A solitude tem lágrimas secas

Tela: Richard S. Johnson


Aprendas, menina:

A solidão convertida em rosas usa espinhos como escudo.

Do que sabe o jardineiro, afinal? Perfurar a pele nos espinhos da tragédia?

A solidão se isenta do perfeito sacrifício em favor do outro. 
Daí se consolida solidão. 
É rosa seca de haste dura e grossa que, imperfeita, se acomoda entre as páginas de um livro velho guardado num canto da estante.

Não compreende o desvelo dos jardineiros, mas dos bibliotecários, cuja colheita abarca as memórias amareladas e condensadas. 

Lembres, menina, os solitários que cultivam flores são desprovidos de solitude. 

Eis que a beleza das flores nega a solidão

Rosas transmutadas no sépia dos tempos esqueceram dos próprios aromas. 
Desidratadas habitam superfícies artificiais distantes às cheirosas roseiras. 
Suas cores definham lentas. 

A solitude tem lágrimas secas, menina, 
tal os líquidos que deixam seus invólucros derradeiros. 
É na morte das coisas que se contempla solitude. Bem sabes.

E pouco importa a natureza das coisas... Ficarão rastros das suas formas e conceitos. 
A vida sempre será o acalanto de todas as mortes.

Entre o frescor e a secura há um tempo de ida e outro de volta. Enquanto um canta o outro nina. 
Haverá nuanças de vida entre o viço e a senilidade dos galhos.

Wasil Sacharuk

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