O VERDADEIRO, O ENTE E O INTELECTO EM TOMÁS DE AQUINO



O VERDADEIRO, O ENTE E O INTELECTO EM TOMÁS DE AQUINO


Na filosofia de Tomás de Aquino, há o defrontamento do verdadeiro com o ente. Em suas considerações acerca do verdadeiro, recorre à afirmação de Santo Agostinho:“O verdadeiro é aquilo que e". Se, então, aquilo que é é a verdade, e o conceito de cada ente está manifesto em sua própria definição, logo, aquilo que é só pode ser o ente. Dessa forma, o verdadeiro coincide com o ente, o qual é incompreensível quando fragmentado da verdade. Não há, portanto, diferenças que separam o ente do verdadeiro.

Se a verdade não coincidisse com o ente, seria apenas uma ordem deste, ordem esta que, por sua vez, o qualificaria como não-ente, e por conseguinte, não-verdadeiro.

Uma mesma disposição garante a equivalência entre o ente e o verdadeiro. “A disposição de uma coisa no ser é como a sua disposição na verdade ~~2·

O ente, por sua própria natureza, é verdadeiro, então, o verdadeiro e o ente são iguais em essência. Entretanto, são possíveis contraposições a essa afirmação de igualdade: No enunciado “um ente é verdadeiro”, os termos “ente” e “verdadeiro” não pretendem exprimir o mesmo significado. Numa outra argumentação contrária à igualdade, há a afirmação de que coisas que são anteriores diferem das que são posteriores, e tudo o que é possível afirmar acerca do ente, são predicados ou adições, e estes são certamente posteriores. Por conseguinte, ente e verdadeiro são, requisitando a validade desta argumentação, diferentes entre si.

Para Tomás de Aquino, o ente é a coisa mais conhecida a qual o intelecto pode perceber. Todas as possibilidades conceituais são perfeitamente predicáveis ao ente, e em cada uma delas, o ente exibe um modo diferenciado. Em cada grau conceitual, o ente exprime gêneros diversos de coisas.

Na alma do homem, Tomás de Aquino aponta uma faculdade apetitiva e outra cognoscitiva. Segundo Aristóteles, o bem é aquilo a que tendem todas as coisas., de forma que o termo “bem” está vinculado à faculdade apetitiva da alma. Então, todos os apetites tendem ao bem. O termo “verdadeiro”, por sua vez, é a expressão da concordância envolvendo o ente e a inteligência. O ente é correspondente ao intelecto por assemelhação entre o intelecto e o objeto. Assim ocorre a efetivação formal da verdade. O verdadeiro, vinculado à faculdade cognoscitiva da alma, é o resultado da abstração do intelecto sobre a coisa. Como o ente antecede a verdade, esta tem como efeito a cognição.

Sem a adição do verdadeiro, o ente é irreconhecível. O conhecimento acerca do ente corresponde à ação da inteligência sobre o mesmo. O verdadeiro acrescenta ao ente a concordância da coisa e a inteligência, logo, o verdadeiro é o ente que se revela e se explica. Há no conceito de verdadeiro, um algo a mais que não participa do conceito de ente.

O ente se encontra, primariamente, fora da inteligência, e é cognoscível através de sua imagem. A imagem do objeto movimenta o intelecto, o qual conhece o objeto e desperta a faculdade apetitiva da alma. Esta então, engendra o retorno do intelecto ao objeto em questão. Conforme Aristóteles, o verdadeiro e o falso não estão nas coisas, mas no intelecto.

Enquanto toda a realidade é verdadeira e expressa a forma própria de sua natureza, por necessidade, será verdadeiro o intelecto que a captura, na medida em que se assemelha com a coisa conhecida. O conhecimento da conformidade da coisa com o intelecto, significa o conhecimento da verdade.

A verdade revela-se na inteligência, no instante em que esta passa a possuir algo próprio. A coisa que existe fora da inteligência, não possui o conceito de verdade, pois este deriva da correspondência da coisa com o objeto da inteligência. A verdade é predicada anteriormente da inteligência que conhece, e só posteriormente é predicada com a coisa que concorra com a natureza formal da realidade. A coisa que está fora do intelecto, materializa-se como verdadeira, mediante o conhecimento da inteligência sobre a imagem ou a forma do objeto na alma.

O intelecto é dependente do conhecimento sensível, porém, é transcendente a este. O intelecto potencialmente abstrai a representação do sensível, agindo como uma luz espiritual da alma que ilumina o mundo sensível com a finalidade de conhecê-lo.

Na filosofia de Tomás de Aquino, o inteligível não é a representação das coisas, pois se assim fosse, esta levaria a inteligir sobre a inteligibilidade das coisas, e não ao conhecimento que corresponde a entes e não idéias. Entretanto, é somente através das imagens representativas que as coisas podem ser conhecidas, pois não há a possibilidade de coisas físicas adentrarem fisicamente num intelecto não-físico.

A verdade lógica não está exatamente nas coisas e nem mesmo no intelecto, mas sim, na correspondência entre coisa e intelecto. Essa correspondência ocorre pela assemelhação entre intelecto e coisa, através de um elemento portador de inteligibilidade, a imagem, a forma, a essência.

É pela evidência do conhecimento que o verdadeiro se revela à mente humana. Os conhecimentos não-evidentes, por sua vez, necessitam de demonstração, a posteriori.

Sacharuk