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Rouco gemido


Rouco gemido

O grito que te rasga a voz
renuncia aos teus argumentos
evoca barbáries
lamentos
apressa as intempéries
de todos os tempos

o grito te desata o nó
faz retalhos
provoca catarses
estragos
no abismo dos impasses
risca um atalho

Talho rouco na pele do eclipse
faz sangrar os céus 
em magentas azulados
gotas de medo e espasmos
nos céus de todos os ritos

Varamos as madrugadas desnudas
silenciosos ecos flamejantes
por entre fogueiras errantes
estrelas dançantes riscadas no chão

E Enfim,
O berro ecoa lancinante
Fazendo malabarismos de instantes

E morre gelado na glote

Outra vez.

Wasil Sacharuk e Márcia Poesia de Sá

Nua e mais nada


poema de Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
Publicado por Inspiraturas em Quinta, 31 de março de 2016


Nua e mais nada

quero tua palavra nua,
sem pele, sem remendos, sem acertos
quero tua palavra rabiscada
exagerada
sem lamentos
quero tua palavra direta
enxertada
enfiada
afiada
aprofundando minha alma 
de teu perto

quero decorar teu dialeto
ouvir tua boca calada
mascando palavras repletas
sem ornamentos
sem emboscadas
tua tônica sem acento
teu verbo sem movimento
em locuções encantadas
quero a palavra que completa
e mais nada.

Márcia Poesia de Sá &; Wasil Sacharuk


Escrever com Márcia Poesia de Sá é foda. Minha vã poesia se dilui em plenitude. O melhor afago aos meus vícios e virtudes(?)rsrs


Lena

Lena

Menina, a vida ensina
nunca é cedo demais
para acarinhar o destino
se ele é tão genuíno
e inventa eventos normais

Logo, deixes fluir de tuas mãos
o que não podes mudar
importa é não naufragar
perder a razão da emoção

E deixes cair uma lágrima
para dentro de tua boca
que inunde teu lindo sorriso
e, se preciso
escrevas como uma louca
e dividas teus versos comigo.

Wasil Sacharuk

Sementes de versos

Sementes de versos

Se nas nuvens
nascem flores
plenas de complexidade

vejo céus de outras cores
criatividades
odores diversos

se nas nuvens
brotam versos
fofos de brancura

na gramatura
das letras
deito as sementes
da fertilidade.

wasil sacharuk

Poetas à mesa


Poetas à mesa

Quero a vertente dos olhos
a proeza da alegria
na certeza da harmonia
as lições da delicadeza

Quero saber as belezas
que emergem do abismo profundo
e converte as dores do mundo
as mágoas e as agonias

Quero decorar a melodia
que encurta a nossa distância
e ocupa as reentrâncias
entre as cadeiras da mesa

Quero as palavras mais ternas
as que não dizem mais nada
que versam nas curvas da estrada
trilhada pela poesia.

wasil sacharuk

Monostrofe

Monostrofe

Só um bloco
só um pacto
apenas um fato
apenas um nexo
um só retrato
um só estado
sete versos.

wasil sacharuk

Sol raro

Sol raro

Surgiu sol raro
forte e tímido
entre nuvens
viajantes

luziu os semblantes
secou chuvas
o chão úmido
das casas
secou no calor

surgiu o sol raro
e tão caro
trouxe de volta a cor

Surgiu sol tal afago
carinho e bondade
entre flores
traçou rumos verdejantes

reluziu diamantes
enxugou as cidades
o mar das fatalidades
aqueceu com amor

surgiu o sol tal afago
e tão caro
levou toda a dor.

wasil sacharuk

Águia de sangue

imagem: Marwane Pallas


Águia de sangue

na longitude do eixo
planos do feixe
seccionados
em plena simetria
perfazem a envergadura

fibras novas
outra criatura
de outra anatomia

exibe a águia
as suas asas
sanadas

o sangue na guia
de ave livre
e condenada.

wasil sacharuk

Cura

Cura

A agonia irrompe
das searas
e respira sombras
na terra plasmadas

dor que seca
o viço dos sulcos
vertentes das seivas
enquanto o tempo
se sara
no remanso

a vida pousa
por uma estação
quando ventos
varrem as folhas
e o tempo
embala o descanso.

wasil sacharuk


De butuca - palav®inventada

De butuca

Tavaqui de butuca
entendendo causos
no viés dos percalços
holocaustos
e arapucas

ensimesmado
fundido da cuca
no fogo cruzado
incandescente
e baseado
que chamusca

tavaqui de butuca
entornando tragos
no viés dos estragos
dos descasos
e agruras

enclausurado
esquecido na gruta
num fogo danado
aguardentes
papo fiado
e bitucas.

wasil sacharuk


Se o voto não fosse obrigatório

Se o voto não fosse obrigatório


Se o voto
não fosse obrigatório
o copo de cana
não largaria o borracho
o capítulo da novela
não assistiria seu otário
e o salafrário
repensaria a balela.


wasil sacharuk

Especulação sociobiológica evolucionista

Especulação sociobiológica evolucionista:

             Se uma MULA fosse pastor (de quadrúpedes)....

                          quais animais o seguiriam?
Especulação sociobiológica evolucionista:Se uma MULA fosse pastor (de quadrúpedes)....quais animais o seguiriam?
Publicado por Wasil Sacharuk em Sexta, 11 de março de 2016

Bairro Renascimento

Bairro Renascimento

Samanta não desalinha nos saltos altos. Anda graciosa e sorridente enfileirando aslongas pernas coroadas pela graciosa minissaia. Tudo em Samanta transpira certa audácia. 

Segura a bolsa com displicência, não teme os assaltos. Transita livre entre os donos do bairro Renascimento. 

Lembra sempre do pequeno bairro em que nasceu, na cidade vizinha de Santo Antônio. Dias difíceis aqueles. Mas, agora não há mais do que reclamar. Seu filho Tiago nunca mais passou fome e já tem um bom plano de saúde.

Acorda tarde todos os dias para pegar Tiago na escola e, depois, o deixa aos cuidados de Dona Diva, a avó, que cuida do neto e da casa enquanto a filha cuida dos próprios afazeres.

Samanta sempre soube, intimamente, que a beleza que lhe caia tão bem, seria a razão do seu sucesso.

wasil sacharuk

Gormilha - palav®inventada

Gormilha

Gormilha ferve as águas
cozinha batatas
escolhe feijões
panelas e alucinações

Gormilha mata as baratas
percorre mil léguas
na rota das mágoas
polindo a prata

Gormilha alimenta os cães
inventa expressões
com palavras exatas
numa outra língua

Gormilha nunca dá trégua
se pensa sensata
remete aos porões
lembranças e sensações

Gormilha solta as patas
sem tino sem régua
sem dó e sem travas
manda tudo às favas.

wasil sacharuk


Pobre Anita

Pobre Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data que, decerto, não poderia ter esquecido. Sou capricorniano e isso, outrora, já foi relevante. No entanto, sei que Anita estava presente, provavelmente, usando um daqueles seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro e ela aos seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho que adorna minha cova rasa. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas orgânicas. São tantos: formigas, larvas, minhocas e outros que eu nem conhecia antes. A cadeia alimentar é um processo infalível e sério. 

O tempo passou tão rapidamente. Posso perceber que o velho e bom Toby se aproxima dos seus últimos tempos. É um cão idoso, está gordo e suas patas não suportam mais o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa suas patas grandes sobre o gramado. 

Há semanas não vejo as meninas e quanto à Anita, a vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou e plantou a semente da própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão mesmo que ela mude de endereço.

Se possível, dia desses, quando aqui ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, eu puxarei sem dó aos seus lindos pés. 

Ah, livrar-se assim de mim não fará com que Anita me esqueça tão facilmente. 

Pobre Anita!

wasil sacharuk