Décima Musa



Décima Musa

Vens da espuma de Urano absoluto
se os meus dedos te tocam a face
deslizantes afagos tão delicados
doce poiso nos lábios molhados

Vens fugaz e cadente de enlace
no gozo dos líricos atributos
a vislumbrar meus desejos ocultos
os teus versos revestem romance

Se nossas línguas remetem pecados
ao riso dos amantes crucificados
bocas profanas ousam performances
em que plasmam os nossos indultos

Nos intrépidos toques astutos
descoberta de formas e nuances
entre fios de cabelos assanhados
morada da musa dos versos safados

E as tuas curvas ao meu alcance
percorridas por meus modos brutos
loucos delírios de amante estulto
a purgar a fome de amor em catarse.

Wasil Sacharuk

Lá das bandas da saudade

Lá das bandas da saudade

São trinta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para um índio assar solito

sem fumo sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
alterno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro, cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte

espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas

mas hoje a saudade não ganha
encho outro liso de canha
ouvi nas milongas do Plata
que saudade cantada não mata

jogo no braseiro, tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote

espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte.

Wasil Sacharuk

Algumas coisas safadas


Algumas coisas safadas

Sussurro teu nome
desarrumo os cabelos
bebo beijos
e as roupas
já eram poucas
por mim são negadas

D'algumas coisas sagradas
jamais se esquece

Vejo a ti tão assim
quando enfim
sinto fome
boca que come
dentes e língua
a dança alucinada

Quero ser poeta
entre pernas abertas
sem pressa ou decoro
tal fera alimentada

Algumas coisas safadas
eu nunca disse

Vejo a ti tão assim
nos confins
dos desejos
entre meus dedos
sou teu homem
me digas que sim
e a mim
não recuses nada

as coxas afastadas
revelam os pelos
ocultam segredos
numa língua embriagada

Algumas coisas pensadas
entre minhas tolices

Vejo a ti tão assim
em suspiros aflitos
despida dos mitos
traduzida em mulher
meu poema te quer
crua e desvairada

deixo marcas espalhadas
pelas entradas
escorridas nos cantos
percorrendo os encantos
da poesia apaixonada.

Wasil Sacharuk