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Tarsentilho - palavrinventada®

Tarsentilho

Tarsentilho insone
das luas

cruzarruas
e explode
balastros

longos passos
no escuro
graúna

nas ruínas
arranhões
e esgarços

Tarsentilho espaço
e lacuna

pega a unha
e irrompe
em cabaços

rompe lastros
a glande infortuna

lava a burra
a alma
e os rastros.

Wasil Sacharuk

Marcos da Alma

Maria Sofia


Marcos da Alma

Eu sou eu, simples assim 
e você é você...
Simples assim

Sou um, do início ao fim
assim tal você

Simples assim

Somos barqueiros 
e embarcadores
sábios e aprendizes

Feios e bonitos
Silêncios e falas

Somos arteiros
e encantadores
de risos e cicatrizes
mansos e aflitos
picos e valas

Coragens e medos
vidas e mortes
pontos e partidas

Colagens de enredos
fracos e fortes
voltas e idas

Enfim, somos nós 
em construção sempre.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Está pronto e divulgado o laudo técnico especializado que calcula o teor da contaminação produzida pela lama samarco? Não, né? Talvez as autoridades imaginem que o estudo seja dispensável, afinal, qual a dimensão do sinistro da lama para quem já vive atolado na merda?

Mataram o rio... não dá para comprar outro e botar no lugar. E se desse, não haveria dinheiro... os vagabundos levaram todo. E apenas quem pagará a conta é a qualidade cada vez mais indigna das nossas vidas. Vai ficar nisso mesmo: sem culpados, sem penalidades, sem consciência...

Se o evento ocorresse num país digno, do tipo sério, a análise já estaria pronta e medidas efetivas de recuperação sendo tomadas e os administradores da catástrofe sendo presos.

Já sabemos de antemão que nada será feito. Seria necessário uma quantidade mínima de cidadãos para exigir qualquer medida de reparação. E no parlamento da cidadania, não há quorum.

A lama tóxica que emporcalha a consciência dessa gente é que perfaz o maior dos desastres ambientais. É apenas brasil, terra de políticos corruptos e analfabetos, empresários ladrões e povo abostado... muito abostado.

Vai ficar tudo por isso mesmo... vai virar arquivo audiovisual da rede globo para os zumbis do futuro chorarem a triste sina.

Logo chegarão as festas natalinas, o bigbrother, o carnaval... e nossa gente subserviente e burra estará alegre e festiva a sambar com a bunda de fora sobre um mar envenenado. Que não reclamem mais, afinal, temos a medida exata do retorno das nossas frouxas ações.

Wasil Sacharuk

foto: jornal O Dia - reprodução de tv

Curso da Poesia

escritora Maria Sofia

Curso da Poesia


Era um dia feito outro qualquer
estendido em caldas de leses
quando o desejo insano de ser
converteu-se em algo diferente
na luz de um sombrear claudicante
o morno se fez instante consciente.

Era o novo sabor de um instante
me vi em outro cais num outro revés
estendido em cais os navegantes
borbulhavam em ondas e marés
a verve soprou suas sementes
e os versos brotaram nos pés.

A alcova que antes era doente
flertou o sol no mais belo poente
e a natureza não pode conter
e sorriu em luminosa poesia
vestida da lese a perdurar instantes
com gestos nobres de maestria.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Mulher multidão

Mulher multidão

mulher multidão
malemolente malabarista
mergulha mar movimentado

manipula misérias
maneja migalhas
manobra mentiras

misericórdia, mundana!
monta meninos
moços
maduros
mulheres

molesta matrimônios

mutreta!

mulher matadora.

Wasil Sacharuk


Cavalgada

Maria Sofia

Cavalgada

Os longos dos anos vividos
entre porteiras abertas da estrada
os meus momentos todos perdidos
entre a esperança e o nada
entre o silêncio e a despedida
vislumbre de tal vista regata.

Daí anunciei meu pedido
no meio da noite enluarada
uma canção que fizesse sonata
por entre a brisa apanhada
venci os entraves do medo
e a poesia não se fez calada.

Raiou o sol ante a madrugada
vestida de aura tão delicada
fez do meu medo arremedo
fez da minha prece toada
em um galope de cavalgada
na despedida da alvorada.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Poeira de Estrada

Maria Sofia



Poeira de Estrada

Em algum lugar distante daqui
poeira queimou chão e alforje
foi o fogo maior que eu vi
fez tudo o que pode e não pode
e o corcel saltou galopando
queimando estrada e poeira.

E não estava de brincadeira
sequer estava armando galope
mas foi por uma tal cerqueira
que meu cabresto saiu por sorte.

Escapei do abraço da morte
esqueci qualquer dor passageira
foi uma tal garça aventureira
que na estrada velha de poeira
fez tal corcel perder a direção
cavalgando pelos trilhos da mão.

Eu cavalgo não é por esporte
mas sim por vontade faceira
cavalgo por relvas e noites inteiras
com meu cabresto solto na cernelha.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Molemar - INSPIRATURAS palavrinventada®

Molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar

Malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor.

Wasil Sacharuk

Otimismo - Dicionário Lírico INSPIRATURAS

Otimismo

é a crença ridícula no incerto
é poema de versos do absurdo
o pretexto infalível dos sortudos

otimismo é conceito confuso
nos meandros da poesia
onde impera
certa delicadeza
traduzida em versos

é igual àquela certeza
de que se pode virar a mesa
e fazer tudo dar certo.

Wasil Sacharuk


- Hoje, ele não voltou - Oficina INSPIRATURAS/APCEF - Narrativa não-linear



Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

Wasil Sacharuk

O Sol que pinga


O Sol que pinga

Bem cedo
o sol que pinga é diferente
pinga em concisão
remédio...
remédio que dá fim na dor
e no tédio

agora eu via o sol
pela tonteira da visão
e a cor...
a cor do raio é o calor

quando pinga
pinga energia na gente
bem no coração
acolho...
o que abre o chakra e o olho

agora eu via o sol
tão no coração
bem quente...
quente a manhã
de fogo ardente

o sol consome a morte
e a semente
fácil e sem perdão
aquece...
aquece a memória do karma
e esquece.

Wasil Sacharuk

Algodão-doce



Algodão-doce

ensacado
açucarado
de tão doce
deixa enjoado
no entanto
o palito espetado
traz infãncia
de melequenta repugnância
e corante rosado

geralmente se gosta
quando se é criança

Algodão-doce
pueril poesia
ou um passo de dança
de leveza e a alegria
memória da diversão
ingênua abstração
e beijo roubado.

wasil sacharuk

Oficina APCEF/INSPIRATURAS - exercício de narrador câmera - Um texto inacabado



O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.
Paredes em farelos.
Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.
O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.
Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros.  
O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

Wasil Sacharuk

Cada crença corresponde com cada cadáver

Cada crença corresponde com cada cadáver

Coveiro chega capela
coloca cruz
castiçais com chamas
canecas
café

Cabe coveiro
colocar corpo
centralizado com caixão

compete colocar cravo
condecorando casaco

conforme chegar cemitério
colocar chapéu
contra claridade
cavar... cavar

convidar criaturas
consanguineas com cadáver
carregar caixão

convém criaturas
com choro caindo
cantar canções
cujo cadáver cantava
conquanto caminhava

colocar cobertura
conduzir caixão
centro cova

comum colocar
camisas clube
cujo cadáver
contribuia

comum chover crisântemos
chuva colorida

cadáver continuará calado
completamente cansado
com culto cretino.

Wasil Sacharuk

Presente de Marisa Schmidt

E eu nem sabia que mago tinha idade registrada em anos vividos, pois quem tem nas mãos o domínio do imponderável, não é jovem nem será jamais velho, apenas é eterno. Este( e) terno poeta sabe tudo de poesia, de encanto e melodia, de amizade e afeto e por ser assim, tão entrincadamente simples, faz da palavra seu ato de rebeldia, da liberdade de expressão seu caminho etéreo e da incrível capacidade de agregar em torno de si tantos sonhos um abrigo seguro contra a volubilidade do que chamamos de vida. Te amo, meu poeta e te desejo somente o que quiseres...

Marisa Schmidt

Presente de Ana Maria

Sacha ,

Vou começar essa história
Pedindo sabedoria
Porque falar de um mago poeta
Não é uma coisa qualquer .

O homem tem muita inteligência
Faz poesia até na língua do "C"
Já ganhou minha simpatia
Provando o quanto é .

Sua poesia tem voz participativa
Porque o lirismo em você domina
O eu poético toma iniciativa
Para que nossa poesia permaneça viva .

Meu sonho um dia você realizou
Corrigindo os erros que eu fazia
Por isso aqui estou
Mais leve e solta na poesia .

Talvez você não lembre
Do quanto estou lembrada
Do nosso ajuntamento
De um só envolvimento .

Já passaram alguns anos
E apesar deste tempo
Meu muito obrigada
Pela interação que agrada

Ana Maria Marques

A solitude tem lágrimas secas

Tela: Richard S. Johnson


Aprendas, menina:

A solidão convertida em rosas usa espinhos como escudo.

Do que sabe o jardineiro, afinal? Perfurar a pele nos espinhos da tragédia?

A solidão se isenta do perfeito sacrifício em favor do outro. 
Daí se consolida solidão. 
É rosa seca de haste dura e grossa que, imperfeita, se acomoda entre as páginas de um livro velho guardado num canto da estante.

Não compreende o desvelo dos jardineiros, mas dos bibliotecários, cuja colheita abarca as memórias amareladas e condensadas. 

Lembres, menina, os solitários que cultivam flores são desprovidos de solitude. 

Eis que a beleza das flores nega a solidão

Rosas transmutadas no sépia dos tempos esqueceram dos próprios aromas. 
Desidratadas habitam superfícies artificiais distantes às cheirosas roseiras. 
Suas cores definham lentas. 

A solitude tem lágrimas secas, menina, 
tal os líquidos que deixam seus invólucros derradeiros. 
É na morte das coisas que se contempla solitude. Bem sabes.

E pouco importa a natureza das coisas... Ficarão rastros das suas formas e conceitos. 
A vida sempre será o acalanto de todas as mortes.

Entre o frescor e a secura há um tempo de ida e outro de volta. Enquanto um canta o outro nina. 
Haverá nuanças de vida entre o viço e a senilidade dos galhos.

Wasil Sacharuk

Prece - Dicionário Lírico INSPIRATURAS

Prece

É vocábulo do gênero feminino
popular na Língua Portuguesa
significa uma coisa sem certeza
algo entre a súplica e o hino

Prece é nome substantivo
que coloca a ação do sujeito
de mãos à frente do peito
num papel totalmente passivo
a encher ouvidos das divindades
com tantos motivos
e falsas verdades
e quase nenhum defeito

Mas, na voz da sinceridade
prece é o momento em que o dia
se desfaz em ocaso
e quedam-se os versos mais rasos
num gesto sagrado de poesia.

Wasil Sacharuk


ambiguado



ambiguado

Agora, que sou velho e fraco
carrego o meu tabaco
na tua pequena boceta
onde guardavas caneta
e outros bichos de plástico

Wasil Sacharuk

O argumento da vivardia - INSPIRATURAS palavrinventada®

O argumento da vivardia

Jamais acatará
o morrimento
o fatal argumento
da vivardia
ninguém diz alegria
sobre lamento
ninguém faz fundamento
de poesia

Jamais nosso dia
foi temporento
o quintal de cimento
que angustia
ninguém diz poesia
do fundamento
ninguém faz do lamento
a alegria.

Wasil Sacharuk