patrocinador

wasil sacharuk - Deixo meus disfarces 2013

A razão dessa rima pobre

fotografia de Andréa Iunes


A razão dessa rima pobre

Renasci viramundo
no entorno estelar
e escolhi orbitar
pelo teu universo

rabisquei poucos versos
os rasguei tantas vezes

vaguei pelas ruas
a buscar a razão
que faz a rima pobre
da inevitável junção
de lua com nua
uma coisa assim
tão crua

há coisas que a noite insinua
e dessa rima eu gosto

e tu
não vais chorar
se eu
fechar meus olhos

quando eu
fechar meus olhos

há flores no inverno
que ainda brotam
pelos sons
pelos versos
de uma canção melosa

e quando o sol se pôr
espargir pétalas
da tua rosa
sobre as pedras

e tu
não vais chorar
se eu
fechar meus olhos

quando eu
fechar meus olhos.

Wasil Sacharuk

Sentimento Léxico





Sentimento léxico

O que fazer com essas palavras úmidas, agarradas aos lodos das paredes? elas escorregam esverdeando as paisagens ...
temo um temporal e todas elas amontoadas num ralo,
subitamente começarem a pedir socorro!

O que faço com letras que despencam pontacabeça ao chão de cimento
e se escondem junto às formigas, nas rachaduras amalgamadas no quintal, em sentenças, farejadas pelo cachorro?

O que faço eu com a glote, quando travada, as vírgulas e as aspas, começam todas a dançar ao som maquiavélico dos pontos? são as interrogações dos espantos...
enquanto os "is" assumem uma outra cabeça: exclamações!
O que fazer com as palavras, quando tão mastigadas, me fazem tossir?

O que fazer com martelo e bigorna soando poesias pelas ondas no ar
e repicam por todos os cantos? Recitam um verso dislexo, entre tantos
quando um ouvido apreende antes que o outro esqueça as emanações
O que faço com essas letras quando nascem fadadas a sentir?

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

Teu jardim

Teu jardim

vasculho teu meio
até o buraco
donde extraio coisas
para te refletir

te vejo de soslaio
teu lado mais fraco
de nuanças obtusas

ando no teu jardim
farejo odores
e cores singulares
sei do cheiro das flores
e da alma dos espinhos

teus cabelos crescem
misturados aos verdes
fazem rodamoinhos

gosto sim
do teu pequeno jardim
donde vertem
partículas de átomos.

Wasil Sacharuk

Não uses guardachuva


Se queres aqui estar, é isso o que importa. Qualquer sentido aguça a existência e, não fosse assim, inócuo seria viver.

Maculamos tudo o quanto tocamos, contestamos as verdades, não somos divinos e sequer divindades. 

Coisas divinas são precárias, não têm a semente de ser, são vazias de ser. Tal os deuses que, superiores, jamais foram nada

e habitam o universo dos mitos. São enigmas ou signos da farsa de existir para além do que aqui está.

Portanto te digo: Se fores à chuva, não te escondas.

compreendo pouco



passo parte dessa noite
espiando a lua
aguardando um balé

do corpo de baile
nada sei

Sei não

Sei não

Que sei eu da vida,
se a consciência revida
o que aqui se revela?
Dizem tanto que ela é bela
mas se há fome e morte
será que viver é sorte??

Sei não...

Há de se ir na contramão
andar capenga e a trote
fazer bolha e ferida
voltar de volta para a ida
fechar buracos do corte
antes que a vida esgote

Marisa Schmidt & Wasil Sacharuk


Quando ouviste da vida o chamado



Quando ouviste da vida o chamado

Invadiste poços profundos
que te seduzem
com águas bem doces
e teus braços
tão escassos
golpearam
as águas do nada
tal açoites

te fizeste poesia
sintonia fina
entre as águas atrevidas
fizeste ferida
para sangrar a matéria
transmutada deletéria

tu fizeste profecias
aprendeste a nadar
sem chão e sem ar
para entender as misérias
das vidas.

Wasil Sacharuk

Too too foo



Too too foo

Contigo vou até marte
se tivermos sorte
e que não crucifiquem
a mim
que te ouço bem
até no silencio

e quando penso...

ser a paz
ser amor
ser amor
será mar
será cor
não sei não

ser amar
ser calor
ser calor
será dar
será pôr
não sei não

ooh - ooh-ohh
ooh-ohh
ooh-ooh-ohh - ooh-ooh
ooh-ooh

sou um prisioneiro
da minha própria razão
eu quero estar
no controle
too too foo too too foo
e too too foo ooh ooh

e quando penso...

ser a paz
ser amor
ser amor
será mar
será cor
não sei não

ser amar
ser calor
ser calor
será dar
será pôr
não sei não

ooh - ooh-ohh
ooh-ohh
ooh-ooh-ohh - ooh-ooh
ooh-ooh

meu consolo é
poder voar contigo.

Wasil Sacharuk

Da melancolia, um opus para dançar

Da melancolia, um opus para dançar

quero perder contigo
na dança
o mister do tempo
as horas que passam
e as que não passam

quero saber na dança
afastar minhas ânsias
exorcizar pesadelos
aprender no teu ritmo
a balançar a aspereza
a inércia, a indelicadeza

me faças conduzir
no teu mistério
e da melancolia
façamos um opus
para dançar

a dança
que comigo danças
no dia sombrio
lá fora
se não chove
faz muito frio

quero ser guiado
pelos teus olhos
teu sorriso divertido
e escrever de improviso
nas nuvens da mente
versificar os lamentos

que me bailes
me ensines os movimentos
daquela árvore que dança
uma valsa com o vento

quero seguir as setas
essas que indicas
no canto da boca
para que eu perca
o compasso do tempo.

Wasil Sacharuk

Saudades aladas

Saudades aladas

Nos últimos sábados, duas abelhas adentram pela janela da cozinha, exatamente no horário em que sirvo o almoço.

Elas parecem ter feito amizade comigo e com meus filhos. Pousam na borda dos pratos, nos cabelos e sobrevoam em volta de nossas cabeças.

Hoje estou só, sem os filhos. Ainda assim, as abelhas vieram e, cada qual, pousou sobre uma de minhas pálpebras. Continuei almoçando devagar. Ficaram ali até que eu terminasse. Depois, uma decolou até a gola do meu casaco e a outra ficou passeando sobre o meu brinco.

Não fossem as abelhas, eu teria provado a melancolia do meu almoço solitário. Cheio de saudade doce.

Wasil Sacharuk

Também invento tempos

Também invento tempos

O que é intrigante
tal o silêncio?

é o tempo da vida
de uma palavra
ebulição da água
resposta a uma pergunta

o verbo sorrateiro
silencia o tempo

das palavras mudas
os tempos parados.

Wasil Sacharuk


Frida e as flores

Frida e as flores

Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Na linda primavera, as flores do campo emprestam tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre do passado generoso, quando havia a fartura do pasto. Agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a frágil casinha erguida na depressão da coxilha não a proteja mais das prováveis enxurradas.

----------------------------------

-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem. Ele será melhor do que tu, e não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pela sonolência. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para casa.

-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso deixá-la lá.

-Pois voltes para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois. Não posso e nem vou dar sustento a uma criança que não é minha.

Chico deixou o lar alguns meses antes e jamais mandou notícias. No rancho, deixou todos os seus pertences, como sinais de um retorno sem demora.

-Tenho saudade de Frida, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim. Gostamos de cultivar flores juntos, eu e minha menina linda. 

-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

----------------------------------

Erna, a mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano e levou consigo uma grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Tal o marido, antes de partir, disse à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e que, em breve, voltaria para casa. Calejada pelo trabalho no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e, também, dos dias de frio cortante.

Parada no passeio público, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo da sacola. Certifica-se de encontrar o que procura, mas o deixa onde está. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção ao quarto oito. Caminha determinada e introduz a mão direita na sacola.

Uma última revisão na notinha de papel e sua mão esquerda ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

----------------------

Frida sente mais esperança do que fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que do alto do morro se anuncie um retorno. Nos últimos dias, apenas faz ocupar a janela e cuidar amorosamente das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colheu na primavera passada e replantou num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Espera pela tempestade que se aproxima. Apenas espera que uma nova primavera devolva a vida que se consome no seu vasinho.

Wasil Sacharuk

Vértice


Vértice

Sei das esferas
tatuadas morenas
que se escondem
no teu céu violeta
a circundar as quimeras

e tuas pernas
se erguem ligeiras
e perfazem
um ângulo agudo
que calculo
setenta ou oitenta

nesse inverno
faz frio quando venta
e nuvens passageiras
me distraem
do meu mundo confuso
meus castelos de areia

e tuas pernas
se erguem ligeiras
e indicam
os meridianos
dos meus fusos

e perfazem
um ângulo agudo
no vértice dos versos

wasil sacharuk

A morte não é um clichê



A morte não é um clichê

Antes de mais nada, importa dizer que os familiares estavam inconsoláveis, de coração inundado de tanta tristeza. Alguns já estavam de olho na fortuna incalculável, afinal, as relações familiares são uma caixinha de surpresas. 

A capela onde ocorreu o velório estava literalmente tomada de amigos que distribuíram abraços calorosos aos entes queridos da falecida, provocando um ruído ensurdecedor.

Morreu de fato após um ataque fulminante que detonou o seu pobre coração. A morte é infalível e todos dizem que ela fez por merecer. Era pessoa de poucos amigos. Bem, para morrer basta estar vivo, já dizia o mestre. Agora jazia lá, com o olhar fixo no teto. 

Ela lança farpas para todos os lados, enquanto faz uma série de colocações infelizes com requintes de crueldade. Age sem pensar, a todo vapor. Gerar polêmica é sua especialidade, bate de frente com as pessoas, pois é uma fonte inesgotável de criar confusões e tecer duras críticas ao comportamento alheio. Contudo, na vida real, ela trabalha muito para suprir suas necessidades básicas e respirar aliviada.

Acumulou grande fortuna por meio da sua atuação impecável de importância vital, correndo por fora e tocando para frente seus projetos de avançada tecnologia. Seus negócios prosperaram do Oiapoque ao Chuí. Pelo trabalho incansável obteve estrondoso sucesso. Trilhando o caminho, se tornou uma líder carismática que sempre consegue indicar uma luz no fim do túnel. Todos agora lamentam pela carreira meteórica que a transformou numa vítima fatal do estresse cotidiano. Realmente, uma perda irreparável. Ela é um verdadeiro tesouro.

Mas, a pergunta que não quer calar é: por que é tão maledicente se, via de regra, tem todos os meios materiais para conquistar sua felicidade? O dinheiro pode preencher uma lacuna na sua existência. Apesar da conta bancária recheada, tem um coração frio que, a cada dia, sofre prejuízos incalculáveis. A vida pregou uma peça e lhe aplicou uma sonora vaia.

Mesmo estando todos visivelmente emocionados, intimamente sabem que a justiça tarda mas não falha. 


Wasil Sacharuk

mimese dos desadornos

Somos mimese
dos desadornos
alguns lua outros lâmpadas
outros rio alguns balde
as adversidades da estética

Amora Molhada

Amora Molhada

Sabes, Amora
eu deveria pensar
em não chover mais em ti
mas isso não importa
se usas guardachuva

Amora, não tenho capa
sequer uso luvas
saíram de moda

e se te incomoda
tu te apartas
dos pingos
te resguardas
no abrigo
se minha chuva
te molha

mas vai, vai Amora
leva a cadeira
e teu maldito
guardachuva
senta lá fora
sem roupas

mas naquela hora
amada Amora
eu bem sei
que tu ficas louca
se eu mergulho
nos teus olhos
em cântaros

Amora, vejo sóis
se chovo em tua boca

wasil sacharuk
Mell Shirley - "Amora Molhada" (Mell Shirley - Wasil Sacharuk)

Do grafismo na poesia


Do grafismo na poesia:

"Eu sei o que são ruínas"

significa:
eu já li sobre ou visitei alguma

"Eu SEI o que são ruínas"

significa:
Eu já estive em ruínas

Afinal, o que são ruínas?
Pedaços resistentes ao tempo?

Wasil Sacharuk

Nos versos plenos da mitologia

imagem: Agnieszka Lorek


Nos versos plenos da mitologia

Dia desses pensei ter visto Psiche
andando faceira por campos azuis
naquele instante fui encantado
e quis estar na alma de Eros

entretanto, hesitante
recolhi-me insignificante
aos domínios da poesia

lá, onde deuses são versos de amor
que entrelaçam rimas sem cor
e só são plenos na mitologia.

Wasil Sacharuk

Intento




Intento

Os significados são meus
os construí
segundo minha vontade
e somente a minha

o que sabes sobre meu intento?
pensas que são as linhas?
as palavras?
o que sabes dos meus olhos
quando tocam os teus?

se não sabes, não digas
os significados são meus

te sonhei como eu quis
até despencar do meu céu
e mergulhar no oceano
com minhas estranhas criaturas

e quando esqueceres
de adornar as palavras
apenas me digas o que sentes
e te entregarei meus significados.

Wasil Sacharuk

Entre rosas e açoites


Entre rosas e açoites

és água de Tales
princípio das coisas
e crua
dissipas matérias
em ideias nuas

qual germen
de um mundo estranho
feito de aliens
e coisas afins

habitas os confins
dos pensamentos
a textura do pó
do cimento
da areia
e diamante

és de um tipo formal delirante
que insurge poesia
e brota nas noites
entre os capins
as rosas
e os açoites
para habitar o meu dia.

Wasil Sacharuk

A palavra e o ponto

A palavra e o ponto

Eu que tateava
versos no escuro
sem os ver
agora os encontrava

dissolvidos na minha nudez
nos ouvidos da minha mudez
a palavra

e o ponto.

Wasil Sacharuk

Bailarina das Luas





Bailarina das luas

Dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espiritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicantes
dos teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
dos teus contornos
abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios
dos raios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia
e de escuridão

Certo dia
peguei tua mão
e gravei em tua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda

revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk

Dança no céu e escuta cores



Dança no céu e escuta cores

sempre sinto fome de vida
mas hoje sinto de amor
sinto fome de cor
de lua
de mel

daí procuro
olhando para o céu
no meio da rua

E tu
que tens um pássaro dentro de ti
que surpreendentemente ouve as cores
sabe

que tenho fome de uma presença
do tipo que dança no céu
e também escuta cores.

Wasil Sacharuk

Aquarelar-te



Aquarelar-te

te aquarelaria em tinta
diluída n'água
para desmanchar as cores
mescladas

faria luz dissolvida
de amarelos verdes azuis violetas
de vermelhos e magentas

em cores sem falta de cor

te aquarelaria em meu amor
para imprimir teu retrato
respingado e abstrato.

Wasil Sacharuk