Seara

Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

De tudo o que eu era restou somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou. Me alimento de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço agora, sapateio com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando uma tremenda chuva de versos, diluídos com whisky, derramou-se e,despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro.. Não sei bem ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta.

Dia desses tornei a vê-lo. Sentado na asa de um avião.

Wasil Sacharuk 

Entorpecente

Entorpecente

-Rezaste?
-Não!
-Fizeste o quê, então?
-Sabes, Santidade, a Sininho...
-Opa, esqueças essas ideias pagãs.
-Ela é fada!
-Cala-te, menino, respeita-me!
-Não é isso... é a magia... aquele pó.
-Pó?
-Sim, pó.
-Que pó, baixinho?
-Pirlimpimpim, eu acho
-Isso é droga.
-Não, é pó... pó mágico... brilhante.
-Se é mágico, deve ser entorpecente.
-Padre! É a Sininho...
-Menino, não mistures mulheres fadas com pó mágico... isso tem aspecto de vício.
-Não é isso, Santidade!
-Dez padres nossos, com a pureza do coração. Peças absolvição e afasta-te das drogas.

Wasil Sacharuk

Tua alma escandalosa

Tela: Jonhy Andwik

Tua alma escandalosa

hoje quis saber
se gostas de mim?
enfim
quero beijar tua boca
eis meu desejo
se te vejo

e dizes:
...isso soa muito bem!
e a mim, também
parece uma linda imagem

sou desvelos
de boca entreaberta
pode te devorar
sequestrar teus segredos
te fazer revelada

apenas para ouvir
tua alma escandalosa
gritar desvairada.

Wasil Sacharuk

Agenda

Agenda

rascunhos de poesia
versavam desejos
entre as notas do dia

escritos à língua
letras em tua boca
e verve derramada
sobre os seios
que te delatam.

Wasil Sacharuk

Chuva setembrina

Tela: Leonid Afremov

Chuva setembrina

olá menina
aqui despenca
chuva setembrina
bem gostosa
ora fina
ora grossa
mas sei que aí
um sol queima

nosso clima
tem uma sina
e por isso ele teima.

Wasil Sacharuk

A princesa molhadinha do sul

A princesa molhadinha do sul

o frio daqui é tão frio
e o calor é calor
o amor daqui é tal rio
a cor daqui é sem cor

mas nem toda água é de mágoa
nem toda lágrima é dor
nem toda poça tem lama
nem todo chão nasce flor

o inferno aqui é sombrio
o céu daqui é o terror
o fogo daqui é pavio
e tudo aqui é um bolor.

Wasil Sacharuk

Foto de F. A. Vidal

Deslizam lentos


Tela: Kurt Van Wagner


Deslizam lentos

deslizam lentos
os dedos
a boca
o queixo
a cabeça
a face
o tato
o nariz

deslizam lentos
a nuca
os cabelos
os fios

a mão espalmada
que puxa
assim, de leve
para não assustar

lentos
a língua
o nariz
deslizam
as bochechas
o lado
o outro

os recônditos
os dentes
a gengiva
o céu

as mãos
os  braços
os espaços
deslizam lentos

as pálpebras
os lábios
a linha
o desenho…
a umidade
o entorno
as dunas
a volta
o vale

lentos deslizam
os  olhos
que encantados
suplicam sentir.

Wasil Sacharuk

Arrisco dizer

Arrisco dizer

oooohhh ohhhhh
oooohhhh ohhhohhh

talvez eu queira
minha amiga
apenas te ver
perder o medo

arrisco dizer
o que não sei
eu deixo
acontecer
e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo
acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo
acontecer

tu perdes o ar
minha amiga
eu perco a calma
e deixo acontecer

eu sempre volto
tu queres me envolver
e tu deixas
acontecer

e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo
acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo
acontecer

oooohhh ohhhhh
oooohhhh ohhhohhh.

Wasil Sacharuk

Desígnio

Tela: Guro Solaiman

Desígnio

não me importo
com o quanto falas
mas sim com o que
ou o porquê

esboço teus encantos
quando desenhas sorrisos
versos imersos no pranto

mas tu és suave, menina
pensar poesia é tua sina
teu desígnio de anjo.

Wasil Sacharuk

Sopa

Exercício poema livre com gato, palavras e noite... Oficina Inspiraturas/APCEF Regional Sul :

Sopa

Preparei prato fundo
sopa de gengibre
com palavras
tomei três colheradas
o resto dei ao gato

mas ocorre de fato
é que na noite enluarada
vê a lua pendurada
num gancho atado ao mundo

e meu gato vagabundo
não passa debaixo de escada
não passa por apuros
não passa pela encruzilhada
de olhos abertos no escuro

e irrompe a madrugada
escreve versos a unhadas
na lua que espia sobre o muro.

Wasil Sacharuk

Cachos

Cachos

dedos pinçam
teus cachos
cuidadosamente
desarrumados
na textura
que mistura
forma e cor

sabes, eu acho
que teus cabelos
purgam desvelos
cascatas de amor

entre cachos
de fato
me desfaço
alinhavo o ato
transgressor.

Wasil Sacharuk


Sinistro


Sinistro


algumas feiuras encantam

dessas gentes livres

de olhares sinistros

e marcas na face

Flor de Cacto

 Mell Shirley Soares


Flor de Cacto

O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk

Catilinas choca Ceará


Catilinas choca Ceará

Conforme combinado, Cara Cabeludo conseguiu convencer companheiro Catilinas conhecer centro capital Ceará.

Calçaram chinelas, colocaram calças curtas cujo corte considerava charmosas coxas cabeludas, colocaram camisetas coloridas com chamamento "cristo chegará!". Com certo cuidado com carteira, caminharam calçadão com certeza conquistar charmosas criaturas cearenses cuja crença consiste consumar casamento cristão. Consideraram confeccionar crianças com carinhas celestiais conforme conduzirem coito com casamenteira cearenses.

Convidaram criaturas cafusas com cinturinhas contornadas, coxas colossais, cabelos compridos com chapinha, comer comidas com companhia chopes.

Chegaram casa com chef, com cozinheiro, cumins, comensais, cantor cover, com cabeças cobertas com chapéu couro, cuja competência consiste comercializar comidas caseiras cearenses congregadas com carnessol.

Contudo, Cara Cabeludo comeu carnessol, consumiu chope, comeu criatura cearense, conquanto Catilinas, condimentou comida com certo composto caliente, conquistou comichão cretina centro cu. Catilinas, com certeza, cagou cada canto Ceará.

Wasil Sacharuk

Escorpião - versos autobiográficos




Wasil Sacharuk

"Talvez tenha sido por volta 2008 a primeira vez que o li, aliás, o vi comentando algum poeta numa comunidade de Orkut chamada Bar do Escritor.

Lembro que olhei atentamente para aquele avatar de cabelos longos, olhar severo e o conjunto me levou a um desses guerrilheiros que se perderam nas selvas da América do Sul à década de 70, afinal sempre fora desconfiados com os cabeludos apesar de ter sido um nos tempos do Led Zeppelin.

Olhei novamente para a pequena foto que carregava abaixo o nome de Wasil Sacharuk. e me pareceu evidente que ali o intelecto de um revolucionário se mantinha oculto sob a vastidão dos cabelos castanhos.

Porém Wasil não era um revolucionário das armas assim como os uruguaios do Tupamaros. Não, na guerrilha de Sacharuk não se deflagravam tiros e nem se era picado por cobras ou saciado da sede por riachos que riscavam as florestas, pois os projéteis da revolução de Wasil nada mais são que as linhas da poesia.

Recordo ainda que nos primeiros textos ali postados pude perceber-lhe o traço e a verve do inspirado, uma escrita pujante e contundente grafando prosas e poesias por vezes no esmero do sotaque sulista do seu Rio Grande do Sul.
Sim, não seria menos verdadeiro confessar que em algumas oportunidades procurei na internet a tradução paras alguns termos gauchescos para poder compreender e a assimilar a grandeza das suas construções.

Lembro também que Wasil foi o primeiro artista a quem me interessou o trabalho com a produção de vídeo-poema. Recordo também que o primeiro seu que vi foi (É a verve) e o seu trabalho me deixou maluco tal o esmero que fora produzido, pois além das filmagens e edições ficava por sua conta a declamação, efeitos sonoros e a trilha musical. E fiquei tão impressionado que pedi para ele que fizesse um vídeo para um poema meu, diga-se, generosamente ele o fez e me presenteou, e é algo que até hoje me encanta e honra tal a perfeição do aspecto visual, narrativo e a trilha sonora composta por ele.

Enfim, não há como falar de Wasil Sacharuk sem traduzi-lo em arte, afinal ele é uma das prazerosas manifestações dela.

Pois, imenso é meu orgulho ao ser companheiro de letras deste magnífico poeta e prosador.

Parabéns Wasil Sacharuk!"

Veio china