Do pó que faz pedra nas águas



Do pó que faz pedra nas águas

Tantos anos passados
não foram poucas
as navegações
pelas rotas mais loucas
a rodar timões
desenganados

estivemos lado a lado
copos na mesa
navegamos whisky derramado
marolas e ressacas
ondas de incertezas

nossa velha barcaça
move a vela 
de toalha de mesa
traz memórias acessas
tão vivas como antes
histórias de navegantes
pouco ou nada diferentes

nosso encontro na foz
fez poema de versos correntes
cuja origem é nascente das mágoas

assim somos nós
assim fomos feitos

do pó que se encerra
habita o fundo das águas
constitui antigo agregado

e lá do outro lado, na terra
aguardamos o dia perfeito
em que voltaremos ao pó

assim somos pedras
assim somos sós

wasil sacharuk
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Sobre águas e poemas afins


Sobre águas e poemas afins

Tal os versos de poesia
minhas pontes se elevam
sobre rastros perigosos
unem pontos que equidistam
e abreviam travessias

percorro suas sinas
entre mares revoltosos
sobre rios em calmaria
e colunas me sustentam
um traço entre colinas

percorro minhas trilhas
sem saber aonde levam
e meus passos desastrosos
que em versos interligam
minhas noites e meus dias

wasil sacharuk

Poema das Almas Inquietas

Poema das Almas Inquietas

Das frases suspensas nas fases de estio
vazio suspeito dobrando viéses
das vezes que verso em rima de frio
verbo por um fio remete a reveses

Das vozes sedentas das dores de cio
fastio que sustenta solvendo osmoses
das doses de inverno em clima sombrio
o inferno bravio reclama os algozes

Das vezes que o vento ventou sobre as folhas
daquelas escolhas tidas como certas
das reses cobertas, envoltas em bolhas
perto se fez longe  das portas abertas

Das bases que o tempo calcou sobre as formas
das normas cuspidas julgadas corretas
das fezes fedidas banhadas de aromas
forjou-se o poema das almas inquietas.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk




Ao amigo do lado de lá

"Véio China" - arte de Lanoia


Ao amigo do lado de lá

Morro tanto quanto imenso
se de mim morre um amigo
morro quando perco dente
morro tanto quando ausente

tu desligas quando eu ligo
sei que sentes quando penso
eu no chão e tu suspenso
paralisas quando eu sigo

nossas vidas insurgentes
seguem rumos diferentes
sei dos ares que respiro
quando busco teu consenso

tu és um no documento
e és outro no convívio
tuas vidas são latentes
se fizeram tão presentes

és da paz enquanto eu brigo
fazes ser enquanto eu tento
tu és pó eu sou cimento
mas eu fui feliz contigo.

Wasil Sacharuk

Deletério



Deletério

tenho ratos 
no quarto de hóspedes
vieram salvos nos caibros
na última enchente

vieram bichos
morar com as gentes
e o lixo 
entra indolente
pela porta da frente.

Wasil Sacharuk

Bruxuleante

Bruxuleante

O dia saltou para a noite
num pulo de gato
sorrateiro e peralta
interesseiro e ingrato

Não sei porque salta
mas que salta
é fato!

Quem vê gato preto
sai em desabalada corrida
a despistar o passo lento
que amaldiçoa essa sorte

Antes que morra 
o vivente
de morte morrida
que não seja indiferente
e corra da morte
e não morra
durante a corrida

Bater as botas
é como perder
um pacote de tolas quimeras
o pior é não ter bolas
e nem capacidade
para levar vida dura

E ter de acender tantas velas
No meio da noite escura.

Wasil Sacharuk

Orégano rosa

Orégano rosa

Lancei fogos em riscos
a lumiar noite crua coriscos
fagulhas faíscas e lascas

roguei o extermínio da praga
a contar conto triste da saga
ao tormento alimento do medo

revelei um ou outro segredo
ouvi dois ou três com desvelo
poesia nem sempre é uma farsa

e levei uma vida bem farta
oferenda de verso e cachaça
batendo poeira da alegria

dediquei nossas vidas
a qualquer poesia

wasil sacharuk

(para Bento Calaça)

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Shantala

Shantala

Teus gestos vibram nuanças
a espargir harmonia
deslizam sutilezas mansas
onde nascentes de energia
jorram por sobre hemisférios

Tuas mãos aquecem mistérios
nas temperaturas mais frias
a amar essas vidas crianças
que avançam na esteira dos dias
em busca de paz e confiança

Teu toque descobre esperanças
sob as incertezas sombrias
num ritmo suave de dança
de mãos que transcendem poesia

wasil sacharuk

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O Filho da Lua é um Cometa

O Filho da Lua é um Cometa

Quem olha o céu não avista
os traços do Filho da Lua
as sementes de verve viúvas
são súplicas secas sem chuva

A beleza no cio ficou nua
à espreita de uma conquista
do afago sensual do artista
quis morrer remoendo a lacuna

E o verbo deixou a tribuna
a ação do sujeito é reclusa
argumento que não insinua
entregue ao chasque pessimista

E Sofia dormiu com o sofista
a certeza engoliu falcatrua
quando a sorte perdeu fortuna
os diabos vestiram candura

Se a Lua morrer na clausura
talvez essa espera desista
de encontrar outro protagonista
que alinhave a palavra que cura

wasil sacharuk

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Nereida de gesso - acróstico


fotografia: wasil sacharuk


Nereida de Gesso

Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcação
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais.

Wasil Sacharuk

Felice


Felice 

Ontem eu quis ver a Felicidade
e me preparei desde cedo
ela estava em outra cidade
então enviei um torpedo 

E se eu pedisse
a amada Felice
para dar um passeio
talvez sobrasse patada
uma resposta debochada
esse era meu receio 

mas, quando chegou a hora
confesso que tive medo
pois eu só a via de fora
não participava do enredo 

E quando eu disse
Oi, Felice
senti falsear o joelho
pois eu vi na sua cara
uma certeza tão rara
como se olhasse o espelho 

Saímos para comer pizza
e contei alguns segredos
contei das minhas injustiças
admiti meus arremedos 

Se eu sentisse
que Felice
não veio ouvir conselho
talvez ela ficasse calada
e eu não diria mais nada
além dos olhos vermelhos 

wasil sacharuk

Dos Pampas ao Topo do Céu


Dos Pampas ao Topo do Céu

Eu que venho de longe
trago no alforge
um saco de pão e mel
a garrafa de cana
o livrinho de papel
e uns quarenta gramas

Percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde formigas sucumbem
aos saltos dos sapatos
quando pisam as nuvens

Vivo das vidas que vivem
e não assinam contratos
somente se servem
da tolice dos atos
dos ateus e incréus
entre crentes sacanas

Percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde a ideia se nutre
da crueza dos fatos
derruba engana derrama

hoje comprei um pijama
que tem estampado
o instigante retrato
do chapolim colorado
e seu letal movimento
friamente calculado

Percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
na efeméride dos tempos
e acompanho os ventos
enquanto ventam
baseados

wasil sacharuk

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