Seara

Pobre Anita

Pobre Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data que, decerto, não poderia ter esquecido. Sou capricorniano e isso, outrora, já foi relevante. No entanto, sei que Anita estava presente, provavelmente, usando um daqueles seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro e ela aos seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho que adorna minha cova rasa. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas orgânicas. São tantos: formigas, larvas, minhocas e outros que eu nem conhecia antes. A cadeia alimentar é um processo infalível e sério. 

O tempo passou tão rapidamente. Posso perceber que o velho e bom Toby se aproxima dos seus últimos tempos. É um cão idoso, está gordo e suas patas não suportam mais o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa suas patas grandes sobre o gramado. 

Há semanas não vejo as meninas e quanto à Anita, a vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou e plantou a semente da própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão mesmo que ela mude de endereço.

Se possível, dia desses, quando aqui ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, eu puxarei sem dó aos seus lindos pés. 

Ah, livrar-se assim de mim não fará com que Anita me esqueça tão facilmente. 

Pobre Anita!

wasil sacharuk