Carta à Fada do Reino da Luz

Cara Fada do Reino da Luz

De todos os males, que se extirpem as raízes. Se árvores sussurram decerto estão a conspirar. Considere que esses entes amotinados em suas tristezas, porventura, conspiram pelo próprio bem, e fazem da empreitada a salvaguarda da sanidade. Não suspeite de suas árvores, pois a maledicência não as cabe, mas sim às ameaças que espreitam aos arredores de seu malfadado morro uivante. 

Prepararei a poção,  no entanto, perceba-a falível em virtude de sua ação paliativa. A persistência da causa renovará os efeitos nocivos e, esses, tomarão grandeza ao passo em que se agregam ainda mais á rotina e à cultura do povoado. Ainda hoje colherei as raízes e procederei os ritos iniciais. Após a doce lua pousar um ou dois raios azulados sobre a solução, poderei solicitar que meu pupilo as entregue no Reino da Luz. Enquanto aguarda, tranqüilize suas árvores.

Com bem disse o Mago do Mar, os peixes mutantes são procedentes da Cidade da Nuvens. Entretanto, não se tratam de um produto da alta magia, mas sim, um procedimento evolucionário comum a essas espécies. Esses estranhos animais não tardam a buscar os recursos adaptativos que a cadeia de eventos os solicita. Por essa natureza é que subsistem com tanto vigor. Se chover, nascem-lhes remos, Se o Vulcão Earth cuspir sua lava, os peixes voadores se fazem duramente encouraçados.  Há de se esperar pela conclusão da Era das Chuvas e o início da Era dos Ventos, quando logo crescerão suas asas enquanto seus remos diminuirão. Mas saiba, cara Fada, que os remos não sucumbirão, pois o signo da experiência evolutiva jamais se apaga da memória física de um ser.

As sementes de frases incríveis iluminarão os sorrisos presentes no Festival dos Magos. Agradeço a cortesia do envio dessas raras espécies. Aproveito para pedir-lhe que nos honre com sua presença luminescente no festival. Entre os preparativos dessa safra contaremos com um sarau onde os poemas declamarão seus poetas. 

Que sua paz seja profunda

Sir W 

wasil sacharuk


Murchaflor


Murchaflor

Faço da estranha energia 
arrebentações de poesia
pouco de rima cercada de mágoa
sem cartola, coelho e brilhos

troco o país das maravilhas
pela solitude da minha ilha
pouco de terra cercada de água
e finco a bandeira do exílio

Meu cansaço de murchaflor
floresce do broto dos medos
desconheço como esquecê-los
e lograr teus doces desvelos

entre icebergs e folguedos
entendo os riscos do amor
cruzo do abismo ao esplendor
em busca dos meus arremedos

faço implodir meus castelos
arranco a raiz dos cabelos
a caneta presa entre os dedos
rabisca uma história sem cor

meu cansaço esfria o calor
e não faz detonar os levedos
dos olhos derramam colírios
a lavar esquizoides delírios

meus versos se viram em enredos
apartados de algum narrador
minha canção diluída na dor
do eco dos teus rochedos.

Wasil Sacharuk

Transmutações nos climas e tempos


Transmutações nos climas e tempos

Bola que se faz bolear
se pingar como pingo
deflete

e derrete
até evaporar
como o gelo
que secou em desvelo
o último domingo

wasil sacharuk

No céu da boca

No céu da boca

A língua invade o céu
mergulha na saliva
sem gosto de fel
deixa a paixão cativa

Num movimento insinua
sibilante, ágil e louca
belezas molhadas e nuas
e pousa dentro da boca

A língua é incisiva
entre crinas de um corcel
bebe sedenta e ativa
os espasmos de mel

Pela janela, entra a lua
encontra corpos suados
encaixados à cena crua
os lábios continuam atados

Dhenova e Wasil Sacharuk

12040874124b577f771977a

Dhenova

A poesia nada resolve


A poesia nada resolve - acróstico

A poesia?

Para que presta poesia?
Ora, tenta comer um poema
E decerto terás azia
Sonolência e outros problemas
Insônia e até anemia
A poesia não vale a pena

Ninguém compra poesia
Acostuma-te com outro tema
Dinheiro, fofoca, putaria
Até que tu entres no esquema

Rebela-te contra a poesia
E deixa de contar fonemas
Sai dessa vida vadia
Ocupa-te de coisas mais plenas
Livra-te da porcaria
Vai dia e vem outro dia
E a poesia não vale a pena

wasil sacharuk

Quebranto

Quebranto

Se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios
da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras
pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta

wasil sacharuk
 

Súplica

Súplica

Lavando o passado
em águas futuras
esqueço das juras
expostas no chão
visito seu sótão,
reviro armários
busco o itinerário
da inspiração

A sentença da verve
às penas mais duras
se nada mais serve
sentimento ou razão
eu suplico a cura
quando dói coração

Recorro à lua
em pleno meio-dia
o sol se ofende
me deixa no escuro
com um muro de páginas
um tanto vazias
e a mente repleta
de interrogações

E percorro as ruas
a buscar poesia
mas só notas espúrias
escritas nos muros
e minha vida vazia
sem beleza, sem canções.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

Lena Ferreira

Em matéria de amor

Em matéria de amor

não entendo os auspícios
desse meu jeito
sou uma piada
em matéria de amor
não sei se amor
se define em conceitos
sequer se conceitos
têm vida ou cor

imagino que seja
caminho estreito
entre a cumplicidade
e o esplendor
asas abertas
no voo perfeito
passeio rasante
sobre ódio e rancor

não sei do que o amor
talvez seja feito
qualquer argumento
é muito suspeito
mas toda a vivência
tem o seu valor

imagino que seja
tanto rarefeito
não é predicado
tampouco sujeito
mas é indelével
igual ao vapor

wasil sacharuk

IMG_20171104_185541332

Tu, que me confundes

Tu, que me confundes

Tu, que me confundes
articulosa
gata manhosa
podes ter
aos teus pés
minha fé
meu bem-querer

Tu, que me enganas
insinuas formosa
coberta de rosas
podes ver
versos do céu
caírem sobre o papel
onde vou escrever

wasil sacharuk

IMG-20160226-WA0001

Meu abraço

Meu abraço

eu quero muito te dar um abraço
também necessito da tua guarida
eu me vejo carente e abandonado
passei a viver num mundo quadrado

eu quero poder entrar na tua vida
também preciso apertar esse laço
encolher distâncias entre os espaços
dispensar as memórias doloridas

eu quero muito estar ao teu lado
também necessito ser consolado
soprar a aspereza das tuas feridas
fazer do meu colo o teu descanso

eu quero tanto andar no teu passo
também preciso encontrar a saída
quiçá construir um sonho dourado
e tentar fazer que ele seja de fato

quero te dar a canção mais bonita
também necessito acertar o compasso
suprir de carinho o amor tão escasso
verter poesia do que a alma dita

wasil sacharuk

21766632_769409359929689_6640751395978057118_n

Via crucis

Via crucis 

Antes de abrir a porta, sabia dos estragos no tapete da sala, das luzes apagadas e do perfume barato.  Queria girar a chave, entrar e se manter acordado, queria não ouvir passos. (Andréa Iunes)

Entraste e fechaste a porta por dentro, enlaçaste as tramelas de ferro. Havia, naquela parede, a réplica da santa ceia e, para ela, olhaste. Para nada mais. Andaste seis passos até a poltrona. Permaneceste sentado de olhos fechados.

IMG_20180102_120035739
Lembro quando disseste que entendes a morte tal artífice do improviso e que se veste de tipos diferenciados para livremente ceifar as tolas cabeças.  Decerto ela guarda, no mínimo, um par de mistérios: o de fazer desfilar, num peculiar espelho, a esteira das ações, com flashes dos seus deletérios, suas subtrações e, também, o de saber o oriente dessas curvas insólitas que conduzem aos portais do inferno.

À noite, sonhaste com uma dúzia de abutres famintos pousando sobre o tapete. O mais furioso bicava teus pés e tuas mãos e, logo após, espargiu suas garras atrozes sobre a tua cabeça.

Quando acordaste os policiais já estavam aqui. Te forçaram a carregar o corpo até o final da rua. Lá, a viatura da central de homicídios já nos aguardava. Depois, bem sabes, eu entrei novamente na tua história.

Dessa feita, te dei uma partida lenta e segura onde tiveste braços longos e abertos, tal asas, e teus pés juntos perfizeram uma cauda. Novamente pudeste voar.

Das tantas vezes que te libertei, ainda me intriga saber por qual razão ainda te amedrontas quando ouves os meus passos.

wasil sacharuk

A sombra que nos espicha


A sombra que nos espicha

A sombra que nos espicha
infelizmente não explica
a alma que busca espaço.

Somos estranhas figuras
que entre risos e agruras
segura a vida no braço...

A sombra que nos indica
fatalmente enfeitiça
de ver o eu projetado

Somos estampas escuras
decalcadas nas ruas
represadas nos traços.

Marisa Schmidt & Wasil Sacharuk

Esse site é apoiado por INSPIRATURAS