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Via crucis

Via crucis                                                                                                                                                                                           
Antes de abrir a porta, sabia dos estragos no tapete da sala, das luzes apagadas e do perfume barato. Queria girar a chave, entrar e se manter acordado, queria não ouvir passos.

Andréa Iunes

Tu entraste e fechaste a porta por dentro, enlaçaste as tramelas de ferro. E havia, naquela parede, a réplica da santa ceia... foi para ela que olhaste... e para mais nada. Andaste seis passos até a poltrona e sentaste. Fechaste os olhos... esperaste.

Certo dia mencionaste que entendes a morte tal artífice do improviso e que se veste de tipos diferenciados para livremente ceifar as tolas cabeças. Decerto ela guarda, no mínimo, um par de mistérios: o de fazer desfilar num espelho a esteira das ações, com os deletérios, subtrações; e o de saber o oriente das curvas que indicam os portais do inferno.

Dormiste e sonhaste com uma dúzia de abutres famintos pousando sobre o tapete. Um deles, mais furioso, bicava teus pés e tuas mãos... e depois espargiu suas garras atrozes sobre a tua cabeça.

Quando acordaste os policiais já estavam aqui. Te forçaram a carregar o corpo até o final da rua, até a viatura da central de homicídios que nos aguardava.

Depois, tu bem sabes, eu entrei novamente na tua história.

Te dei uma partida lenta e segura onde tinhas teus braços abertos tal asas e os pés juntos como uma cauda. E novamente pudeste voar.

E das tantas vezes que te libertei, ainda me resta saber porque razão ainda te atemorizas quando ouves os meus passos?


Wasil Sacharuk