Envolvente



Envolvente

O abraço do meu desejo
tem teu cheiro de cabelos
teu afago de braços
a leveza de ti
delicadeza de dedos.

Wasil Sacharuk

Botânico

Botânico

Me acho tão coisa
tal flores
nascem lindas coloridas
morrem secas
e mais belas

eis que a beleza
que o tempo empresta
remete à inexatidão de ser
e nada pode ser tão encantador

quero a fotografia das flores secas
onde vou imprimir minha palidez

Wasil Sacharuk

"Flores de Kemal", colhidas no facebook

Coruja



Coruja

Nem de Capitu
de Isaura sequer
de Helena nem cogito

olhos literários
brilham por querer
encantam emocionam
serão sempre bonitos

quero teu olhar de coruja
que na noite escura
ilumine o abismo infinito.

Wasil Sacharuk

Nesse Outono

Nesse Outono

Se eu te sol
Tu me chuvas?


Wasil Sacharuk



Aprendiz de Silêncios

Aprendiz de Silêncios

Me deixa quedar
no abismo das ânsias
para entender o luar
que ilumina
as distâncias

me ensina as nuanças
do silêncio que fala
e que não sei escutar
mas que preciso
mesmo que não o diga

que eu seja
aprendiz de silêncios

Me deixa fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas sinceras
uma a uma

Afaga as dores
acalma meus ventos

Me deixa ser rio
que te cerca
e que te tenta
a costear as vivências
dissolver as carências

me deixa descer
pelas tranças
e molhar teus cabelos
que voam fáceis

me deixa na luz
da tua lua
refletir tuas fases
rio de ondas lilases

talvez em mim você nade.

Wasil Sacharuk


Intertexto sem cor

Tela: Malcolm Liepke

Intertexto sem cor

Repenso palavras 
me travas 
e calas 
insana

invisto semanas 
me enganas  
reclamas 
tolices

disse sandices
me ouviste 
insistes 
apostas

busco respostas 
me emprestas
supostas 
virtudes

quero atitudes 
tu rude 
amiúde 
não gostas

se não me engano
disse Caetano
poeta baiano

"Ah bruta flor bruta flor"

falo de amor
escrevo intertexto
pretexto
pretenso
sem cor.

Wasil Sacharuk

Armadilhas do Ego



Armadilhas do ego

De longe eu reconheço passividade e passionalidade quando as vejo. Coisas tolas de homens tentando agir como tal. E encontro nesse mundo pessoas submissas à ação das causas exteriores e, constantemente, governadas por essas. Gente igual a mim.

O problema é que já no primeiro ano de vida somos vítimas do determinismo. Aqueles condicionamentos educacionais que nos são gentilmente ofertados formam, bem cedinho, o amálgama do sofrimento psíquico. Meu filho ajoelhe-se ao pé da cama e suplique ao papai do céu uma boa noite de sono e não esqueça de pedir que lhe permita ser feliz.

Como não bastasse, há, ainda, aquela sensação de abandono, separação, repressão emocional e uma comunicação familiar tão deficiente que confunde amor e ódio numa eterna contradição e faz o ego hesitar para encarar um processo doloroso de crescimento interior.

Os vínculos afetivos são marcados por uma áspera dependência – os vícios e as paixões – e se justificam nessa aflita carência de satisfação do vazio do ego, ensejando uma dinâmica existencial pouco capaz de subsistir, agir e pensar. 

Pensar que paixões e vícios não são exatamente bons e nem mesmo maus, já que são naturalmente oriundos de influências externas ao ser, parece que minimiza o problema. E viva o vício!

Romper este cárcere demanda uma libertação perseverante e gradativa das identificações do danado do ego. Entretanto, quando este percebe a ameaça do rompimento, invariavelmente aciona um complexo sistema de defesa munido de crítica, aversão, antipatia e ira, essas implacáveis armas da resistência. A queda desse sistema requer um pleno engajamento na trilha do autoconhecimento e da responsabilidade. Sim, isso mesmo, responsabilidade. Responderemos por nossas escolhas, porém, jamais deixaremos de escolher. .Cada equilibrado passo do caminho deve ter como norte algo bom e desinteressado. Esta é a garantia de uma existência livre e feliz.

Sacharuk

Regresso ao Olimpo



Regresso ao Olimpo

Homero e Hesíodo, os célebres poetas da Grécia Antiga, influenciados por elementos religiosos e culturais do oriente, organizaram uma fabulosa e vasta mitologia protagonizada por deuses e heróis. Na mitologia grega, os seres e as coisas originam-se das lutas, das uniões e dos vínculos fortuitos que envolvem as divindades do Olimpo. Sob a égide e o raio do poderoso Zeus, os carismáticos e excêntricos deuses são vivas representações de uma ordem sobrenatural de forças que sujeitam o devir humano, de forma a controlar, mesmo que deficientemente, o ânimo e a moral do cidadão grego. Contar histórias é o meio tradicional de educação moral e controle social utilizado na Grécia Antiga.

Os mitos são oriundos da faculdade criativa do espírito como representações das imagens mentais. Possibilitam o acesso ao ilimitado e profundo inconsciente, conjugando a existência humana ao divino. Valendo-se de representações iconográficas e de uma simbologia ancestral extraída do substrato comum da humanidade, o homem primitivo criou um imaginário com pretensões de refletir a gênese do mundo no qual estava inserido e sobre o qual desejava respostas. Dessa forma, o pensamento humano atribuía ordem e fundamento aos fenômenos naturais.

A vida, quando retratada em parábolas, geralmente exprime-se em oposição à verdade, no entanto, desde que considerada a validade moral e religiosa da narrativa, aproxima-se mais de uma relativa verdade do que da razão, como ocorre no dogmatismo. Assim, eis o mito reinvidicando sua autonomia ontológica e influenciando todo o simbolismo religioso ocidental.

Um mundo fantástico se revela na narrativa de caráter ora teogônico, ora cosmogônico, irretocavelmente pronunciada pelo poeta-rapsodo, orador grego digno do status de autoridade pela excelência de possuir informações advindas de pretensas fontes seguras. Como efeito dessa autoridade religiosa do narrador, o mito acata incondicionalmente o fabuloso incompreensível e contraditório.

As primeiras viagens pelo mar possibilitaram aos gregos alcançar terras longínquas que, conforme diziam os poetas, eram moradas dos deuses míticos. O encontro de meras vidas mortais, em tais lugares, abalou determinantemente a credibilidade do mito. A aristocracia que se servia deste para resguardar suas posses, encontrou-se então ameaçada. Acrescenta-se a isto, o crescimento do comércio, que habilitou novos cidadãos ao poder material, à opinião e à persuasão.

A óbvia falta de fundamentação do mito numa realidade palpável rendeu créditos ao antagonismo de diversos pensadores. Filosofia e política, originais criações do espírito grego vêm, então, organizar essa racionalidade emergente, de forma a suprir a urgência de um pensamento mais inteligível e compreensível. A filosofia remete o mito à categoria de simples forma atenuada de intelectualidade, passível de ser devidamente revista e recondicionada à racionalidade e à realidade urbana. Evidencia-se, assim, o gradativo afastamento da filosofia dos domínios do pensamento mítico.

Na cosmogênese pré-socrática, os seres não mais são concebidos como filhos das divindades, mas sim, das mais variadas combinações do fogo, da terra, da água e do ar. Logo após, Platão serve-se de elementos míticos, as alegorias, quando encontra dificuldades lingüísticas, recorrendo a estas como atalhos para a persuasão por meio de suposições. Entretanto, o filósofo considera-as contrárias aos critérios do pensamento racional. Conforme afirma Santo Agostinho, o patrístico, as alegorias são figuras que fornecem o entendimento de uma coisa através de outra coisa.

Em “A República”, Platão elabora um sistema moral ideal que substitui o legado homérico. A idéia do corajoso herói da mitologia cede lugar, na ordem social grega, ao guardião do estado-ideal, enquanto Zeus perde sua soberania para a sabedoria e a justiça que somente o rei-filósofo platônico pode oferecer. Mesmo tendo sido considerado utopia, a posteriori, o estado-ideal platônico inaugurou novos rumos políticos e sociais, distanciados do mito.

A autoridade filosófica está alicerçada na razão e não admite a incompreensão e a contradição, pois necessita cumprir regras racionais e lógicas, sobretudo após a sistematização aristotélica. Os poéticos eventos míticos, por sua vez, somente são considerados verdadeiros numa dimensão subjetiva. Um homem quando conectado a outros mundos, situa-se além do interesse da investigação filosófica. As funções e estruturas lógicas, fundamentais à filosofia, estão quase ausentes da mitologia, e as evidências e verdades não constituem suas especialidades e sequer são exigidas.

É praticamente impossível apreender o sentido vivo do mito sem, para tal, rejeitar parcialmente o foco racionalista ocidental, de forma a evitar o choque contra o preconceito e mal-entendidos. A estrutura formal presente nos mitos somente é capaz de fornecer um significado comum a conteúdos inconscientes, provenientes de homens, sociedades e culturas geograficamente distantes uns dos outros. Há, portanto, uma espécie de lógica nos mitos, que só é eficiente dentro da própria mitologia.

Uma amplitude de possibilidades interpretativas se descortina, validando o mito como um instrumento interativo para o autoconhecimento. Seja na luz ou nas trevas, o autoconhecimento é a causa elucidativa de existência humana. Em pleno envolvimento com os personagens míticos, o homem obtém o insight de seu dramático estado de vulnerabilidade frente às exigências do destino e da morte. Interiorizada pelo homem, essa fonte viva de autoconhecimento se revela uma entidade ativa. A história humana constitui o mito como um ponto de partida e sua conseqüência real, ou seja, como uma estrutura psicológica elementar do pensamento humano.

Raros são os sentimentos humanos que não tenham sido representados pela mitologia com sua configuração de inspiração espiritual. Desejo, paixão, sensualidade, sabedoria, honra e devoção operam no contexto mítico sem a pretensão de apreender a realidade, mas somente explorar possibilidades suprapessoais. Conforme Freud, o psicanalista, são os desejos insatisfeitos do homem que dão origem às fantasias.

O pensamento mítico engendra representações da imaginação para os padrões comportamentais do ser humano, aos quais denominamos arquétipos. Num nível interior e subjetivo, o homem experimenta o arquétipo ao longo da vida, promovendo suas transições de posturas frente à própria existência. Assim, a psicologia recupera o mito como aspecto inevitável e eterno, favorecendo um contraste esclarecedor com o presente. 

O aspecto imortal da humanidade identifica-se com a divindade. A eternidade e o mistério de ser são transcendentes a todas as categorias que envolvem a razão, e o mito funciona como um referencial dessa transcendência, tal como um software universal.

É impossível destacar a precisa origem do mito, pois ele parece ter permeado todos os tempos com seu imenso potencial criativo, preenchendo sutilmente um espaço entre a arbitrariedade e a fantasia. “O ser humano é o sacerdote da criação, um espaço onde o próprio universo pode tomar consciência de si mesmo”.(Teilhard de Chardin).

O pensamento mítico é um nível de realidade coincidente com a alma humana, ancestral presente do homem para o próprio homem, como um enigma existencial a ser decifrado pela eternidade.

Sacharuk

Sobre o Belo



Sobre o Belo

Sócrates disse: “enquanto o homem conservar a menor porção que seja da coisa chamada razão, será totalmente incompetente para produzir poesia”.

Enquanto isso, a velha ditadura da razão a tudo pretende analisar, e o ego, dedicado companheiro, apela à tirania em defesa de um confuso status quo.

No ponto crítico da cadeia dos acontecimentos, a razão e o ego do artista cedem espaço e, nessa oportunidade, o processo criativo entra em cena protagonizando uma nova dinâmica de eventos. A consciência , então, transcende preconceitos, dogmas e a consistência definidora das coisas.

Nos profundos domínios do inconsciente, conteúdos doravante bloqueados ou banidos encontram-se agora passivos do “desvelamento e desvendamento da verdade” como propõe Heidegger. 

Pensamentos diferenciados, ora tímidos ou desconexos, ora expressos numa imagem distorcida e nebulosa, são prontamente capturados. Entremeados pelas correntes intelecções, insights apagam-se precocemente se não forem iluminados pelo foco da percepção. Tudo flui numa rapidez desconcertante e não resiste a novas incursões mentais. Aos poucos o processo torna-se evidente, facilitando “um vir a ser do que nunca antes existiu” (Merleau-Ponty).

Uma dedicada concentração focaliza a luz difusa do flash mental, intensificando a sensação de presença do estético que há nas mensagens interiores. O insight preenche imperceptíveis vazios entre os espaços, sem jamais interromper o fluxo do pensamento. Da inusitada e imediata percepção do belo, manifestam-se claras e inimagináveis revelações de plena inspiração criativa.

Como um relâmpago divino, fiat lux, a sensorial musa ilumina o despertar da poética criatividade que funde o singular e o universal em palavras e formas.



Wasil Sacharuk

Deixando Galeno de lado



Deixando Galeno de lado

E eis que, vez por outra, a velha conhecida medicina é injustiçada pela mídia. Como se não bastasse a imagem pública de instituição autoritária salpicada de arrogância, agora deixa a bunda na janela e revela suas aberrações sociais. Apenas mais uma instituição a perder a legitimidade. O vivente precisa se entregar de corpo e bolso ao pediatra pedófilo, ao ginecologista estuprador e ao psiquiatra maluco.

E todos os dias, lá na fila do hospital, a criatura recolhe os próprios pedaços largado pelos corredores.

Aquela velha conhecida medicina que se comporta como uma instituição autoritária e arrogante está agora perdendo sua legitimidade. O cidadão está exausto de procurar socorro para sua saúde, sonhando com um atendimento médico mais humano e afetuoso, isto é, outro nível de bem-estar. Nossa medicina suplica por uma reforma de valores éticos e de relações que enfatizem o aspecto humano, adotando um novo modelo que realmente supra as necessidades do homem. 

Alguns médicos parecem habitar uma atmosfera particular e pretensiosamente superior, de onde avistam o sofrimento do humilde enfermo com certo ar desdenhoso e desumano. 

Há enfermos que saem dos consultórios se sentindo piores do que quando adentraram. A iatrogenia (doença causada pelo médico) é fato muito comum no nosso meio, porém, naturalmente ocultado pela permissividade cultural. Pessoas morrem tomando remédios prescritos para curar, e um frenesi intervencionista de exames e cirurgias questionáveis e de valores absurdos, são apenas parte de um conjunto de obscuridades e frieza que alimentam a desconfiança do paciente. Esta insatisfação ficaria reduzida se o paciente se sentisse tratado da maneira que merece e tem direito, ou seja, com mais respeito, atenção e, sobretudo, amor. A capacidade de amar ao próximo deveria ser pré-requisito para quem abraça a profissão de médico, pois quando o assunto é saúde, esperar por um atendimento amoroso não é querer demais.

Há médicos que se preocupam demais com as doenças e acabam esquecendo de quem estão tratando. Alguns ainda se prestam ao luxo de criticar as abordagens alternativas, as quais costumam se referir, pejorativamente, como curandeirismo. Os alternativistas, que confortam e respeitam as pessoas, sem travar oposição à hegemonia do modelo médico, revivem a saga dos curandeiros da Idade das Trevas, ardendo na fogueira do corporativismo médico. Os dons de cura, outrora classificados pela igreja como obra demoníaca, atualmente são tecnicamente taxados como efeito placebo. 

A homeopatia de Hahnemann, que valoriza mais a personalidade do doente do que a doença, mesmo sem ter conquistado a popularidade que merece, representa uma evolução, se comparada à ultrapassada medicina de Galeno que ainda considera a doença como algo material que deve ser combatida por meios materiais. Galeno, cortejado pela Escolástica, ficou sem entender nada de Hipócrates. 

Provavelmente essa despersonalização disfarçada em excessos técnicos, venha ao encontro de algumas conveniências mercantis, somadas à decrepitude do mecanicismo fragmentário de Descartes e Newton que, inexplicavelmente, insiste em vigorar: o corpo é uma máquina, a doença é uma peça quebrada e o médico é o técnico que pretende consertá-la. Esse modelo ainda influencia a atual prática da medicina, promovendo um rompimento com os valores humanos que fundamentam a tradição hipocrática. Tendo como mestre o sofista Protágoras, para o qual o homem é a medida de todas as coisas, o grego Hipócrates propunha uma visão holística (da totalidade) que considerava o homem como um ser dotado de corpo e espírito em plena interação com a natureza. 

O médico da antiguidade clássica era, antes de tudo, um filósofo. Para o Dr. Edward Bach, aquele dos remédios florais, “a doença é a somatização dos conflitos entre o espírito e o corpo físico do indivíduo”. 

O mecanicismo passou o bisturi na integralidade, à moda cartesiana, e formou médicos que sabem demais acerca de muito pouco e sabem muito pouco sobre o todo, isto é, especialistas em fragmentar a existência, que juram como Hipócrates e atuam como Galeno. Dessa forma, a medicina que hesita na conveniência de reagrupar os fragmentos, elegeu a alopatia como o objeto exterior à interação médico/paciente, ao qual seria transferida a responsabilidade da cura. Como um carrapato, a indústria farmacêutica se agarra a este nicho e controla a saúde do planeta, enquanto agride o organismo e o bolso dos enfermos com suas reações adversas. 

Naturalmente, as práticas não-invasivas de terapia começam a granjear seu espaço ao passo em que se livram do estigma de curandeirismo. Homeopatia, acupuntura, meditação e outras abordagens transpessoais, ganham suas oportunidades de aparecer como uma opção mais humana e barata, em meio ao caos da saúde. Esta medicina integrativa oferece riscos bem menores e maior suavidade para a manutenção da saúde, além de obter uma boa média de resultados satisfatórios. Trata-se de um novo paradigma cujo impacto permite ao homem lidar de forma mais respeitosa com sua própria vida. 

A visão holística observa o homem como um todo indivisível que não pode ser abordado somente em seu aspecto físico, psicológico ou espiritual. Todos esses são aspectos que estão interligados e interinfluentes num único homem, e, portanto, não podem ser considerados separadamente. 

Assim como Paracelsus e Hahnemann, o terapeuta holístico não valoriza a doença e se concentra no doente, considerando sua alimentação, suas relações, seu trabalho, etc. Mesmo numa consulta gratuita, o terapeuta holístico olha, ouve e trata seu paciente, numa abordagem sistêmica, próxima e afetuosa, que realmente faz a diferença! 

Paracelsus, aquele que queimou os livros de Galeno em praça pública, disse: “As universidades não ensinam tudo. Um médico deve procurar as parteiras, ciganas, feiticeiros, andarilhos e ladrões para aprender com eles”.

Saiba, seu doutor: como disse o gaúcho Nei Lisboa: para viajar no Cosmos não precisa gasolina! 

Sacharuk

Flores para os conflitos

Como viver a dois pode ser tão magnificamente complicado e interessante? Esse questionamento reina por aí desde que me conheço por gente. E nenhum vivente responde a contento. 



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Flores para os conflitos

Com freqüência sabemos de relações que se romperam, em escala maior, se comparadas às que se mantiveram. As influências externas aos relacionamentos são gigantes e, cada vez mais, restringem severamente os nossos espaços. E, impassíveis diante de tal ameaça, travamos batalhas desesperadas e intolerantes buscando a proteção que julgamos precisar. Os rompimentos são prováveis. E ainda, carentes do autoconhecimento, erguemos barreiras intransponíveis que impedem a expressão da natureza amorosa. Daí, expressamos as rotineiras preocupações e frustrações, e assim, para garantir a sobrevivência, somos mais individualistas. Não ofertamos, então, aquela dedicação que os amados merecem, e passamos a julga-los como pedras no caminho. 

É aceitável que na busca pelo autoconhecimento, umas doses e outras de individualismo são necessárias, porém, não justificam o simples e tolo ato de alimentar o ego às custas do sofrimento alheio. 

Precisamos aprender a ocupar sabiamente os espaços. Eis o revolucionário objetivo da vida a dois. Reciprocidade é fundamental e, numa certa altura, os dois estarão compondo uma união equilibrada que tende para a harmonia e não comporta disputas (you say yes, i say no!).

Contudo, os conflitos oriundos das perspectivas e expectativas individuais são inevitáveis. Não raro, o parceiro espelha aquilo que o autoconhecimento cobra. Somente no exercício do amor e da amizade que essa jornada íntima pode ser desencadeada de forma agradável e harmoniosa. Fortalecer os laços que unem, contrapõe o individualismo egoísta.

As explosões de razão, detonadas num campo vazio de sentimentos, condenam bons relacionamentos a conclusões indesejáveis. Assim, vamos tentar ser honestos o bastante para trilhar um caminho florido, descobrindo espaços inexplorados na intimidade, para seguir em frente... sem pisar nas flores.

(Sacharuk – Diário Popular Pelotas – 2001)

O VERDADEIRO, O ENTE E O INTELECTO EM TOMÁS DE AQUINO



O VERDADEIRO, O ENTE E O INTELECTO EM TOMÁS DE AQUINO


Na filosofia de Tomás de Aquino, há o defrontamento do verdadeiro com o ente. Em suas considerações acerca do verdadeiro, recorre à afirmação de Santo Agostinho:“O verdadeiro é aquilo que e". Se, então, aquilo que é é a verdade, e o conceito de cada ente está manifesto em sua própria definição, logo, aquilo que é só pode ser o ente. Dessa forma, o verdadeiro coincide com o ente, o qual é incompreensível quando fragmentado da verdade. Não há, portanto, diferenças que separam o ente do verdadeiro.

Se a verdade não coincidisse com o ente, seria apenas uma ordem deste, ordem esta que, por sua vez, o qualificaria como não-ente, e por conseguinte, não-verdadeiro.

Uma mesma disposição garante a equivalência entre o ente e o verdadeiro. “A disposição de uma coisa no ser é como a sua disposição na verdade ~~2·

O ente, por sua própria natureza, é verdadeiro, então, o verdadeiro e o ente são iguais em essência. Entretanto, são possíveis contraposições a essa afirmação de igualdade: No enunciado “um ente é verdadeiro”, os termos “ente” e “verdadeiro” não pretendem exprimir o mesmo significado. Numa outra argumentação contrária à igualdade, há a afirmação de que coisas que são anteriores diferem das que são posteriores, e tudo o que é possível afirmar acerca do ente, são predicados ou adições, e estes são certamente posteriores. Por conseguinte, ente e verdadeiro são, requisitando a validade desta argumentação, diferentes entre si.

Para Tomás de Aquino, o ente é a coisa mais conhecida a qual o intelecto pode perceber. Todas as possibilidades conceituais são perfeitamente predicáveis ao ente, e em cada uma delas, o ente exibe um modo diferenciado. Em cada grau conceitual, o ente exprime gêneros diversos de coisas.

Na alma do homem, Tomás de Aquino aponta uma faculdade apetitiva e outra cognoscitiva. Segundo Aristóteles, o bem é aquilo a que tendem todas as coisas., de forma que o termo “bem” está vinculado à faculdade apetitiva da alma. Então, todos os apetites tendem ao bem. O termo “verdadeiro”, por sua vez, é a expressão da concordância envolvendo o ente e a inteligência. O ente é correspondente ao intelecto por assemelhação entre o intelecto e o objeto. Assim ocorre a efetivação formal da verdade. O verdadeiro, vinculado à faculdade cognoscitiva da alma, é o resultado da abstração do intelecto sobre a coisa. Como o ente antecede a verdade, esta tem como efeito a cognição.

Sem a adição do verdadeiro, o ente é irreconhecível. O conhecimento acerca do ente corresponde à ação da inteligência sobre o mesmo. O verdadeiro acrescenta ao ente a concordância da coisa e a inteligência, logo, o verdadeiro é o ente que se revela e se explica. Há no conceito de verdadeiro, um algo a mais que não participa do conceito de ente.

O ente se encontra, primariamente, fora da inteligência, e é cognoscível através de sua imagem. A imagem do objeto movimenta o intelecto, o qual conhece o objeto e desperta a faculdade apetitiva da alma. Esta então, engendra o retorno do intelecto ao objeto em questão. Conforme Aristóteles, o verdadeiro e o falso não estão nas coisas, mas no intelecto.

Enquanto toda a realidade é verdadeira e expressa a forma própria de sua natureza, por necessidade, será verdadeiro o intelecto que a captura, na medida em que se assemelha com a coisa conhecida. O conhecimento da conformidade da coisa com o intelecto, significa o conhecimento da verdade.

A verdade revela-se na inteligência, no instante em que esta passa a possuir algo próprio. A coisa que existe fora da inteligência, não possui o conceito de verdade, pois este deriva da correspondência da coisa com o objeto da inteligência. A verdade é predicada anteriormente da inteligência que conhece, e só posteriormente é predicada com a coisa que concorra com a natureza formal da realidade. A coisa que está fora do intelecto, materializa-se como verdadeira, mediante o conhecimento da inteligência sobre a imagem ou a forma do objeto na alma.

O intelecto é dependente do conhecimento sensível, porém, é transcendente a este. O intelecto potencialmente abstrai a representação do sensível, agindo como uma luz espiritual da alma que ilumina o mundo sensível com a finalidade de conhecê-lo.

Na filosofia de Tomás de Aquino, o inteligível não é a representação das coisas, pois se assim fosse, esta levaria a inteligir sobre a inteligibilidade das coisas, e não ao conhecimento que corresponde a entes e não idéias. Entretanto, é somente através das imagens representativas que as coisas podem ser conhecidas, pois não há a possibilidade de coisas físicas adentrarem fisicamente num intelecto não-físico.

A verdade lógica não está exatamente nas coisas e nem mesmo no intelecto, mas sim, na correspondência entre coisa e intelecto. Essa correspondência ocorre pela assemelhação entre intelecto e coisa, através de um elemento portador de inteligibilidade, a imagem, a forma, a essência.

É pela evidência do conhecimento que o verdadeiro se revela à mente humana. Os conhecimentos não-evidentes, por sua vez, necessitam de demonstração, a posteriori.

Sacharuk

Carta à Imobiliária Incompetente

Carta à Imobiliária Incompetente         

Em virtude de nossos fiadores, do contrato de locação do imóvel sito à rua Lobo da Costa 169/1A, em Pelotas RS, terem sido perturbados em seu descanso, através de um contato telefônico advindo desta imobiliária, resolvemos acerca da necessidade dessa carta.
            O contato telefônico, acima mencionado, ocorrido no dia 19 de abril de 2005, alertava quanto a fatos que julgamos falsos e infundados, sobre os quais exigimos formalização. Tais fatos referem-se ao desrespeito ao horário de silêncio ou desobediência à lei da boa vizinhança.
            Quanto ao aludido, expressamos aqui nosso posicionamento no sentido de desconhecer a evidência de tais acusações, já que, em momento algum, fomos notificados pela segurança pública ou mesmo por intervenções de vizinhos quanto a quaisquer excessos de comportamento de nossa parte,  moradores do imóvel supracitado. Segundo afirmado por essa imobiliária, os excessos relacionam-se à execução de som, por meio de instrumentos musicais (teclado, guitarras, violinos, etc.) e festas freqüentes durante a semana.
            Declaramos que não possuímos nenhum dos instrumentos musicais referidos e também não proporcionamos festas, visto que as dimensões do imóvel locado não são propícias para tanto, sequer suportam mais do que duas pessoas que tendem a movimentar-se livremente. Portanto, seria impossível manter convidados e muito menos uma orquestra na residência. Assim, confessamos nosso imenso interesse em saber os motivos de tais denúncias, já que, professores que somos, poderíamos auxiliar o denunciante no desenvolvimento de seus processos culturais e educacionais. Solicitamos, dessa forma, a formalização das denúncias para que possamos tomar as medidas cabíveis.
            Quanto à ameaça de despejo, proferida por essa imobiliária, parece não estar fundamentada na legislação brasileira, ou mesmo em qualquer outro lugar do mundo, visto que as acusações são improcedentes e impertinentes. Os pagamentos das mensalidades ocorreram infalivelmente até o dia de suas datas de vencimento, expressando o cumprimento de nossa parte no referido contrato. Outrossim, pensamos que o papel dessa imobiliária deveria ser o de administrar a estrutura física do imóvel, que deixa imensamente a desejar e não corresponde aos valores absurdos fixados no contrato de locação. Um pretenso despejo poderia até mesmo ser a solução para a nossa decepção com o imóvel e com os serviços a ele pertinentes.
            Recebemos, em dezembro de 2004, uma notificação dessa imobiliária, ameaçando cobrança de multa por excessos no volume de som e outros ruídos. Primeiramente gostaríamos de saber o que querem dizer com “outros ruídos”. Também confessamos não tomar conhecimento do fato de ter locado um imóvel vinculado a um condomínio, já que não recebemos nenhuma cópia da convenção e não usufruímos os serviços de administração que são comuns a imóveis vinculados a condomínios. Portanto, solicitamos esclarecimentos acerca da legalidade de tal multa.
            Como essa imobiliária, desta feita, demonstrou interesse na nossa situação de inquilinos, aproveitamos o raro ensejo para solicitar providências quanto a infra-estrutura do imóvel e a nossa relação comercial:
a)    a fiação elétrica, em péssimo estado de conservação e qualidade duvidosa, está exposta à chuva desde o início do nosso contrato, provocando, quando chove, pequenas explosões. Em três oportunidades solicitamos o reparo. Na terceira, o eletricista de nome Danilo, enviado por essa imobiliária, fez uma avaliação das avarias e pensou ter consertado tudo com duas voltas de fita isolante, procedimento este que se revelou insatisfatório e contrário às normas da ABNT. A avaria continua sendo uma ameaça de incêndio ou algo parecido;
b)    já que mencionamos a possibilidade de incêndio, solicitamos também cópias dos recibos do seguro contra incêndio, que pagamos religiosamente e aos quais temos direito;
c)    solicitamos uma cópia válida do habite-se da residência, visto que, em certo momento, ao solicitarmos a intervenção da empresa de saneamento da cidade, não fomos atendidos sob o pretexto da inexistência do cadastro do imóvel junto ao SANEP;
d)    gostaríamos de saber o motivo pelo qual o fornecimento de água, desde o início desse contrato de locação, fica escasso das onze até as quatorze horas. Interpelamos a empresa de fornecimento de água e esta afirmou estar tudo certo, sem motivos aparentes para esse corte no fornecimento.  Concluímos que tal fato possa ser devido à pequena capacidade da caixa de água, que, de forma incompreensível, atende ao fornecimento de água a alguns imóveis da vizinhança;
e)    tentamos fazer uma limpeza na caixa de água, como deve ser periodicamente feito, e fomos impedidos por vizinhos, que afirmam ser este um problema da imobiliária. Se é verdade, por favor, procedam, pois a água já está quase tão suja quanto à área que é comum aos moradores vizinhos;
f)     a pintura nas paredes do imóvel está caindo, não sabemos se por baixa qualidade da tinta utilizada ou das próprias paredes. Certamente, ao término do contrato de locação, a imobiliária exigirá perfeição das paredes, o que é humanamente impossível. Estejam à vontade para verificar;
g)    mais de uma vez, solicitamos providências quanto ao esgoto aberto e escoamento de água suja pela área comum. O mau cheiro é insuportável e a proliferação de ratos e baratas é imensa. Precisamos urgentemente de um sistema de esgotos que funcione o mínimo possível;
h)   não encontramos o medidor do consumo de água do imóvel, e, dessa forma, não temos como verificar e controlar o nosso consumo. Solicitamos que esta imobiliária o encontre para nós e, também, a gentileza de nos enviar as cópias dos recibos de pagamento do fornecimento de água, desde o início do contrato de locação;
i)     desde a primeira semana do contrato, solicitamos, agora pela quarta vez, que solucionem o problema das goteiras do telhado do imóvel. Gostaríamos de ser atendidos, visto que é anormal pagar o aluguel de uma casa que não abriga da chuva.

No intuito de encontrar soluções para os problemas expressos por ambas as partes, pedimos a elegância do atendimento às questões acima mencionadas como uma forma de dirimir quaisquer diferenças de posicionamento e, também, como uma oportunidade para esta conceituada empresa tomar consciência do seu verdadeiro papel na administração dos bens e serviços que comercializa.
Quanto às acusações de desrespeito às leis da boa vizinhança, solicitamos, mais uma vez,  a formalização da queixa junto aos órgãos a quem realmente competem tais providências.

Sem mais,

O Inquilino Indignado


Wasil Sacharuk

Hoje Rebeca fez... (I)



Hoje Rebeca fez... (I)

Hoje Rebeca fez
um pacto de amizade
e foi para valer
pois Rebeca quer ter
somente amigos de verdade

Com a nova amiga
Rebeca não quer briga
e fica muito à vontade
até sente saudade
quando estão separadas

Hoje estão encantadas
com a nova possibilidade
dessa nova amizade:

dividir boas risadas
e amar com sinceridade.

Wasil Sacharuk