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Regresso ao Olimpo



Regresso ao Olimpo

Homero e Hesíodo, os célebres poetas da Grécia Antiga, influenciados por elementos religiosos e culturais do oriente, organizaram uma fabulosa e vasta mitologia protagonizada por deuses e heróis. Na mitologia grega, os seres e as coisas originam-se das lutas, das uniões e dos vínculos fortuitos que envolvem as divindades do Olimpo. Sob a égide e o raio do poderoso Zeus, os carismáticos e excêntricos deuses são vivas representações de uma ordem sobrenatural de forças que sujeitam o devir humano, de forma a controlar, mesmo que deficientemente, o ânimo e a moral do cidadão grego. Contar histórias é o meio tradicional de educação moral e controle social utilizado na Grécia Antiga.

Os mitos são oriundos da faculdade criativa do espírito como representações das imagens mentais. Possibilitam o acesso ao ilimitado e profundo inconsciente, conjugando a existência humana ao divino. Valendo-se de representações iconográficas e de uma simbologia ancestral extraída do substrato comum da humanidade, o homem primitivo criou um imaginário com pretensões de refletir a gênese do mundo no qual estava inserido e sobre o qual desejava respostas. Dessa forma, o pensamento humano atribuía ordem e fundamento aos fenômenos naturais.

A vida, quando retratada em parábolas, geralmente exprime-se em oposição à verdade, no entanto, desde que considerada a validade moral e religiosa da narrativa, aproxima-se mais de uma relativa verdade do que da razão, como ocorre no dogmatismo. Assim, eis o mito reinvidicando sua autonomia ontológica e influenciando todo o simbolismo religioso ocidental.

Um mundo fantástico se revela na narrativa de caráter ora teogônico, ora cosmogônico, irretocavelmente pronunciada pelo poeta-rapsodo, orador grego digno do status de autoridade pela excelência de possuir informações advindas de pretensas fontes seguras. Como efeito dessa autoridade religiosa do narrador, o mito acata incondicionalmente o fabuloso incompreensível e contraditório.

As primeiras viagens pelo mar possibilitaram aos gregos alcançar terras longínquas que, conforme diziam os poetas, eram moradas dos deuses míticos. O encontro de meras vidas mortais, em tais lugares, abalou determinantemente a credibilidade do mito. A aristocracia que se servia deste para resguardar suas posses, encontrou-se então ameaçada. Acrescenta-se a isto, o crescimento do comércio, que habilitou novos cidadãos ao poder material, à opinião e à persuasão.

A óbvia falta de fundamentação do mito numa realidade palpável rendeu créditos ao antagonismo de diversos pensadores. Filosofia e política, originais criações do espírito grego vêm, então, organizar essa racionalidade emergente, de forma a suprir a urgência de um pensamento mais inteligível e compreensível. A filosofia remete o mito à categoria de simples forma atenuada de intelectualidade, passível de ser devidamente revista e recondicionada à racionalidade e à realidade urbana. Evidencia-se, assim, o gradativo afastamento da filosofia dos domínios do pensamento mítico.

Na cosmogênese pré-socrática, os seres não mais são concebidos como filhos das divindades, mas sim, das mais variadas combinações do fogo, da terra, da água e do ar. Logo após, Platão serve-se de elementos míticos, as alegorias, quando encontra dificuldades lingüísticas, recorrendo a estas como atalhos para a persuasão por meio de suposições. Entretanto, o filósofo considera-as contrárias aos critérios do pensamento racional. Conforme afirma Santo Agostinho, o patrístico, as alegorias são figuras que fornecem o entendimento de uma coisa através de outra coisa.

Em “A República”, Platão elabora um sistema moral ideal que substitui o legado homérico. A idéia do corajoso herói da mitologia cede lugar, na ordem social grega, ao guardião do estado-ideal, enquanto Zeus perde sua soberania para a sabedoria e a justiça que somente o rei-filósofo platônico pode oferecer. Mesmo tendo sido considerado utopia, a posteriori, o estado-ideal platônico inaugurou novos rumos políticos e sociais, distanciados do mito.

A autoridade filosófica está alicerçada na razão e não admite a incompreensão e a contradição, pois necessita cumprir regras racionais e lógicas, sobretudo após a sistematização aristotélica. Os poéticos eventos míticos, por sua vez, somente são considerados verdadeiros numa dimensão subjetiva. Um homem quando conectado a outros mundos, situa-se além do interesse da investigação filosófica. As funções e estruturas lógicas, fundamentais à filosofia, estão quase ausentes da mitologia, e as evidências e verdades não constituem suas especialidades e sequer são exigidas.

É praticamente impossível apreender o sentido vivo do mito sem, para tal, rejeitar parcialmente o foco racionalista ocidental, de forma a evitar o choque contra o preconceito e mal-entendidos. A estrutura formal presente nos mitos somente é capaz de fornecer um significado comum a conteúdos inconscientes, provenientes de homens, sociedades e culturas geograficamente distantes uns dos outros. Há, portanto, uma espécie de lógica nos mitos, que só é eficiente dentro da própria mitologia.

Uma amplitude de possibilidades interpretativas se descortina, validando o mito como um instrumento interativo para o autoconhecimento. Seja na luz ou nas trevas, o autoconhecimento é a causa elucidativa de existência humana. Em pleno envolvimento com os personagens míticos, o homem obtém o insight de seu dramático estado de vulnerabilidade frente às exigências do destino e da morte. Interiorizada pelo homem, essa fonte viva de autoconhecimento se revela uma entidade ativa. A história humana constitui o mito como um ponto de partida e sua conseqüência real, ou seja, como uma estrutura psicológica elementar do pensamento humano.

Raros são os sentimentos humanos que não tenham sido representados pela mitologia com sua configuração de inspiração espiritual. Desejo, paixão, sensualidade, sabedoria, honra e devoção operam no contexto mítico sem a pretensão de apreender a realidade, mas somente explorar possibilidades suprapessoais. Conforme Freud, o psicanalista, são os desejos insatisfeitos do homem que dão origem às fantasias.

O pensamento mítico engendra representações da imaginação para os padrões comportamentais do ser humano, aos quais denominamos arquétipos. Num nível interior e subjetivo, o homem experimenta o arquétipo ao longo da vida, promovendo suas transições de posturas frente à própria existência. Assim, a psicologia recupera o mito como aspecto inevitável e eterno, favorecendo um contraste esclarecedor com o presente. 

O aspecto imortal da humanidade identifica-se com a divindade. A eternidade e o mistério de ser são transcendentes a todas as categorias que envolvem a razão, e o mito funciona como um referencial dessa transcendência, tal como um software universal.

É impossível destacar a precisa origem do mito, pois ele parece ter permeado todos os tempos com seu imenso potencial criativo, preenchendo sutilmente um espaço entre a arbitrariedade e a fantasia. “O ser humano é o sacerdote da criação, um espaço onde o próprio universo pode tomar consciência de si mesmo”.(Teilhard de Chardin).

O pensamento mítico é um nível de realidade coincidente com a alma humana, ancestral presente do homem para o próprio homem, como um enigma existencial a ser decifrado pela eternidade.

Sacharuk