Deixando Galeno de lado



Deixando Galeno de lado

E eis que, vez por outra, a velha conhecida medicina é injustiçada pela mídia. Como se não bastasse a imagem pública de instituição autoritária salpicada de arrogância, agora deixa a bunda na janela e revela suas aberrações sociais. Apenas mais uma instituição a perder a legitimidade. O vivente precisa se entregar de corpo e bolso ao pediatra pedófilo, ao ginecologista estuprador e ao psiquiatra maluco.

E todos os dias, lá na fila do hospital, a criatura recolhe os próprios pedaços largado pelos corredores.

Aquela velha conhecida medicina que se comporta como uma instituição autoritária e arrogante está agora perdendo sua legitimidade. O cidadão está exausto de procurar socorro para sua saúde, sonhando com um atendimento médico mais humano e afetuoso, isto é, outro nível de bem-estar. Nossa medicina suplica por uma reforma de valores éticos e de relações que enfatizem o aspecto humano, adotando um novo modelo que realmente supra as necessidades do homem. 

Alguns médicos parecem habitar uma atmosfera particular e pretensiosamente superior, de onde avistam o sofrimento do humilde enfermo com certo ar desdenhoso e desumano. 

Há enfermos que saem dos consultórios se sentindo piores do que quando adentraram. A iatrogenia (doença causada pelo médico) é fato muito comum no nosso meio, porém, naturalmente ocultado pela permissividade cultural. Pessoas morrem tomando remédios prescritos para curar, e um frenesi intervencionista de exames e cirurgias questionáveis e de valores absurdos, são apenas parte de um conjunto de obscuridades e frieza que alimentam a desconfiança do paciente. Esta insatisfação ficaria reduzida se o paciente se sentisse tratado da maneira que merece e tem direito, ou seja, com mais respeito, atenção e, sobretudo, amor. A capacidade de amar ao próximo deveria ser pré-requisito para quem abraça a profissão de médico, pois quando o assunto é saúde, esperar por um atendimento amoroso não é querer demais.

Há médicos que se preocupam demais com as doenças e acabam esquecendo de quem estão tratando. Alguns ainda se prestam ao luxo de criticar as abordagens alternativas, as quais costumam se referir, pejorativamente, como curandeirismo. Os alternativistas, que confortam e respeitam as pessoas, sem travar oposição à hegemonia do modelo médico, revivem a saga dos curandeiros da Idade das Trevas, ardendo na fogueira do corporativismo médico. Os dons de cura, outrora classificados pela igreja como obra demoníaca, atualmente são tecnicamente taxados como efeito placebo. 

A homeopatia de Hahnemann, que valoriza mais a personalidade do doente do que a doença, mesmo sem ter conquistado a popularidade que merece, representa uma evolução, se comparada à ultrapassada medicina de Galeno que ainda considera a doença como algo material que deve ser combatida por meios materiais. Galeno, cortejado pela Escolástica, ficou sem entender nada de Hipócrates. 

Provavelmente essa despersonalização disfarçada em excessos técnicos, venha ao encontro de algumas conveniências mercantis, somadas à decrepitude do mecanicismo fragmentário de Descartes e Newton que, inexplicavelmente, insiste em vigorar: o corpo é uma máquina, a doença é uma peça quebrada e o médico é o técnico que pretende consertá-la. Esse modelo ainda influencia a atual prática da medicina, promovendo um rompimento com os valores humanos que fundamentam a tradição hipocrática. Tendo como mestre o sofista Protágoras, para o qual o homem é a medida de todas as coisas, o grego Hipócrates propunha uma visão holística (da totalidade) que considerava o homem como um ser dotado de corpo e espírito em plena interação com a natureza. 

O médico da antiguidade clássica era, antes de tudo, um filósofo. Para o Dr. Edward Bach, aquele dos remédios florais, “a doença é a somatização dos conflitos entre o espírito e o corpo físico do indivíduo”. 

O mecanicismo passou o bisturi na integralidade, à moda cartesiana, e formou médicos que sabem demais acerca de muito pouco e sabem muito pouco sobre o todo, isto é, especialistas em fragmentar a existência, que juram como Hipócrates e atuam como Galeno. Dessa forma, a medicina que hesita na conveniência de reagrupar os fragmentos, elegeu a alopatia como o objeto exterior à interação médico/paciente, ao qual seria transferida a responsabilidade da cura. Como um carrapato, a indústria farmacêutica se agarra a este nicho e controla a saúde do planeta, enquanto agride o organismo e o bolso dos enfermos com suas reações adversas. 

Naturalmente, as práticas não-invasivas de terapia começam a granjear seu espaço ao passo em que se livram do estigma de curandeirismo. Homeopatia, acupuntura, meditação e outras abordagens transpessoais, ganham suas oportunidades de aparecer como uma opção mais humana e barata, em meio ao caos da saúde. Esta medicina integrativa oferece riscos bem menores e maior suavidade para a manutenção da saúde, além de obter uma boa média de resultados satisfatórios. Trata-se de um novo paradigma cujo impacto permite ao homem lidar de forma mais respeitosa com sua própria vida. 

A visão holística observa o homem como um todo indivisível que não pode ser abordado somente em seu aspecto físico, psicológico ou espiritual. Todos esses são aspectos que estão interligados e interinfluentes num único homem, e, portanto, não podem ser considerados separadamente. 

Assim como Paracelsus e Hahnemann, o terapeuta holístico não valoriza a doença e se concentra no doente, considerando sua alimentação, suas relações, seu trabalho, etc. Mesmo numa consulta gratuita, o terapeuta holístico olha, ouve e trata seu paciente, numa abordagem sistêmica, próxima e afetuosa, que realmente faz a diferença! 

Paracelsus, aquele que queimou os livros de Galeno em praça pública, disse: “As universidades não ensinam tudo. Um médico deve procurar as parteiras, ciganas, feiticeiros, andarilhos e ladrões para aprender com eles”.

Saiba, seu doutor: como disse o gaúcho Nei Lisboa: para viajar no Cosmos não precisa gasolina! 

Sacharuk

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