
juntadas às dores e tristezas
e além do possível
a fome de se fazer vida

faces vertentes de inexatidão
a linha tênue das crenças
e da satisfação

faces denotam clichês
de amor e de ódio
pintadas de versos latentes
ideias escandalosas
e iluminuras

faces que formam figuras
abstrações e palavras

haviam faces ultrajadas
emoldurando sorrisos discretos
que pareciam felizes

haviam faces e agora
vemos somente seus rostos
encravados
nas cabeças imóveis.

wasil sacharuk

Inspiraturas