A surpresa tem cara de falsa


A surpresa tem cara de falsa

Como pensas surpreender 
a quem tudo pode esperar?

o que não sei não me surpreende
minha fascinação 
são imagens desfeitas

espelhos diluídos
encantos quebrados
escondidos nos cantos 
do quarto

me surpreende
o que já sei
se o vejo diferente
o que não sei não surpreende

estilhaço estátuas
quebro paredes
busco resquícios de vida
na massa que une tijolos

me surpreende 
o que sei que está dentro
onde não sei onde está

o que nunca sei 
não me desmente
logo, não surpreende

pois a surpresa
tem cara de falsa
de mentirosa
argumento liquefeito

o que não sei não me é
o que não ouvi não me ecoa
o que surpreende 
rasga a garganta silente
e abre ranhuras
nos muros da mente

pelo resto não me fascino
sequer pela vida dura
que renasce no limo
que encobre as ruínas
e tal fênix
revolve a cinza da vida

não há surpresa
na coisa que verte
tão salva e linda
tatuada com a marca
da experiência
sal extraído das lágrimas
que depois se converte
em sorrisos e brilho

o que surpreende 
é o verme imundo 
borbulhante nas gotas 
do sangue mais podre
e habita o hiato da descrença

me interessam
a fraqueza confessa
e a feiura

logo, não me causes espelhos
a refletir lindas faces
tu os engoles
e nunca te engasgas
portanto, engolirás para sempre
para que não te percas de ti

o que me surpreende
apenas seduz
transmutando belezas
as quais eu já sei.

Wasil Sacharuk

nem só de versos...



Contabilizações de 2015:

Em 2015, descobri que o eleitor é corrupto, incapaz e paspalho, mas o que mais impressiona é a sua frouxidão e idiotia;

Aprendi, com o lula, que é impossível ser dono do mundo com o auxílio de comparsas mais inteligentes, cultos e hábeis que você. Um grande ditador precisa ter certa genialidade. E, que mandaletes ainda mais estúpidos do que você afundarão seu projeto de poder;

Descobri que o brasil é o país mais rico do planeta, seus políticos e administradores são os mais ricos do planeta e o seu povo sorri enquanto samba a miséria numa passarela de lama tóxica;

Que ratazana não se segrega politicamente em direita e esquerda;

Que o brasileiro não reconhece a própria pobreza... de bens, de alimentos, de cultura e de princípios;

Que o homem do sexo masculino se converteu em frágil, e agora, as mulheres o encoxam e enfiam o dedo no seu cu, sem pedir antes rsrs;

Descobri que quem reclama ostensivamente da segregação racial e sexual, na verdade, se alimenta da diferença para viver. Não adianta exigir trato igualitário sem conquistar a afeição da outra parte. Ninguém ama à força da lei. Enquanto houver um movimento negro, amarelo ou roxo, as diferenças sobreviverão;

Aprendi que dores tratadas com remédios e cirurgias apenas se convertem em novas dores que te matarão. Há algo que deve ser compreendido e tratado para além do corpo;

A indústria de alimentos te enfia veneno em doses cavalares com chancela da saúde pública;

Que a violência não é um problema social relevante nos países onde as pessoas estudam em escolas de verdade;

Que existem mais professores formados trabalhando como comerciários do que comerciários frequentando as escolas;

Que o facebook é um mundo à parte... encantado, branco e azulzinho;

Descobri que a morte é uma contingência... até quando ela ataca de foice na mão, tu podes escapar da lâmina num passo imprevisível de zumba.

Wasil Sacharuk



http://www.wasilsacharuk.com/2015/12/nem-so-de-versos_24.htmlMinhas contabilizações do ano passado:
Publicado por Wasil Sacharuk em Quarta, 20 de janeiro de 2016

Saliva-me - oficina INSPIRATURAS sanctum peccatum

Saliva-me

Despenca aos rios
saliva louca
sussurrada da boca
enlaça-me aos fios

despenca dos brios
tatua as roupas
plasma nas coxas
mistura-se ao cio

saliva-me entranhas
a morte
a arte
as manhas
me apanhes
na língua

saliva-me à mingua
que engulas
a cabeça
até a base
a fraqueza
o destempero
tenhas inteiro
te molhes.

Wasil Sacharuk

Fundição - oficina INSPIRATURAS sanctum peccatum

Fundição

No lapso resvalo
até o córrego
fiapos líquidos
escorrem trôpegos
a inundar os declives

deslizam suaves
ao anel negro diamante

na cavidade
o ferro forjado
em brasa ardente
encontra o encaixe.

Wasil Sacharuk



Limão azedo



Limão azedo

ah, perdoa
o ego que me consome
logo, sei que não mentes
mas não acredito
merecer tua dedicação

não sou digno
de atenção
sequer de amor
problema de autoestima
garantia da rima
com a dor

acaso tens
um amor barrigudo?
velho?
doente?
maluco?

tens não...

queres algo diferente
alguém que chupa limão.

Wasil Sacharuk

Nem só de versos

No desespero, a petralhada voltou com a balela racista de "elite branca". Achei que havia apenas um energúmeno no brasil a usar essa fala preconceituosa e descabida. Esses idiotas não percebem que, dado o status quo, quem é de elite não protesta. 

Hoje, um amigo postou que os negros que protestam pró-impeachment são negros que se acham brancos... e, ainda, falou dos ricos como se a condição da riqueza correspondesse a um crime. Há muita gente que trabalha muito para enriquecer enquanto paga impostos pesadíssimos para sustentar esses vadios militantes que vivem apenas da usurpação. Os poucos ricos criminosos estão na política ou sob a proteção dela.

É muito preconceito e chinelosidade. Infelizmente, é gentinha desse tipo que pretende construir a esquerda política do futuro.

virgulinidade - INSPIRATURAS palavrinventada®

virgulinidade

tua virgulinidade...
demarca minhas pausas
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz

virgulinidade enfática
saltitante acrobática
delineia tuas expressões
períodos das tuas orações

Virgulinidade tua
te constrói em significados
nua verdade
contra a ambiguidade

que de mim
separas incólume
sindéticas coordenadas
que me explicam
e que me concluem
entre consecutivas orações
divides meus elementos
de mesma função

virgulinidade 
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz.

Wasil Sacharuk

bailarinando - INSPIRATURAS palavrinventada®

bailarinando

breves rodopios
sutis deslocamentos
te vejo bailarinando
no vento

tão leve
te inseres
nos meus pensamentos
teus movimentos
dançam na esteira
dos tempos

teus pés tocam lentos
em pontos incertos
mas voas ligeira
bailarinando
faceira.

Wasil Sacharuk

A verborrágica exagerada - Oficina Dicionário Lírico INSPIRATURAS

A verborrágica exagerada

Verborrágica é a vivente
que se vale da verborragia
a incrível arte oratória
de dizer muita merda
sem filosofia
ou qualquer poesia

a que gasta vocabulário
com argumentos otários
de viés insignificante
repleta idiossincrasia
e nada importante

emprenha-te os ouvidos
a verborrágica exagerada
parece um autofalante
que tenta ser eloquente
e não diz nada com nada.

Wasil Sacharuk


nem só de versos...

A melhor coisa que a administração pública brasileira já criou foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Ela garante um mínimo de transparência e legalidade. Burlar essa lei é ato deflagrado e grave de improbidade. Apenas um presidente ladrão ou mal intencionado o cometeria. Ou, então, um presidente que se considera proprietário do país. 

Pena que essa gente que chama o impeachment de golpe, nada sabe sobre isso. Aliás, sabem apenas repetir o discurso cágado do pt em troca de algumas moedas. 

A palavra pátria cheira a merda na boca dessa gente.


Sublime - Oficina de criação INSPIRATURAS sanctum peccatum



Sublime

Fico assim
louco
se te faço louca
se enlaço
teu corpo

todo espaço
nesse quarto
é pouco
ao desacato
devasso e obsceno
que, amoral
é tão pleno
portanto,sublime

aos olhos santos
somos crime
de encantos
nos contornos das coxas
das bundas e bocas
do pau da boceta
e doutras vias

 quando o sol desperta
 gentil inocenta
nossa sodomia
diamante mais bruto
sob a luz desse dia
quando tu és repleta
quando sou poesia.

Wasil Sacharuk

Exercício de clichê - Oficina APCEF/INSPIRATURAS - Meia tijela de versos batidos

Exercício de clichê - Oficina APCEF/INSPIRATURAS

Meia tijela de versos batidos

Quero dar meu caloroso abraço
e fazer uma colocação
aos que estão no fundo do poço
ou na rota de colisão

Quero abrir com chave de ouro
sua mente e seu coração
pelas raias da emoção
vamos quebrar o protocolo

Quero uma atuação impecável
nos palcos da vida real
que tenha importância vital
não seja perda irreparável

Quero respirar aliviado
jamais ser vítima fatal
e viver além do normal
visivelmente emocionado

Quero inserir no contexto
e logo entregar a você
o poema de versos clichês
coroado com êxito.

Wasil Sacharuk

Meu porrete - palavrinventada® (cudouro)

Meu porrete

meu porrete
é milagre de santo
é mistério e remédio
aos sais do pranto
aos males do tédio
um risco no lombo
dos faniquitos

meu porrete
é o cacete
que come no couro
num relance
perfura cudouro
e derrete cudoce.

Wasil Sacharuk

Tarsentilho - palavrinventada®

Tarsentilho

Tarsentilho insone
das luas

cruzarruas
e explode
balastros

longos passos
no escuro
graúna

nas ruínas
arranhões
e esgarços

Tarsentilho espaço
e lacuna

pega a unha
e irrompe
em cabaços

rompe lastros
a glande infortuna

lava a burra
a alma
e os rastros.

Wasil Sacharuk

Marcos da Alma

Maria Sofia


Marcos da Alma

Eu sou eu, simples assim 
e você é você...
Simples assim

Sou um, do início ao fim
assim tal você

Simples assim

Somos barqueiros 
e embarcadores
sábios e aprendizes

Feios e bonitos
Silêncios e falas

Somos arteiros
e encantadores
de risos e cicatrizes
mansos e aflitos
picos e valas

Coragens e medos
vidas e mortes
pontos e partidas

Colagens de enredos
fracos e fortes
voltas e idas

Enfim, somos nós 
em construção sempre.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Está pronto e divulgado o laudo técnico especializado que calcula o teor da contaminação produzida pela lama samarco? Não, né? Talvez as autoridades imaginem que o estudo seja dispensável, afinal, qual a dimensão do sinistro da lama para quem já vive atolado na merda?

Mataram o rio... não dá para comprar outro e botar no lugar. E se desse, não haveria dinheiro... os vagabundos levaram todo. E apenas quem pagará a conta é a qualidade cada vez mais indigna das nossas vidas. Vai ficar nisso mesmo: sem culpados, sem penalidades, sem consciência...

Se o evento ocorresse num país digno, do tipo sério, a análise já estaria pronta e medidas efetivas de recuperação sendo tomadas e os administradores da catástrofe sendo presos.

Já sabemos de antemão que nada será feito. Seria necessário uma quantidade mínima de cidadãos para exigir qualquer medida de reparação. E no parlamento da cidadania, não há quorum.

A lama tóxica que emporcalha a consciência dessa gente é que perfaz o maior dos desastres ambientais. É apenas brasil, terra de políticos corruptos e analfabetos, empresários ladrões e povo abostado... muito abostado.

Vai ficar tudo por isso mesmo... vai virar arquivo audiovisual da rede globo para os zumbis do futuro chorarem a triste sina.

Logo chegarão as festas natalinas, o bigbrother, o carnaval... e nossa gente subserviente e burra estará alegre e festiva a sambar com a bunda de fora sobre um mar envenenado. Que não reclamem mais, afinal, temos a medida exata do retorno das nossas frouxas ações.

Wasil Sacharuk

foto: jornal O Dia - reprodução de tv

Curso da Poesia

escritora Maria Sofia

Curso da Poesia


Era um dia feito outro qualquer
estendido em caldas de leses
quando o desejo insano de ser
converteu-se em algo diferente
na luz de um sombrear claudicante
o morno se fez instante consciente.

Era o novo sabor de um instante
me vi em outro cais num outro revés
estendido em cais os navegantes
borbulhavam em ondas e marés
a verve soprou suas sementes
e os versos brotaram nos pés.

A alcova que antes era doente
flertou o sol no mais belo poente
e a natureza não pode conter
e sorriu em luminosa poesia
vestida da lese a perdurar instantes
com gestos nobres de maestria.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Mulher multidão

Mulher multidão

mulher multidão
malemolente malabarista
mergulha mar movimentado

manipula misérias
maneja migalhas
manobra mentiras

misericórdia, mundana!
monta meninos
moços
maduros
mulheres

molesta matrimônios

mutreta!

mulher matadora.

Wasil Sacharuk


Cavalgada

Maria Sofia

Cavalgada

Os longos dos anos vividos
entre porteiras abertas da estrada
os meus momentos todos perdidos
entre a esperança e o nada
entre o silêncio e a despedida
vislumbre de tal vista regata.

Daí anunciei meu pedido
no meio da noite enluarada
uma canção que fizesse sonata
por entre a brisa apanhada
venci os entraves do medo
e a poesia não se fez calada.

Raiou o sol ante a madrugada
vestida de aura tão delicada
fez do meu medo arremedo
fez da minha prece toada
em um galope de cavalgada
na despedida da alvorada.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Poeira de Estrada

Maria Sofia



Poeira de Estrada

Em algum lugar distante daqui
poeira queimou chão e alforje
foi o fogo maior que eu vi
fez tudo o que pode e não pode
e o corcel saltou galopando
queimando estrada e poeira.

E não estava de brincadeira
sequer estava armando galope
mas foi por uma tal cerqueira
que meu cabresto saiu por sorte.

Escapei do abraço da morte
esqueci qualquer dor passageira
foi uma tal garça aventureira
que na estrada velha de poeira
fez tal corcel perder a direção
cavalgando pelos trilhos da mão.

Eu cavalgo não é por esporte
mas sim por vontade faceira
cavalgo por relvas e noites inteiras
com meu cabresto solto na cernelha.

Maria Sofia e Wasil Sacharuk

Molemar - INSPIRATURAS palavrinventada®

Molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar

Malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor.

Wasil Sacharuk

Otimismo - Dicionário Lírico INSPIRATURAS

Otimismo

é a crença ridícula no incerto
é poema de versos do absurdo
o pretexto infalível dos sortudos

otimismo é conceito confuso
nos meandros da poesia
onde impera
certa delicadeza
traduzida em versos

é igual àquela certeza
de que se pode virar a mesa
e fazer tudo dar certo.

Wasil Sacharuk


- Hoje, ele não voltou - Oficina INSPIRATURAS/APCEF - Narrativa não-linear



Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

Wasil Sacharuk

O Sol que pinga


O Sol que pinga

Bem cedo
o sol que pinga é diferente
pinga em concisão
remédio...
remédio que dá fim na dor
e no tédio

agora eu via o sol
pela tonteira da visão
e a cor...
a cor do raio é o calor

quando pinga
pinga energia na gente
bem no coração
acolho...
o que abre o chakra e o olho

agora eu via o sol
tão no coração
bem quente...
quente a manhã
de fogo ardente

o sol consome a morte
e a semente
fácil e sem perdão
aquece...
aquece a memória do karma
e esquece.

Wasil Sacharuk

Algodão-doce



Algodão-doce

ensacado
açucarado
de tão doce
deixa enjoado
no entanto
o palito espetado
traz infãncia
de melequenta repugnância
e corante rosado

geralmente se gosta
quando se é criança

Algodão-doce
pueril poesia
ou um passo de dança
de leveza e a alegria
memória da diversão
ingênua abstração
e beijo roubado.

wasil sacharuk

Oficina APCEF/INSPIRATURAS - exercício de narrador câmera - Um texto inacabado



O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.
Paredes em farelos.
Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.
O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.
Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros.  
O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

Wasil Sacharuk

Cada crença corresponde com cada cadáver

Cada crença corresponde com cada cadáver

Coveiro chega capela
coloca cruz
castiçais com chamas
canecas
café

Cabe coveiro
colocar corpo
centralizado com caixão

compete colocar cravo
condecorando casaco

conforme chegar cemitério
colocar chapéu
contra claridade
cavar... cavar

convidar criaturas
consanguineas com cadáver
carregar caixão

convém criaturas
com choro caindo
cantar canções
cujo cadáver cantava
conquanto caminhava

colocar cobertura
conduzir caixão
centro cova

comum colocar
camisas clube
cujo cadáver
contribuia

comum chover crisântemos
chuva colorida

cadáver continuará calado
completamente cansado
com culto cretino.

Wasil Sacharuk

Presente de Marisa Schmidt

E eu nem sabia que mago tinha idade registrada em anos vividos, pois quem tem nas mãos o domínio do imponderável, não é jovem nem será jamais velho, apenas é eterno. Este( e) terno poeta sabe tudo de poesia, de encanto e melodia, de amizade e afeto e por ser assim, tão entrincadamente simples, faz da palavra seu ato de rebeldia, da liberdade de expressão seu caminho etéreo e da incrível capacidade de agregar em torno de si tantos sonhos um abrigo seguro contra a volubilidade do que chamamos de vida. Te amo, meu poeta e te desejo somente o que quiseres...

Marisa Schmidt

Presente de Ana Maria

Sacha ,

Vou começar essa história
Pedindo sabedoria
Porque falar de um mago poeta
Não é uma coisa qualquer .

O homem tem muita inteligência
Faz poesia até na língua do "C"
Já ganhou minha simpatia
Provando o quanto é .

Sua poesia tem voz participativa
Porque o lirismo em você domina
O eu poético toma iniciativa
Para que nossa poesia permaneça viva .

Meu sonho um dia você realizou
Corrigindo os erros que eu fazia
Por isso aqui estou
Mais leve e solta na poesia .

Talvez você não lembre
Do quanto estou lembrada
Do nosso ajuntamento
De um só envolvimento .

Já passaram alguns anos
E apesar deste tempo
Meu muito obrigada
Pela interação que agrada

Ana Maria Marques

A solitude tem lágrimas secas

Tela: Richard S. Johnson


Aprendas, menina:

A solidão convertida em rosas usa espinhos como escudo.

Do que sabe o jardineiro, afinal? Perfurar a pele nos espinhos da tragédia?

A solidão se isenta do perfeito sacrifício em favor do outro. 
Daí se consolida solidão. 
É rosa seca de haste dura e grossa que, imperfeita, se acomoda entre as páginas de um livro velho guardado num canto da estante.

Não compreende o desvelo dos jardineiros, mas dos bibliotecários, cuja colheita abarca as memórias amareladas e condensadas. 

Lembres, menina, os solitários que cultivam flores são desprovidos de solitude. 

Eis que a beleza das flores nega a solidão

Rosas transmutadas no sépia dos tempos esqueceram dos próprios aromas. 
Desidratadas habitam superfícies artificiais distantes às cheirosas roseiras. 
Suas cores definham lentas. 

A solitude tem lágrimas secas, menina, 
tal os líquidos que deixam seus invólucros derradeiros. 
É na morte das coisas que se contempla solitude. Bem sabes.

E pouco importa a natureza das coisas... Ficarão rastros das suas formas e conceitos. 
A vida sempre será o acalanto de todas as mortes.

Entre o frescor e a secura há um tempo de ida e outro de volta. Enquanto um canta o outro nina. 
Haverá nuanças de vida entre o viço e a senilidade dos galhos.

Wasil Sacharuk

Prece - Dicionário Lírico INSPIRATURAS

Prece

É vocábulo do gênero feminino
popular na Língua Portuguesa
significa uma coisa sem certeza
algo entre a súplica e o hino

Prece é nome substantivo
que coloca a ação do sujeito
de mãos à frente do peito
num papel totalmente passivo
a encher ouvidos das divindades
com tantos motivos
e falsas verdades
e quase nenhum defeito

Mas, na voz da sinceridade
prece é o momento em que o dia
se desfaz em ocaso
e quedam-se os versos mais rasos
num gesto sagrado de poesia.

Wasil Sacharuk


ambiguado



ambiguado

Agora, que sou velho e fraco
carrego o meu tabaco
na tua pequena boceta
onde guardavas caneta
e outros bichos de plástico

Wasil Sacharuk

O argumento da vivardia - INSPIRATURAS palavrinventada®

O argumento da vivardia

Jamais acatará
o morrimento
o fatal argumento
da vivardia
ninguém diz alegria
sobre lamento
ninguém faz fundamento
de poesia

Jamais nosso dia
foi temporento
o quintal de cimento
que angustia
ninguém diz poesia
do fundamento
ninguém faz do lamento
a alegria.

Wasil Sacharuk


Tela de lua


Tela de lua

Um voo na noite
viagem distante
eu e as corujas
viramos estrelas
intrusas
na janela 
tela de lua
do teu quarto

dormias nua
sem recato
teu semblante
lavado nas águas
da nascente de lágrimas
que de mim
te inundaram

vestimos folhas soltas
de tuas árvores
eu e as aves

e quando veio o dia
eu trouxe na boca
um verso livre
da tua poesia.

Wasil Sacharuk

Ciranda dos braços



Ciranda dos braços

Poetas cantam
ciranda dos braços
quando luzes de versos
envolvem o espaço

Quando há poesia
são curtos os laços
cruzados convexos
por todos os lados

Poemas refletem
destinos emoldurados
nas mãos que se cruzam
num signo encantado

Das divinas mãos dos poetas
entrelaçam incertas
um amor desvelado.

Wasil Sacharuk

Ao mago da pena, por Márcia Poesia de Sá



Ao Mago da pena.
( O acolherador !)

Tu que do vento uivante fazes versos
e que do frio intenso fazes queimar esperanças.
Tu que com esta vida brincas de criança,
e escreves amalgamando distâncias...

tu que ousas crer no improvável
e com total talento ensinas o inabalável
desejo de melhoras e sonhos reais.

Tu que começastes sozinho a unir pedrinhas
e a brincar com palavras, formastes linhas
de um conto especial que jamais finda!

- Meu muito Obrigada !

Tu que sugas o verde amargo
e sopras os mais densos e doces verbos
sobre o horizonte da página antes, brancas
deste pseudo acaso literário.

Hoje vejo não uma, mas muitas páginas
e mais páginas se unem a nós,
neste teu, e hoje, nosso infindo livro de abraços.

E é a tu, imensa folha imã de nós todos,
alguém a quem me orgulho de chamar de amigo,
que venho hoje, assim tão simplesmente agradecer
e de todo meu coração queira saber,

sou do teu sonho, da tua amizade e do teu riso,
um ser inteiro e eternamente cativo !

Márcia Poesia de Sá

Quando estive cordascente - palavrinventada®


Quando estive cordascente

Subi aos céus
junto aos demônios cordascentes
não éramos bichos
não éramos gente
somente um brilho faiscante
um raio resplandescente
tipo de magia
que mistura poesia
com uns tragos de aguardente.


Wasil Sacharuk


Antes que te esglote - palavrinventada®

Antes que te esglote

Melhor salvares teu pescoço
antes que um ataque te esglote
e depois te deslaringe
te mate de desofagia

melhor morreres de poesia
do que de fricote
daí não te finge
e confies na traqueologia

livra-te das renalgias
que te aprisionam os mijos
e os pedregulhos mais rijos
nos autos da bucetologia.

Wasil Sacharuk


bunda mole



Sabes por que:

-teus políticos te roubam?
-te assaltam nas ruas?
-teus filhos são semi-analfabetos?
-teus parentes morrem nos hospitais?
-teu salário é ridículo?
-teu banco te extorque?
-tua escola está em greve?
-tuas prestações estão atrasadas?
-Teu padrão de vida é decadente?
-tua aposentadoria é indigna?


É porque tua bunda brasileira é muito mole.
E teus miolos brasileiros são mais moles ainda.
Porque recusas o conhecimento e a cultura e te preocupes demais com quem está comendo quem na novela das nove. E saibas: em cabeça mole não reside consciência.

E, sem consciência, tu só vais te foder... Merecidamente. Frouxo!

Ficaste furioso? Aí que medo!

Gatucho



Gatucho

Teus olhos gatuchos 
são ingênuos
me parecem tão plenos
horizontes de mim

te olho assim
navegante do futuro
permaneço contigo
viajantes imaturos
distantes do abrigo
longe do porto seguro

te enxergo em mim
intenso ou ameno
no claro ou escuro
em todos sentidos
no riso incontido
e também nos apuros.

Wasil Sacharuk

Certas Circunstâncias

Certas Circunstâncias

Calo...

Calo conforme coração cede
cutuca célere
comovido
coração caído
consignado
com certas circunstãncias

Coração carece calar
cessar consonâncias
cessar calores
carinhos
conversas cantadas

cada certeza
cai calada
carrega consigo
cada conclusão conveniente

calo com companheiros
com compromissos
com conquistas
com carinhos

certas circunstâncias
conduzem corpo calar
consternado
cativo
caindo como casarão centenário
corroído

calo, contudo
continuarei
cortando caminhos
com cabeça competindo
com certas circunstâncias.

Wasil Sacharuk


Acaso parasse a chuva

fotografia: Diário Popular Pelotas


Acaso parasse a chuva

Se parasse a chuva danada
não tardaria nada
a esquecer o medo
e abrir a porta

as crianças levariam
os brinquedos
para o quintal

Não sei se penso bem
ou se penso mal
mas pouco importa
essa chuva trouxe tristeza
do tipo que corta
levou tanta vida
e tanta beleza

Nas hortas
lavouras e pastagens
um espectro da morte
e a sorte
veio na estiagem
o esforço frustrado
o cansaço e o arado

Acaso parasse
decerto eu passaria
a plantar existência

talvez vingar semente
que na impermanência
vai morrer pela gente
na chuva ou na negligência.

Wasil Sacharuk

A menina e o corisco


A menina e o corisco

Ao redor nuvens carregadas
de emoções vermelhas
estocam raios prateados
aprisionam centelhas

A menina engraçada
sem galochas ou luvas
rompe o dia cinzento

e um guarda-chuva
enlouquecido
abre-se ao vento

meio perdido
virou passatempo
colorido.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Amigo poeta



Desde 2009, contribuir para o desenvolvimento da poesia na internet se tornou meu melhor passatempo. Daí, junto aos amigos, fizemos surgir a Nova Ordem da Poesia para servir de arcabouço para as peças e repositório de grandes amizades. Sabe, eu nem sei ao certo porque faço isso, mas fico feliz em perceber mais gente escrevendo literatura. 
Hoje fiquei muito emocionado com a homenagem do poeta Paulo Moraes, a qual transcrevo abaixo. 
Quando despenca uma ou outra lágrima, passo a perceber o sentido de tantas coisas: carinho, gratidão, amizade, arte e beleza... tudo muito pleno de significados. 
Grato, poeta. Quero saber de meus filhos lendo essa peça no futuro e possam, assim tal eu, passar a compreender os significados.

"AMIGO POETA!!

(em homenagem ao Poeta Wasil Sacharuk, por sua contribuição à poesia
e por estimular e incentivar o surgimento de novos poetas)

Ah meu amigo! 
Eu sei que tu conjuras
flores imaturas
e das tuas mãos saem afagos
de eterna saudação.
Ah meu amigo! 
O sol brilha nas tuas palavras. 
Elas são como um bálsamo
repleto de amanhãs. 
É o teu corpo invencível 
que derrota os malefícios 
e conduz os teu passos firmes 
entre as pedras amigas. 
Já vi tua caneta romper muralhas, 
com a sensibilidade
dos jardins resolutos. 
Entre o sonho e a vigília 
tu preparas o banquete das estrelas. 
É a Lua que te aplaude 
com seu robusto peito de pérola. 
Navegamos juntos, nos mesmos versos, 
colhendo os horizontes de cada dia.
Mas sempre, és tu, 
quem rema com maior entusiasmo. 
Nesta fortaleza estamos amparados, 
por causa da tua incessante generosidade, 
carregando os nossos fardos
de ânsia de poesia.

PAULO MORAES"

Helyna e o Ice Cream

Helyna e o Ice Cream

Menina
senti dor no córtex
tomei um sorvete gelado
preciso do agente neutralizador
que faça passar
a tal dor

Menina
me aqueças da hipotermia
pois posso morrer congelado
na alquimia
infinita das cores
a provar a poesia
de meia centena de sabores
consistentes
sem conservantes
elegantes
e importados

Menina
ensina o cuidado
que vinga nas belas frutas
e transmuta
a natureza mais bruta
em doces texturas
de encantos
combinados.

Wasil Sacharuk


Proveito de poeta

poetisa Anorkinda

Proveito de poeta

Provei da insipidez 
de um verso branco
de viés desconexo
decalcado no léxico

Provei um verso manco
engasgado
perdido da fluidez
pleno de insensatez
num poema travado

Provei sem descanso
alucinado
sem regra, sem noção
com medo de assombração
objetivo abandonado

Provei da mutação
de um verso manso
de efeito visionário
libertado do imaginário

Wasil Sacharuk e Anorkinda

Elementais azuis


imagem: Anorkinda Neide

Elementais azuis

Eu jamais poderia ter feito um céu assim, tão azul. Nele plantei a fada de cabelos cacheados; um pensador carrega um duende hermeticamente fechado numa caixa de isopor;, uma bruxinha do bem, de cor violeta, para contrapor a magia ambígua e contraditória da fada  e, ainda, uma musa bela e míope para inspirar poesia desnorteada. 
Nenhum outro céu vibraria tão bem em acordes de poesia.
Para chegar até lá, construí uma ponte de madeira de lei. Como um esquadro tanto torto, invade o leito das águas e alcança o risco do horizonte.
Hoje, fui até lá sentar junto aos comparsas azulados para beber o vinho das letras em canecas aladas. O tilintar das louças fez a vibração que acorda um mago da poesia, coitado, andava tanto adormecido num cantinho a espera da canção. Então, logo a cantamos. Eu jamais poderia ter cantado assim, nesse tom tão azul.
Sobre a ponte, remeti o verso ao infinito. O danado rompeu camadas celestes para depois cair fofo na nuvem chorona.
Eis que o mago da poesia o alcançou com uns doidos fluidos magníficos que jorravam quando eu e meus amigos enlaçamos nossas mãos.
Capturado, o verso fujão foi fatalmente afixado no meio de um poema caótico. 
E do caos da poesia, erguerei outros céus... tremendamente azuis... ainda que podem ser de outras cores.
Serei eu o artesão de uma nova ordem.

Wasil Sacharuk

Inflação



"Se ocorresse um vendaval de moedas
faria um colar em forma de terço" (Lu Leal)
Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul- "Inflação"- desafio de poesia livre

Inflação

Moedas quedam vendaval
de euros, francos
dólares, yens
muito mais
e além

se eu contar
até aborreço

nada mal
do dinheiro fiz um colar
de metal verdadeiro
em forma de terço
e do $Real
eu só fiz um chaveiro.

Wasil Sacharuk

MEU EU OCULTO - acróstico

MEU EU OCULTO - acróstico

Máscaras de mim
Ergui, por fim
Uma a uma

Escondi sobre as vigas
Úmidas contendas

O que sou ninguém liga
Coisa que cala a mim mesmo
Um verso solto, a esmo
Libertador das distâncias
Terra fértil das ânsias
Onde plantei meus rebentos.

Wasil Sacharuk

Metal

Metal

Luzes vermelhas, azuis, amarelas... de mercúrio e neon.
O asfalto e a dança dos faróis.
No céu, lua cheia, noite cristalina.
A mulher anda pela direita, passadas largas, rápidas.
O homem, á esquerda, pouco atrás, ritmo equivalente.
Empunha, o homem, objeto pontiagudo, metal brilhante.
A mulher veste casaco - um grande - gorro de pele, luvas.
Os passos apressados cessam junto à parede do casarão. Manchas vermelhas.
O homem sobre o meio-fio. A mão entreaberta ainda segura o metal.
A mulher abotoa o casado, livra-se das luvas e segue.

Wasil Sacharuk

Ao poema conselheiro


Ao poema conselheiro

liberdade em cascatas
despenca em palavras
fetiches e bravatas
oferendas ao amor
descrito nos versos

poeta ao avesso
linhas do despudor
penetra travesso
estocadas
líricas e obcenas

tu, poema, acenas
logo te peço
a passagem

ventos da viagem
lambem as asas
borboletas e fadas
recitam de cor
poemas diversos

poeta ao avesso
rimas de esplendor
penetram travessas
estocadas
em música e letra

tu, poesia, não esqueças
se te aviso
sou apenas passagem.

Wasil Sacharuk

Noites de estrela cadente

Noites de estrela cadente

Eu te procuro
nas noites quentes
de estrela cadente
que um dia plantei
no fundo do quintal

mas nunca eu sei
quando chega o sol
sei apenas ouvir
latidos dos cães
mas se gritas
ainda posso te ouvir

passo o tempo a sentir
e imagino que sintas
o teu próprio cheiro
impregnando as flores
deliciadas
em tua volta

no ballet dos amores
te vejo solta
como nos sonhos
caindo comigo
sobre lençóis
azuis cor de mar

são tantos sóis
para me acordar
dessas noites
de estrela cadente
que certo dia plantei
no fundo do quintal

wasil sacharuk

Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

De tudo o que eu era restou somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou. Me alimento de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço agora, sapateio com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando uma tremenda chuva de versos, diluídos com whisky, derramou-se e,despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro.. Não sei bem ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta.

Dia desses tornei a vê-lo. Sentado na asa de um avião.

Wasil Sacharuk 

Entorpecente

Entorpecente

-Rezaste?
-Não!
-Fizeste o quê, então?
-Sabes, Santidade, a Sininho...
-Opa, esqueças essas ideias pagãs.
-Ela é fada!
-Cala-te, menino, respeita-me!
-Não é isso... é a magia... aquele pó.
-Pó?
-Sim, pó.
-Que pó, baixinho?
-Pirlimpimpim, eu acho
-Isso é droga.
-Não, é pó... pó mágico... brilhante.
-Se é mágico, deve ser entorpecente.
-Padre! É a Sininho...
-Menino, não mistures mulheres fadas com pó mágico... isso tem aspecto de vício.
-Não é isso, Santidade!
-Dez padres nossos, com a pureza do coração. Peças absolvição e afasta-te das drogas.

Wasil Sacharuk

Tua alma escandalosa

Tela: Jonhy Andwik

Tua alma escandalosa

hoje quis saber
se gostas de mim?
enfim
quero beijar tua boca
eis meu desejo
se te vejo

e dizes:
...isso soa muito bem!
e a mim, também
parece uma linda imagem

sou desvelos
de boca entreaberta
pode te devorar
sequestrar teus segredos
te fazer revelada

apenas para ouvir
tua alma escandalosa
gritar desvairada.

Wasil Sacharuk

Agenda

Agenda

rascunhos de poesia
versavam desejos
entre as notas do dia

escritos à língua
letras em tua boca
e verve derramada
sobre os seios
que te delatam.

Wasil Sacharuk

Chuva setembrina

Tela: Leonid Afremov

Chuva setembrina

olá menina
aqui despenca
chuva setembrina
bem gostosa
ora fina
ora grossa
mas sei que aí
um sol queima

nosso clima
tem uma sina
e por isso ele teima.

Wasil Sacharuk

A princesa molhadinha do sul

A princesa molhadinha do sul

o frio daqui é tão frio
e o calor é calor
o amor daqui é tal rio
a cor daqui é sem cor

mas nem toda água é de mágoa
nem toda lágrima é dor
nem toda poça tem lama
nem todo chão nasce flor

o inferno aqui é sombrio
o céu daqui é o terror
o fogo daqui é pavio
e tudo aqui é um bolor.

Wasil Sacharuk

Foto de F. A. Vidal

Deslizam lentos


Tela: Kurt Van Wagner


Deslizam lentos

deslizam lentos
os dedos
a boca
o queixo
a cabeça
a face
o tato
o nariz

deslizam lentos
a nuca
os cabelos
os fios

a mão espalmada
que puxa
assim, de leve
para não assustar

lentos
a língua
o nariz
deslizam
as bochechas
o lado
o outro

os recônditos
os dentes
a gengiva
o céu

as mãos
os  braços
os espaços
deslizam lentos

as pálpebras
os lábios
a linha
o desenho…
a umidade
o entorno
as dunas
a volta
o vale

lentos deslizam
os  olhos
que encantados
suplicam sentir.

Wasil Sacharuk

Arrisco dizer

Arrisco dizer

oooohhh ohhhhh
oooohhhh ohhhohhh

talvez eu queira
minha amiga
apenas te ver
perder o medo

arrisco dizer
o que não sei
eu deixo
acontecer
e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo
acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo
acontecer

tu perdes o ar
minha amiga
eu perco a calma
e deixo acontecer

eu sempre volto
tu queres me envolver
e tu deixas
acontecer

e eu sei
o que queres da noite
e amanha sei o que farás
eu deixo
acontecer

e eu quero
fazer amor essa noite
depois ver o sol nascer
eu deixo
acontecer

oooohhh ohhhhh
oooohhhh ohhhohhh.

Wasil Sacharuk

Desígnio

Tela: Guro Solaiman

Desígnio

não me importo
com o quanto falas
mas sim com o que
ou o porquê

esboço teus encantos
quando desenhas sorrisos
versos imersos no pranto

mas tu és suave, menina
pensar poesia é tua sina
teu desígnio de anjo.

Wasil Sacharuk

Sopa

Exercício poema livre com gato, palavras e noite... Oficina Inspiraturas/APCEF Regional Sul :

Sopa

Preparei prato fundo
sopa de gengibre
com palavras
tomei três colheradas
o resto dei ao gato

mas ocorre de fato
é que na noite enluarada
vê a lua pendurada
num gancho atado ao mundo

e meu gato vagabundo
não passa debaixo de escada
não passa por apuros
não passa pela encruzilhada
de olhos abertos no escuro

e irrompe a madrugada
escreve versos a unhadas
na lua que espia sobre o muro.

Wasil Sacharuk

Cachos

Cachos

dedos pinçam
teus cachos
cuidadosamente
desarrumados
na textura
que mistura
forma e cor

sabes, eu acho
que teus cabelos
purgam desvelos
cascatas de amor

entre cachos
de fato
me desfaço
alinhavo o ato
transgressor.

Wasil Sacharuk


Sinistro


Sinistro


algumas feiuras encantam

dessas gentes livres

de olhares sinistros

e marcas na face

Flor de Cacto

 Mell Shirley Soares


Flor de Cacto

O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk

Catilinas choca Ceará


Catilinas choca Ceará

Conforme combinado, Cara Cabeludo conseguiu convencer companheiro Catilinas conhecer centro capital Ceará.

Calçaram chinelas, colocaram calças curtas cujo corte considerava charmosas coxas cabeludas, colocaram camisetas coloridas com chamamento "cristo chegará!". Com certo cuidado com carteira, caminharam calçadão com certeza conquistar charmosas criaturas cearenses cuja crença consiste consumar casamento cristão. Consideraram confeccionar crianças com carinhas celestiais conforme conduzirem coito com casamenteira cearenses.

Convidaram criaturas cafusas com cinturinhas contornadas, coxas colossais, cabelos compridos com chapinha, comer comidas com companhia chopes.

Chegaram casa com chef, com cozinheiro, cumins, comensais, cantor cover, com cabeças cobertas com chapéu couro, cuja competência consiste comercializar comidas caseiras cearenses congregadas com carnessol.

Contudo, Cara Cabeludo comeu carnessol, consumiu chope, comeu criatura cearense, conquanto Catilinas, condimentou comida com certo composto caliente, conquistou comichão cretina centro cu. Catilinas, com certeza, cagou cada canto Ceará.

Wasil Sacharuk