Naquele dia

Naquele dia

Lembro quando a natureza, naquele dia tranquilo de fevereiro, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre as telhas, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas. De meros brinquedos, agora serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo fez-se nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.

wasil sacharuk


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