Branca coberta de andrajos

"Grimm Fairy Tales" - Gregory - Gunderson - Ruffino


Branca coberta de andrajos 

Branca coberta de andrajos
a tez reluzente porcelana
disfarce de musa no parnaso
não era promessa soberana 

Branca mimava aos farrapos
desenbaraçadores das minas
a donzela cozia os trapos
atraia animais nas campinas 

Branca sequer foi princesa
seu algoz esqueceu a frieza
e pousou a faca na bainha 

Branca renegou a nobreza
entregou sua vida à pobreza
para ser uma eterna rainha.

wasil sacharuk

Décima Musa



Décima Musa

Vens da espuma de Urano absoluto
se os meus dedos te tocam a face
deslizantes afagos tão delicados
doce poiso nos lábios molhados

Vens fugaz e cadente de enlace
no gozo dos líricos atributos
a vislumbrar meus desejos ocultos
os teus versos revestem romance

Se nossas línguas remetem pecados
ao riso dos amantes crucificados
bocas profanas ousam performances
em que plasmam os nossos indultos

Nos intrépidos toques astutos
descoberta de formas e nuances
entre fios de cabelos assanhados
morada da musa dos versos safados

E as tuas curvas ao meu alcance
percorridas por meus modos brutos
loucos delírios de amante estulto
a purgar a fome de amor em catarse.

Wasil Sacharuk

Lá das bandas da saudade

Lá das bandas da saudade

São trinta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para um índio assar solito

sem fumo sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
alterno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro, cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte

espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas

mas hoje a saudade não ganha
encho outro liso de canha
ouvi nas milongas do Plata
que saudade cantada não mata

jogo no braseiro, tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote

espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte.

Wasil Sacharuk

Algumas coisas safadas


Algumas coisas safadas

Sussurro teu nome
desarrumo os cabelos
bebo beijos
e as roupas
já eram poucas
por mim são negadas

D'algumas coisas sagradas
jamais se esquece

Vejo a ti tão assim
quando enfim
sinto fome
boca que come
dentes e língua
a dança alucinada

Quero ser poeta
entre pernas abertas
sem pressa ou decoro
tal fera alimentada

Algumas coisas safadas
eu nunca disse

Vejo a ti tão assim
nos confins
dos desejos
entre meus dedos
sou teu homem
me digas que sim
e a mim
não recuses nada

as coxas afastadas
revelam os pelos
ocultam segredos
numa língua embriagada

Algumas coisas pensadas
entre minhas tolices

Vejo a ti tão assim
em suspiros aflitos
despida dos mitos
traduzida em mulher
meu poema te quer
crua e desvairada

deixo marcas espalhadas
pelas entradas
escorridas nos cantos
percorrendo os encantos
da poesia apaixonada.

Wasil Sacharuk






O Último Arcano


O Último Arcano

Mais uma dose de fé
uma dose de fel
dose de céu
de ré

de dó
dose de sorte
uma dose de morte
mais uma dose de pó

mais uma dose de sol
uma dose de tédio
dose de remédio
de alcool

de ira
dose de argumento
uma dose de unguento
mais uma dose de mentira

Doses de inferno fecundo
paraíso humano
a sina do arcano

O Mundo

wasil sacharuk

Insights Fragmentados


Insights Fragmentados 

Fui ter com fantasmas
vasculhar outros planos
festins de entes humanos
entre confusos miasmas
num baile profano
entoavam retórica divina 

Eu era a frágil menina
coberta de rosas e branco
um signo de graça e encanto
e tinha a pureza genuína
da coroa de círculo e ramos
e a fome de enxofre e inferno 

Eu quis desvendar o mistério
levei minhas perguntas
nem sequer eram tantas
e exausta agora espero
o sinal, as respostas
o desígnio, o dote 

No corte violento da morte
clamei a presença de um deus
Elvis Presley, até Asmodeu
até mesmo outra sorte
e ninguém respondeu
para aplacar o meu medo 

A sina esconde segredos
insights fragmentados
insanos juízos alados
escritores dos enredos
entre atos predestinados
e os que eu puder inventar

wasil sacharuk

Véu do mistério

Véu do Mistério

Despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

Do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

Suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

Essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio

wasil sacharuk


Só por amor

Só por amor 

Quando eu era criança
na casa havia goteiras
pingavam noites inteiras
e ritmavam a dança
dos sorrisos no quintal 

Eu não sabia acerca do mal
na esteira do tempo que avança
e o bem ficou na lembrança
onde ele é o imortal
guardião da inocência 

Eu conheci as carências
entendi o destino natural
entre as luzes e o mundo abissal
e dessas experiências
colhi vitórias e desatinos 

Agora não sou mais menino
tenho novas referências
das tecnologias à obsolescência
mas preservo o sentido genuíno
de querer crescer por amor

wasil sacharuk

Desisti de ver o céu, Bob

Desisti de ver o céu, Bob

Bob, as velhas cruzadas
foram partilha de estradas
doce esteio de poesia
nosso norte era o dia
da consciência iluminada

Tua voz viajou na lufada
encheu minha vida vazia
sem culpa e de alma nua
escriba de versos na lua
não carecia mais nada

O vento virou de repente
arrancou nossos cabelos
enquanto caíam os dentes
perdeu toda a simplicidade
murchou a flor da idade

Por isso, parceiro, te digo
serás sempre caro, amigo
mas agora o que importa
é a segurança no abrigo
passar a chave na porta

Agora eu não sonho mais
nem quero olhar para trás
desisti daquelas promessas
e hoje procuro às avessas
outro conceito de paz

O mundo é carga pesada
e a vida levada na marra
banal e tão desfilosofada
ninguém ouve tua guitarra
nem mesmo remasterizada

Mas resta alguma saudade
entre o desejo e o lamento
escuto o murmúrio do vento
cantando aquela verdade
que foi esquecida no tempo

wasil sacharuk

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que se entenda ou que se dance

Que se entenda ou se dance

A que diabo serve
todo brilho de verve
que se consome faceiro
no óleo do candeeiro?

Fosse coisa de momento
porém todavia contudo não é

Todo dia sai um rebento
trazido pela maré
sem dificuldade

e o meu pensamento
é alugar um chalé
no centro da cidade
de São Lourenço
sem rádio nem tevê

alto do chão de tão leve
o espírito se atreve
insinua arteiro
abre as portas do puteiro

fosse coisa de momento
mas porém contudo não é

é desejo sedento
ou profissão de fé

fogo que arde
sopro do vento
qualquer outro clichê
que cause alarde
pelo entendimento
ou pela batida do pé

wasil sacharuk

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A alma com calma


A alma com calma

Canto baixinho
sussurrando
amarro os sapatos
mas não ando
parei o relógio
num segundo
fazendo bolinhas
do que é grande
a alma com calma
quer que eu cante

ando calminho
acalmando
andando de lado
vagueando
trouxe o ilusório
pro meu mundo
fazendo a vidinha
doce instante
a alma com calma
quer que eu cante

Santo cantinho
vou queimando
eu ando baseado
enrolando
sou um notório
viramundo
eis a vida minha
relevante
a alma com calma
quer que eu cante

wasil sacharuk


Cromático blues

Cromático blues

A escolha pelo verde
Deixou o beijo mais ardente
E uma luz vinda da noite
Balançou a seda rosa
Encantou a platéia amorosa
Tornou-se viva, única, harmoniosa

Do amarelo, veio o eterno
Quis o sonho deixar singelo
E a vida antes aborrecida
Abriu-se flor colorida
Amainou a solidão
Fez da trilha pura emoção

Tudo pareceu tão vermelho
Como refletiu no espelho
Uma imagem enfurecida
Enrubrecida quente ira
Na carne ardeu a sensação
A rubra cor do coração

E a canção era um blues
Entristecida nos azuis
Gritou solos distorcidos
Como colírio pros ouvidos
Pintou rainha das sereias
Como tingiu as minhas veias

Dhenova & Wasil Sacharuk

Ensaio da morte

Ensaio da morte

O gato preto escondia
o segredo da vida

Nas águas negras do mundo
o mergulho mais fundo

A ferradura impedia
o canto da agonia

O vislumbre numa carta
na voz do espirito da mata

O pé-de-coelho atiçava
a sorte louca, danada

Nas quebradas do destino
mil anjos cantavam um hino

O 13 permitia
a dor insana colorida

Apagada a luz que ilumina
as escolhas de uma sina

As três batidas na madeira
besteira?

Nas quatro folhas da sorte
o ensaio ingrato da morte

Dhenova & Wasil Sacharuk

Dhenova

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