Cadente

Cadente

Cobicei calar
conversas conduzidas
com cinismo

Considerei cessar
certas contradições
com coisas compartilhadas
coisas curtidas
comentadas
com criaturas
conquanto cabeça
continuou conturbada

Careço cessar conflitos
confusões
conquistar clareza
coerência
compactuar com conhecimentos
com ciências
certezas
coisas consistentes

Contudo
continuei cantando
catando coisas
caminhando chãos

caí
contudo
caí contente
coisa celeste
cadente
contando casos
cantando cirandas
com coração.

Wasil Sacharuk

Canção para Crispim

Canção para Crispim

Vamos andar
e deixes tudo aí
venhas passear comigo
sei que vais gostar

te levo para casa
encontraremos amigos
e ver a lua de pertinho
tal fosse na rua

Nessa semana
o céu resolveu te chamar
e então te esperei

e quando beijei tua testa
te envolvi em meus braços
eu mantive o teu controle
e esquecestes da dor

Vamos andar

que eu te mostro o caminho
que os que viram a felicidade
certo dia trilharam
sob o calor de outro sol

Vamos andar

nunca mais estarás sozinho
terás as coisas de verdade
que somente existem
sob o calor de outro sol

e quando beijei tua testa
te envolvi nos meus braços
eu mantive o teu controle
e esquecestes da dor

Sigas o caminho

que os que viram a felicidade
certo dia trilharam
sob o calor de outro sol

Venhas comigo

terás as coisas de verdade
que somente existem
sob o calor de outro sol

sob o calor de outro sol.

Wasil Sacharuk

O que sei sobre poesia?

O que sei sobre poesia?

O que penso que sei é produto da forma como vejo acontecer pois, quando escrevo, o faço sob a luz do olhar que empresto à esteira dos acontecimentos. Notes que, para tal, não há fórmula, no entanto, posso usar de artifícios que delineiam uma forma, uma estética particular para as palavras cruas que jorram da nascente. De lá brotam os sentidos que já conheces tão bem. Cada pensamento ou sentimento é um fluxo de consciência e somente os conceitos poderão entravá-lo. 

Se os versos nascem sem bloqueios, apenas os registro no papel e, depois, os leio, os vislumbro e percebo a sua carga. Reflito sobre o que dizem e como o dizem. São bandeiras de mim. Engrenagem que funciona em plena independência, mesmo que eu não queira.

Cales uma prece em tua pele

Cales uma prece em tua pele

Confesses à lua
que ela escuta
teus silêncios
e te abriga do vento
num canto iluminado

reveles ao tempo
tuas faces ocultas
teus lamentos
ele reune os fragmentos
extraviados.

Wasil Sacharuk


Reciclagem

Imagem: Escultura de Auguste Rodin - Musée Rodin, Paris, France

Reciclagem

Deixe-me a sós 
com a poesia
por um minuto
que persista aos dias
para engoli-la
mastigá-la
e invertê-la
quebrar os seus ossos
passar os dias que restam
a mitigá-la
e reinventá-la
dos destroços.

Wasil Sacharuk

Luzias etérea



Luzias etérea

Circundada
luzias etérea
desde rubra origem
desdobrada em cores
que te aquecem
quando dentro de ti
me sentes
penetrando a loucura
dos teus desejos secretos.

Wasil Sacharuk

Tu vês?

Imagem: Auguste Rodin - Musée Rodin, Paris, France


Tu vês?

não apenas me olhes
me entres
bem no fundo
consegues?

percebas minha face
meus traços
delineie minhas rugas
tu vês?

toques minha barba
a mistura de cores
todas as que tive
do vermelho ao branco
entre castanhos diversos

mas gosto dos brancos
veja-os
tal viste aos tempos
em cada fração
um desígnio

e meu charme
tão especial
remonta à histórias
que o tempo vai te contar
histórias comuns
que constroem um homem
do tipo real.

Wasil Sacharuk

De outra natureza



De outra natureza

Sei explorar tuas belezas
teus sentidos
e tu gostas
das minhas proezas
se fico perdido 

há poetas diferentes
outras vertentes
distâncias... tamanhos
os leste... os viste
e os amaste
bem sabes
meu universo estranho
tem outra natureza
é de outra vida

escrevi poesia
na nuvem sombria
tatuada em tua coxa
que quando despida
confessa atrevida
o teu amor.

Wasil Sacharuk

Fatalidade



Fatalidade

tuas asas
têm vontades incertas
mas se abertas
sempre te tra(z)em
porque tu bem sabes
o quanto eu bem sei
da mulher
que tu és.

Wasil Sacharuk

Prisma



Prisma

Na madrugada
roubo de ti pensamentos
imprimo neles a chuva
para que sempre penetre
nos poros da minha crueza

aos desígnios da aurora
te faço impregnada
daquilo que sou
e novamente sou teu
para que sempre me saibas
e tenhas certeza

exploro recônditos
que a mim não pertencem
mergulho em teus olhos
para que sempre descubras
as cores cegas
da minha inteireza

antes que o sol as revele.

Wasil Sacharuk

Caminho divertido

Camille Claudel & Rodin - Musée Rodin, Paris, França


Caminho divertido

Tocar-te os cabelos
deslizar-te os dedos
arranhar-te a cabeça
provocar-me arrepios

percorrer-te os olhos
teu nariz
na ponta dos dedos
e ver-te sorrir
sorrir-me a ti

brincar-te os lábios
olhar-te olhar
cara de fome
que atiça

minha boca 
teu pescoço
de baixo para cima
para depois
mordiscar-te o queixo

pegar-te nos ombros
beijar-te a boca
delicadamente
no cantinho
que sabe sorrir divertido

viajar-te as belezas
toques suaves
que deslizam
tal escultor
andarilho nas dunas 
de Camille Claudel
e tocar-te os picos 
minhas palmas

vigiar-te a boca
que entreaberta
sorri
e logo pede
lamber-te as coxas

mordiscar-te a pele
com cuidado
afastar tuas pernas
desvendar-te o cheiro
circundar-te leve
a língua

olhar-te
tal quem pede
o direito de ter-te
dedilhar-te as pétalas
beijar-te o núcleo
delicado

percorrer-te caminhos
língua molhada
perdida no meio
bailar-te na boca
para descobrir
teu sorriso divertido.

Wasil Sacharuk

Canto triste



Canto triste

Eu sou a fera que mordeu o tratador
o bicho homem que do nada desistiu
eu sou o rio que comeu a ribanceira
sou a poeira que em teu olho fez pavio...

Sou primavera de aurora em tom sombrio
o lixo humano de esperança alvissareira
sou a vitória  que perdeu um desafio
 a  gravidade que despenca em corredeira

Sou a vingança que em poesia desespera
sou a hera que nasceu no mar bravio
o barco laico, o todo espaço,  o desvario
o mundo todo , uma saudade, um beijo frio

Eu sou a mágoa que irrompeu no teu amor
o choro seco que escondeu quando sorriu
o canto triste que ecoou em voz faceira
sou a porteira que fechou quando se abriu.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

TROVA LIVRE EXILADA



Aos bons tempos de Brincadeira com as letras... Decimar Biagini, o Poetinha Cruzaltense, Andréa Iunes & me

TROVA LIVRE EXILADA

só uma metade já serve
e eu cubro com uma cereja
hoje tudo pode
menos melacueca de pagode
ou ranço de guampa sertaneja. (WS)

Com pouca humildade,
mas pura substância
E castelhana sonoridade
exilou-se na estância
o verso do poeta cruzaltense (DB)

oh, poeta, não se enerve
é só chamar no ferve-ferve
e a parceria já verseja
a poesia dá o bote
alcança macia a sorte
da companhia benfazeja (Dhe)

imperioso talhe do nosso nariz
Quis caricaturar nossa parceria
Até livro contigo já fiz
Como quem rouba melancia
Posso dizer que já fui feliz (DB)

eu já tenho certeza
que quando penso forte
o tico fala ao norte
o teco responde ao sul
que a essa hora da noite
o céu já não é mais azul (WS)

Pobres poetas de sorte
cobertos de impassível amizade
A guaiaca já foi forte
em imbatível sincronismo de vaidades (DB)

melhor é deixar a correnteza
levar assim sem recorte
versos de alguma beleza
vindos do sul ou norte
espalhar delicadezas
por onde quer que toquem (Dhe)

Obscuros como pedrinhas
No fundo das àguas pesqueiras
Jogando com as marolinhas
Sem prever crises altaneiras (DB)

antes que as fontes sequem
liberamos as correntezas
comprei uma cachaça forte
deixei um copinho sofre a mesa
caso a gente se entorte
declamaremos de língua presa (WS)

Sentiremos os carvalhos
das águas batizadas
Sem as teclas de atalhos
que já andam consagradas
nos trucos de fakes e falsários (DB)

Dhenova, Wasil Sacharuk e Decimar Biagini

Nunca por engano

Dhenova


Nunca por engano

Quando o latido irrompe na madrugada
da janela, cinzentas luzes parcas
revelam o dia que está chegando
o sono não mostrou a cara
nem tampouco deu ânimo
letras são forjadas
talvez num desafio
nunca por engano

já sei que poesia
jamais é um engano

Quando os resquícios da noite acordada
pela tela, letras que dançam opacas
revelam que a noite está morrendo

nunca por engano.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Cu Virado

Cu Virado

mudo
o vento do verso
a rima da rosa
o cheiro da prosa
o rumo da oração
mudo
o verbo do intento
o inverso do insumo
a reta do rumo
a rota da opinião
mudo
o avesso da norma
a forma da rega
a liga da régua
a regra da pontuação
mudo
a metade de um terço
a sina penosa
a treva escabrosa
o ritmo da canção
mudo
o cérebro do invento
o disperso do prumo
a análise do resumo
a punheta de mão
mudo
a indefinição da forma
a massa da liga
a vingança da briga
a tônica da acentuação

Lena Ferreira e Wasil Sacharuk

poetisa Lena Ferreira

Incisiva e exclamada

Incisiva e exclamada

A loucura
que provoca teu beijo
é mãe do desejo
imerso em saliva
agridoce tortura

é poesia abstrata
de língua incisiva
e exclamada
dentro e fora

na hora
em que a ciência da vida
não vale mais nada.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas