Seara

- Hoje, ele não voltou - Oficina INSPIRATURAS/APCEF - Narrativa não-linear



Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

Wasil Sacharuk